POR REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL

“Alexa, peça para o Astro vir aqui”.

A empregada doméstica robótica dos Jetsons, Rosie, foi um símbolo da vida no futuro por quase 60 anos. As tentativas de comercializar robôs domésticos remontam, pelo menos, à década de 1980. No entanto, além do Roomba da iRobot e outros robôs que limpam o piso, robôs domésticos parecem tão distantes da realidade quanto carros voadores. Com o Astro, a Amazon pretende mudar isso.

O robô está em desenvolvimento há quatro anos — e tem sido objeto de rumores e especulações desde então. O Astro foi descrito como “Alexa sobre rodas ”, o que é verdade, já que está integrado à assistente de voz da Amazon para controle e pacotes de recursos — de chamadas de vídeo a reprodução de músicas — disponíveis em outros dispositivos. Com sua capacidade de monitorar residências em busca de intrusos e outros riscos à segurança, o Astro é uma extensão do ecossistema de segurança da Amazon, cujos produtos são da marca Ring da empresa.

A Big Tech afirma que o robô ainda não está pronto para ser comercializado em larga escala. O Astro estreou como parte de um programa exclusivo para convidados, permitindo que um grupo seleto de pessoas comprasse a novidade com desconto, pelo preço de US$ 1 mil. A Amazon planeja aceitar novos participantes interessados em testar o robô e ajudar a moldar o futuro do produto. “Nosso objetivo é obter feedback das pessoas”, diz o VP de produtos da Amazon, Charlie Tritschler.

(Crédito: cortesia da Amazon)

O NASCIMENTO DE UM ROBÔ

De acordo com Tritschler, o projeto Astro surgiu de uma discussão entre os executivos da Amazon sobre o futuro da robótica doméstica. “No final da conversa, foi algo como, ‘Alguém nessa sala acha que não teremos robôs em casa daqui a cinco ou dez anos?’”, ele recorda. O consenso otimista levou à decisão de que a Amazon deveria entrar em campo.

Como muitas outras invenções da empresa, o Astro surgiu a partir do processo criativo “de trás para frente” da Amazon. Isso envolve escrever um memorando de seis páginas sobre o produto como se ele estivesse pronto para ser lançado, junto com um press release imaginário e, em seguida, descobrir como torná-lo realidade. Antes de o esforço ir tão longe, Tritschler revela que os envolvidos no projeto — até o fundador da Amazon, Jeff Bezos — exploraram algumas abordagens diferentes para o robô. 

No Lab126, laboratório de pesquisa e desenvolvimento de produtos da Amazon em Sunnyvale, Califórnia, eles escolheram um formato rebaixado e uma estética de plástico branco reluzente que lembram os personagens WALL-E e EVE da Pixar. Remeter aos desenhos animados não é uma escolha deliberada, pois atribuindo personalidade ao robô a empresa descobriu que os participantes do teste geravam respostas melhores. 

(Crédito: cortesia da Amazon)

O Astro tem uma tela sensível ao toque com dois grandes círculos que piscam e transmitem emoções de acordo com estímulos externos, representando os olhos. Essa tela é conectada a uma haste semelhante a um pescoço que permite ao robô inclinar para frente e para trás, simbolizando gestos comunicativos. O robô não tem voz própria, mas a fala é uma parte importante de sua interface de usuário, por isso carrega a Alexa a bordo.  

Projetado para ser fácil de pegar e carregar, o Astro pesa cerca de nove quilos e consegue movimentar-se pela casa a até um metro por segundo. Uma câmera montada em uma extensão semelhante a um periscópio pode se estender até uma altura de doze metros, o que lhe dá a capacidade de obter uma visão mais ampla de seus arredores.

Junto com câmeras, alto-falantes e microfones, o robô vem com vários sensores que o ajudam a navegar em seu mundo. Eles permitem que ele veja o espaço 3D ao seu redor e construa um mapa para navegação futura; além de detectar objetos em seu caminho, como pessoas ou animais de estimação e evite cair de escadas (pois é uma tecnologia para ambientes térreos e planos). Ele vem com um deck de carregamento para onde se desloca ao longo do dia, recarregando a bateria automaticamente, sem que o usuário precise se preocupar com a falta de energia.

Então, o que toda essa tecnologia permite? Muito disso está relacionado à segurança doméstica. O Astro pode servir como uma câmera de segurança móvel, patrulhando a casa quando os moradores não estiverem lá. Assinando um novo serviço de segurança da Amazon chamado Ring Protect Pro, o robô pode salvar gravações do que vê no armazenamento em nuvem do Ring. Se detectar alguém dentro da casa enquanto o residente não estiver, ele pode soar um alarme.

Trabalhando com outro serviço chamado Alexa Guard, o Astro pode emitir alguns sons como vidros quebrados ou detectores de fumaça disparando para alertar as pessoas. É possível controlar o robô remotamente para, por exemplo, entrar na cozinha e verificar se o usuário lembrou de fechar a janela.

Outra área de foco do Astro é ajudar as pessoas a manter contato com entes queridos, como pais idosos que podem viver longe. Com o aplicativo Astro no smartphone, o robô pode ser instruído para encontrar alguém, ou procurá-lo em um momento programado regularmente — como a primeira hora da manhã — e relatar de volta para o usuário. O robô trabalha com um novo serviço para cuidadores chamado Alexa Together, e a Amazon também fez uma parceria com a Omron, fabricante de equipamentos de monitoramento de saúde, para que o Astro possa lembrar as pessoas de verificar sua pressão arterial, por exemplo.

Ele reproduz músicas, filmes e faz chamadas de vídeo, além de seguir o usuário enquanto faz isso. O robô tem uma caixa de armazenamento em que pode-se colocar um item — como uma garrafa de água — e, em seguida, ser instruído para entregar a carga a alguém em outra sala. Tritschler diz que seu próprio Astro o cumprimenta na porta de casa quando ele chega do trabalho. 

(Crédito: cortesia da Amazon)

MAS, E A PRIVACIDADE?

É fácil imaginar entusiastas de gadgets se divertindo com o Astro. Mas é igualmente óbvio que algumas pessoas se irritarão com toda a ideia por motivos de privacidade. Colocar microfones sempre ligados e câmeras conectadas à Internet em uma casa apresenta uma série de armadilhas potenciais, muitas das quais também se aplicam a dispositivos domésticos mais convencionais da Amazon, como seus alto-falantes e telas inteligentes Echo. Coloque esses microfones e câmeras em um robô que pode navegar autonomamente por uma casa, e as preocupações só se multiplicam.

Tritschler afirma que a Amazon entende que as pessoas vão querer a garantia de que o Astro não é uma máquina invasora de privacidade: “Percebemos que isso era fundamental, então sempre colocamos o usuário no controle”. Por exemplo, antes de gerenciar o Astro e assistir as gravações de vídeo no celular, os dois dispositivos precisam estar em um só lugar para emparelhá-los, reduzindo as chances de acesso não autorizado. Quando o robô está capturando imagens, elas aparecem na própria tela do Astro e uma luz verde acende em seu periscópio, alertando aqueles que estão em sua presença de que estão sendo gravados. Um botão proeminente permite desligar as câmeras, microfones, sensores e motor do robô com um toque, e o usuário pode impedi-lo de se aventurar em áreas específicas de sua casa. (Tritschler dá os banheiros como exemplo, o que ilustra os novos perigos de colocar uma câmera sobre rodas.)

(Crédito: cortesia da Amazon)

Um recurso chamado “Visual ID” permite registrar os rostos dos membros da família para que o Astro possa encontrar pessoas específicas na casa. As impressões de rosto que ele cria — de cinco ângulos diferentes — são armazenadas no robô, e não na nuvem. E a criação de IDs visuais é opcional.

O Astro também constrói um mapa da sua casa para ajudá-lo a se localizar. Isso fica armazenado na nuvem da Amazon, um fato que já gerou ceticismo sobre o que a empresa pode fazer com esses dados altamente pessoais. A empresa afirma que não usará esses mapas para marketing, publicidade ou recomendações de produtos.

Oferecer à Amazon acesso aos sons e imagens dos acontecimentos dentro de casa sempre ressaltará cenários distópicos para algumas pessoas.

Em última análise, o Astro é um primeiro rascunho do futuro dos robôs domésticos, na melhor das hipóteses. A Amazon nem mesmo tentou dar ao robô a capacidade de lidar com escadas ou agarrar objetos, mas Tritschler diz que está interessado em ambos os recursos assim que a tecnologia estiver pronta. Ele também fala sobre os robôs da Amazon serem capazes de detectar a solidão ou a depressão, possivelmente como um meio de ajudar no bem-estar das pessoas mais velhas. “Prevemos que será algo em que as pessoas terão interesse”, alega ele.

Se a Amazon entrar no negócio de monitoramento de humor, você pode esperar novas controvérsias que vão muito além daquelas provocadas pelo Astro em sua forma inicial. Tritschler diz que o Astro não é um experimento único: “Este é nosso primeiro robô, mas definitivamente não é o último”. O que significa que mesmo aqueles de nós que não estão dispostos a gastar US$ 1 mil em um robô doméstico — da Amazon ou de qualquer outra pessoa — podem querer controlá-lo à distância.