POR REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL

Reter talentos em um mercado altamente competitivo é um dos motivos para a constituição de uma universidade interna ou corporativa, nome que se dá a um programa de educação continuada oferecido dentro das empresas. Quando uma companhia implanta um projeto que investe na capacitação de seu time e abre portas para o desenvolvimento de novas habilidades, o funcionário pode perceber como é valorizado por quem o emprega.

Com essa visão, as agências digitais Mirum e i-Cherry, que fazem parte do grupo WPP, uma das grandes holdings globais de comunicação, lançaram sua universidade, a Escola Cósmica. O nome se deve à ideia de que o conhecimento, assim como o universo, continua se expandindo. Implantada há três meses, a iniciativa está dando frutos e começa a ser preparada para se transformar em uma plataforma disponibilizada para terceiros. 

Robson Ortiz, CEO da Mirum (Crédito: divulgação)

Para explicar o projeto, o CEO da Mirum, Robson Ortiz, conta que a empresa tem há tempos um perfil de escola. Composta por profissionais que atuam com as ferramentas mais avançadas do marketing digital, as agências investem na capacitação de seus colaboradores, inclusive pagando por cursos e treinamentos oferecidos por instituições externas ou outras empresas. “Sempre fomos uma agência voltada para o futuro. Fomos pioneiros em links patrocinados”, conta Ortiz.

Essa vocação para o aprendizado pode ser vista também por um projeto lançado no ano passado: o curso “Especialização em Marketing Digital” oferecido para pessoas pretas e LGBTQIA+ de forma gratuita. Na ocasião, foram atendidos 20 alunos. 

O projeto voltou a acontecer neste ano, porém em parceria com a Escola Rua, uma escola de criatividade focada em promover diversidade, inclusão e equidade no mercado publicitário. E, assim, no primeiro semestre, 50 pessoas passaram por aulas com conteúdo técnico (com foco em mídia, SEO e análise de dados) e criativo (redação e direção de arte). 

Esse foi um movimento externo que acabou por levar gente nova para as duas agências. Mas logo se estruturou o plano de se criar algo internamente. Além da intensa disputa por talentos no mercado digital (devido à falta de especialistas), no digital existe a necessidade de fornecer constantes atualizações para os funcionários da casa. 

Por que não oferecer essa lógica de atualização para todos os colaboradores? Desse modo, surgiu o plano de criar um programa capaz de expandir conhecimentos para todos os times das agências.

Mellina Azevedo, diretora da equipe de especialistas na Mirum e na i-Cherry (Crédito: divulgação)

Tomada a decisão, era vital montar um projeto que pudesse ser levado adiante por todos os colaboradores interessados em aderir à proposta. A nova forma de trabalhar gerada a partir da adoção do home office, os desafios de gerenciamento do tempo e mesmo as novas demandas do mercado, que se transformou com a pandemia, exigiam um modelo de educação que não poderia ser monótono. 

“A gente concorre com o TikTok, com o scroll nas redes sociais. Essa é a nossa realidade”, pontua Mellina Azevedo, diretora da equipe de especialistas na Mirum e na i-Cherry (área focada em inovação para disseminar conhecimento) e responsável pela universidade interna.

MÉTODO, TRILHAS E PODCAST 

A escolha recaiu, após estudos, sobre um método conhecido como micro-learning. O aprendizado é dado em pílulas, ao longo de momentos. Uma aula não tem mais do que meia hora – a duração é variada. “As necessidades de conteúdo atualmente são muito imediatistas, interativas e sob demanda. Hoje, não adianta colocar 50 pessoas numa sala”, diz Mellina.   

A estruturação se dá por trilhas (há 15) e com formatos que vão de videoaulas a podcasts, de discussões em lives a exercícios práticos. Há um quadro semanal de bate-papo que recebeu o nome de Brainz. E um conteúdo especial elaborado com insights e dados de mercado batizado como Meteoro. 

O modelo da Escola Cósmica permite conectar as habilidades e o repertório de cada profissional. Um pode aprender mais a partir do conhecimento do outro. E isso fortalece a cultura de aprendizagem nas agências. Se alguém quiser oferecer alguma aula a respeito de sua habilidade, isso pode ser feito. Por meio de levantamentos internos foram definidos os atuais cursos. Mellina destaca que nada é criado de cima para baixo.

Tudo passa por checklists de boas práticas didáticas, dinâmicas de comunicação à distância e materiais de apoio. O resultado: mais de 100 funcionários colaboraram com o projeto. “Temos profissões que não existiam dois anos atrás. Atualmente, trabalhamos com 25 segmentos na agência. Isso significa uma maior capacidade de aprendizagem para oferecer”, comenta Ortiz. 

A universidade interna tem quatro pilares: habilidades técnicas, soft skills, repertório e cultura. Os profissionais das agências compartilham conhecimentos sobre análise de dados, planejamento estratégico, criatividade, storytelling, produtividade, cultura de experimentação, mídia e SEO, entre outros. Quando se encerra um módulo, é aplicado um teste para validação do conhecimento. Diante da aprovação, a escola emite um certificado de conclusão.

As habilidades técnicas focam o jeito de trabalhar das duas agências. “É o nosso feijão com arroz”, compara Mellina, que está há sete anos na casa. Na parte de soft skills entram habilidades humanas, como produtividade, comunicação e criatividade. 

Já no pilar repertório estão as indicações de filmes, livros, jogos e podcasts, material que entra na programação a partir de recomendações dos funcionários. “A gente ensina as pessoas a pescar referências. Elas se tornam caçadoras de tendências”, afirma Mellina. Uma das curiosidades a respeito dessa área é que se formaram diversos grupos para contribuir com essa parte. Entre eles estão os “Quarenteners”, compostos por perfis como os loucos por plantas ou os especialistas em comércio online. 

Plataforma Escola Cósmica (Crédito: divulgação)

Quanto à cultura, o conteúdo da Escola Cósmica versa sobre valores e princípios das duas empresas, como diversidade, inclusão, colaboração, confiança, agilidade e transparência. Nesse caso, há intensa colaboração do RH.

DE DENTRO PARA FORA 

Nesses três meses mais de 400 profissionais foram impactados pela Escola Cósmica. Indiretamente, os clientes da Mirum e da i-Cherry foram beneficiados. Agora, a proposta é fazer com que eles também possam usufruir da universidade corporativa. “Estamos na fase piloto. Vamos expandir no final do ano”, revela Mellina. Para isso, há um time de cinco pessoas dedicadas a preparar a nova fase do projeto. 

As agências digitais poderiam construir uma plataforma para preparar a Escola Cósmica para a nova jornada. Mas a opção foi contratar um serviço de learning experience já disponível no mercado e utilizado por empresas como O Boticário e Bayer. Ela está em fase de implementação. Quando a plataforma estiver pronta, os clientes da Mirum e da i-Cherry serão os primeiros beneficiados. “É importante dividir conhecimento”, reforça Ortiz. Ainda mais no marketing digital, que avança em velocidade de foguete.