POR VÍTOR DEL REY

Do lixo ao luxo ou do lixo para o luxo poderia ser uma explicação básica sobre o conceito do momento, a Economia Circular. Esse artigo não é uma crítica a ela, é uma reflexão que pretende mostrar o quanto as pessoas tão pretas de tão pobres e tão pobres de tão pretas sempre fizeram economia circular quando ela não era um hype, quando o movimento não tinha nem nome, nem classificação ou metodologia. O Ethos do artigo é mostrar a favela como como fonte incomensurável de inovação, criatividade, diversidade e afeto. 

Antes de mais nada, a melhor definição que achei de economia circular é do Parlamento Europeu, que dá conta de dizer que: “a economia circular é um modelo de produção e de consumo que envolve a partilha, o aluguel, a reutilização, a reparação, a renovação e a reciclagem de materiais e produtos existentes, enquanto possível”. Desta forma, o ciclo de vida dos produtos é alargado.

Na prática, a economia circular implica em reduzir o desperdício de resíduos ao mínimo. Quando um produto chega ao fim do seu ciclo de vida, os seus materiais são mantidos dentro da economia sempre que possível, podendo ser utilizados uma e outra vez, o que permite assim criar mais valor e evitar a emissão de materiais que levam milhões de anos para se decompor no ambiente, como plásticos e metais.

A economia circular contrasta com o modelo tradicional, o modelo econômico linear baseado no princípio “produz-utiliza-joga fora”. Esse modelo exige vastas quantidades de materiais a baixo preço e de fácil acesso e muita energia. A obsolescência programada, contra a qual o Parlamento Europeu pede medidas, também faz parte deste modelo linear tradicional, no qual os produtos são concebidos para um período de vida útil limitado de modo a incitar o consumidor a comprar outra vez. A economia circular por sua vez incentiva as pessoas a reutilizarem, dando novas formas e utilidade a objetos que naturalmente seriam descartados e, na maioria das vezes, de forma incorreta, acarretando num imenso circuito de poluição.

Nos anos de 2019 e 2020 a Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e a Holanda firmaram um acordo para auxiliar empresas na implementação de negócios circulares. A CIRCO, organização holandesa fomentada pelo Ministério da Infraestrutura da Holanda, assinou, na época, o Acordo de Cooperação Técnica para desenvolver, no Brasil, o projeto de Design Circular de Produto que é um misto de capacitação e consultoria. O projeto propunha a imersão de profissionais de indústrias de todos os portes nas chamadas Trilhas, que os auxiliavam a implementar soluções de economia circular em seus negócios. 

Carlos Mariani Bittencourt, vice-presidente da Firjan destacou, naquele período, o seguinte: “temos trabalhado o conceito de economia circular desde 2015. Nossa meta é zerar desperdícios e levar ganhos ambientais e econômicos para nosso estado. Essa é a importância desse acordo. Com a metodologia da CIRCO, oferecida na Casa, poderemos auxiliar as empresas a utilizar a economia circular nos seus modelos de negócio, aumentando a sua competividade.”

Todo mundo odeia o Chris é um famoso seriado americano de comédia e drama. A série conta a história da família Rock entre os anos de 1982 até 1987, com o foco no menino Chris (Tyler James Williams). Ele vive situações corriqueiras da vida de um adolescente, tanto nas histórias que realmente acontecem quanto nos pensamentos que são expostos de uma forma humorística. A série é baseada em fatos reais, mas nem tudo é real. 

A história começa no condado de Brooklyn, em Nova Iorque, nos anos de 1982 até 1983. A família Rock se muda de um conjunto habitacional, as COHABS, para uma casa no bairro de Bed-Stuy. Chris tem 13 anos e é o primogênito do casal Julius e Rochelle; ele é o irmão mais velho de Drew, um garoto atlético e bonito que sempre é paquerado pelas garotas (ao contrário dele), e da caçula Tonya, que é fã do cantor Billy Ocean e adora infernizar a vida dos irmãos.

Sua mãe, Rochelle, é uma mulher consciente das questões raciais que atravessam seus filhos e da única maneira que sabe, sendo firme e incisiva, tenta manter a família toda na linha. Seu maior medo é que seus filhos usem drogas ou acabem no crime. Fã declarado da série, o educador ítalo-brasileiro Pierluigi Piazzi (1943-2015), comentou sobre a personagem: “Eu adoro. Meu ídolo é a Rochelle. Se toda mãe fosse que nem a Rochelle, não teria problema nenhum”. 

Julius, pai de Chris, é uma pessoa extremamente trabalhadora, que luta pelo sustento de sua casa em dois empregos. Ele não gosta de gastar dinheiro excedente do necessário, reaproveita tudo e odeia desperdícios, fato que tornou-se piada frequente na série. 

A família Rock é um exemplo clássico das famílias pretas e pobres brasileiras, por isso que a série ganhou tanto destaque no Brasil. O que a narrativa dessa família preta, americana, do Brokllyn tem tanto a ver com a realidade preta e periférica brasileira? A pobreza, o racismo e a necessidade de reutilizar tudo em nome de uma economia que não é a circular, mas que poderia ser. Na série, um dos traumas de Chris é o fato de sempre ter que usar os tênis e as roupas do seu irmão, isso acontece porque o Druh é mais alto e naturalmente tem o pé maior, então no lugar de comprar tênis novos para Chris ou jogar os de Druh que são velhos fora, opta-se sempre por reutilizar, isso aparece logo no primeiro episódio. O fato de inúmeras vezes as roupas e assessórios circularem de filho para filho na mesma família já serviria para sustentar dois dos pilares mais importante da economia circular: reutilização e reaproveitamento. Nas famílias pobres, tudo é reutilizado; o copo de geleia vira copo para beber água, a garrafa de refrigerante vira garrafa d’água do dia-a-dia, roupas velhas ganham customização e passam a parecer mais novas e estilosas. Carrinhos de bebê, juntamente com todo o enxoval, são reaproveitados por uma outra família do bairro que não pode comprá-los. Na comunidade tudo é circular e essa dimensão da partilha orienta o sentido das pessoas.

O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), se vivo, definiria essas trocas como o fator que garante a coesão social em um período específico, pois elas fazem com que os indivíduos se sintam parte de um grupo social. Essa proposta é uma tentativa de responder às mudanças ocorridas, sobretudo, a partir da instauração do modo de produção capitalista que incentiva o consumo. Para Durkheim, a solidariedade mecânica é fundamentada nas tradições, nos hábitos e na moral; características muito presentes em sociedades pré-capitalistas e mais pobres. Já a solidariedade orgânica é baseada na interdependência gerada pela especialização do trabalho no modo de produção capitalista que presa pelo acúmulo.

A grande sacada é em primeiro lugar mostrar que em 1982, a família de Chris Rock já praticava, motivada pela pobreza, a economia circular. Em segundo lugar é que como prática o conceito não é nada novo e tão pouco original, e em terceiro lugar, o mérito das Escolas de Negócios, que transformaram um hábito, muitas vezes motivado pela escassez, em conceito cool. É importante para o planeta praticar economia circular, a prática dela garante a longevidade da humanidade. Agora se você é pobre é correto dizer que: todo mundo odeia economia circular, pois, para os pobres ela é em primeira mão sinônimo de escassez, de falta e quem hoje a celebra é quem sempre pode trocar, acumular, jogar fora, descartar mal, poluir, e por isso empurrou o planeta para o seu acaso. 

Celebrar a economia circular precisa ter a ver com um debate idealista que tira as pessoas da pobreza e as entrega a uma consciência cooperativista que salva o planeta.

Como Thamyra Thamara disse uma vez, a favela transformou o jeitinho brasileiro em metodologia, então, que a economia circular seja para todos um sinônimo de solidariedade e não de escassez.

Vítor Del Rey é presidente do Guetto, irrequieto, polímata e um fazedor por excelência.