POR REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL

Estudar durante os dias mais severos de isolamento social foi uma tarefa complexa para alunos da rede privada e da pública. Mas entre os matriculados nas escolas estaduais e municipais, o esforço teve de ser ainda maior. Isso porque o contingente de jovens sem acesso à internet é alto. Dados divulgados neste ano pelo IBGE indicam que cerca de 4,3 milhões de estudantes não tinham como navegar pela web em 2019. Deles, 4,1 milhões eram da rede pública.

Ainda que os números sejam relativos ao período anterior à pandemia, eles ilustram o tamanho do desafio para os educadores. Outro componente a dificultar mais o aprendizado é o fato de que muitos lares dos alunos da rede pública não dispõem de computador. A solução acaba sendo o celular. E frequentemente é o aparelho dos pais que garante o estudo.

Esse é um quadro conhecido por Kelly Baptista, coordenadora geral da Fundação 1 Bi, entidade apoiada pelo Grupo Movile que visa promover oportunidades para os estudantes brasileiros e apoiar e capacitar organizações de impacto social, os dois propósitos por meio da tecnologia. A instituição, que atua em parceria com iFood, Fundação Lemann e Imaginable Futures, tem como foco de um de seus projetos uma solução de reforço escolar para os jovens da rede pública: o AprendiZAP.

A ferramenta existe desde 2019, mas foi concebida para desenvolver competências do futuro (como liderança e resolução de problemas), servir de guia de estudos para o Enem e ajudar professores a adotar recursos tecnológicos na sala de aula. Quando a pandemia fechou o mundo, a fundação percebeu que seria importante adaptar o projeto à nova realidade estudantil.

A partir daí, elaborou-se um conteúdo para o Ensino Fundamental II, que abrange do 6º ao 9º ano. O AprendiZAP funciona como um chatbot. É gratuito, nacional e é acessado pelo WhatsApp. O material disponibilizado para esses estudantes foi preparado por um time de professores contratados para essa missão. Foram montadas 1.440 aulas, divididas entre português, inglês, matemática, história, geografia, ciências e artes.

O lançamento aconteceu em abril do ano passado, mês seguinte ao início da quarentena. Desde então, foram impactados mais de 221 mil estudantes por meio do AprendiZAP do Ensino Fundamental. Para poder usufruir do conteúdo, o aluno envia um “oi” para o número (11) 97450-6763 ou acessa o serviço via link. Ele apenas apresenta seu primeiro nome. Para preservar a privacidade, nada mais é solicitado. A busca do conteúdo é feita pelo jovem.

Digamos que Pedro, que está no 8º ano, acesse o serviço. Ele irá interagir com o chatbot para informar qual é o objeto de seu interesse. Ele pode solicitar um determinado tema a partir dessa conversa: uma aula específica de ciências, por exemplo. Ao localizar o conteúdo pela pesquisa, Pedro irá acessá-lo. Ele estará disponível na forma de PDF e até como vídeo (gravado por educadores). Mas tudo via WhatsApp. A intenção é manter o jovem no AprendiZAP – e não o direcionar para links externos – para que sua atividade possa ser monitorada.

PLATAFORMA PARA QUEM ENSINA

Como a plataforma passou a ser rotineiramente indicada por professores, a fundação decidiu criar um serviço para eles. E isso em meio à pandemia. Hoje, eles contam com um número exclusivo, o (11) 94394-7201 (também podem acessar por link). Pelo AprendiZAP Professor, é possível acompanhar o aluno ou a turma – verificando-se que conteúdo acessaram e quantas vezes entraram na plataforma durante a semana –, passar atividades e fazer a correção desses exercícios e organizar material para as aulas.

Desse modo, a ferramenta se tornou uma extensão da escola. Hoje, a instituição conta com 29,5 mil professores cadastrados no serviço. A plataforma feita para eles também foi preparada por educadores.

Mas e agora que as aulas voltaram a ser presenciais? “O AprendiZAP é uma ferramenta de reforço escolar. Serve para que o aluno estude dentro de casa. Muitas vezes, o aluno tem dúvidas fora da escola. Com isso, ele pode esclarecer algumas pelo WhatsApp”, explica Kelly.

NOVO ENSINO MÉDIO

Neste mês, o chatbot ganha novo “capítulo”. Ele passará a auxiliar estudantes do ensino médio em 2022. Ou melhor, do Novo Ensino Médio. A partir do ano que vem, entra em vigor um modelo educacional que foi aprovado em 2017. Segundo o Ministério da Educação, a reforma pretende aproximar os jovens das transformações do mercado de trabalho.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece uma estrutura que vale para todas as escolas. A nova grade irá contemplar os chamados “itinerários formativos”, que serão escolhidos pelos alunos. As novas matérias são Linguagens e Suas Tecnologias; Matemática e Suas Tecnologias; Ciências da Natureza e Suas Tecnologias; Ciências Humanas e Sociais Aplicadas; Formação Técnica e Profissional. Somente as disciplinas de português, matemática e inglês serão obrigatórias nos três anos do curso.

O AprendiZAP para o Ensino Médio foi desenvolvido já com essa base. A expectativa é que a plataforma impacte mais de 100 mil pessoas, entre alunos e professores, até março de 2022.

“Sabemos que a pandemia impactou tanto alunos quanto professores, gerando um déficit de aprendizagem para muitos que tiveram dificuldades para acompanhar as aulas remotamente. Dessa forma, esperamos que a nova função do AprendiZAP seja um guia para que os professores implementem conteúdos de acordo com o Novo Ensino Médio em sala de aula e ajude a minimizar os impactos do coronavírus na educação”, declara Débora Nunes, analista de produtos e soluções da Fundação 1 Bi e responsável pela plataforma. Ela faz parte do time dedicado ao serviço, composto por seis pessoas, entre elas profissionais de educação, desenvolvedores e cientistas de dados.

Por que o novo AprendiZAP foi disponibilizado agora, já que as aulas segundo o novo modelo só serão aplicadas no início de 2022? “Desde março, estávamos discutindo o que iríamos fazer a respeito do BNCC. Em julho, contratamos professores para preparar as aulas do Novo Ensino Médio. Agora já tem conteúdo disponível. Lançamos no dia 15 de outubro, no Dia do Professor. Ele pode acessá-lo imediatamente para se adaptar ao novo modelo”, conta Kelly.

Afinal, também para eles as mudanças são importantes e é preciso estar preparado para as transformações aprovadas pelo ministério. “São vários eixos e ferramentas para o professor conferir”.

Como o AprendiZAP já tinha orientação para o Enem desde seu surgimento, no próximo mês ele deverá ter mais interações por estudantes que querem se preparar melhor para os exames. As provas do Enem vão ocorrer nos dias 21 e 28 de novembro.

LIÇÕES

Com esse mais de um ano de pandemia, a Fundação 1 Bi conseguiu analisar erros e acertos do projeto. Uma delas foi a necessidade de implementar um botão de busca. “A gente queria dar liberdade de escolha para o aluno pensando em gerar maior engajamento, mas patinamos no início e ele teve mais dificuldade para encontrar as aulas que queria”, lembra Kelly. Por isso, o botão de busca foi criado.

Outro obstáculo foi deixar claro que o serviço é gratuito. Como muitos alunos dependiam do celular dos pais, normalmente eles acessavam e julgavam que a plataforma iria cobrar algo deles. “Começamos a comunicar a gratuidade”, diz a coordenadora da entidade.

A divulgação dessa informação foi feita por meio das redes sociais e das redes de professores, além da ajuda de outras organizações como a Todos Pela Educação. “Mas nosso maior canal é a rede de professores”, completa ela.

Uma curiosidade: dentre as aulas disponíveis atualmente para os alunos, qual a mais consultada por garotos e garotas? “Os alunos buscam muito as áreas de exatas. Talvez mais pelas dificuldades de fazer exercícios”, revela.

Sobre o problema do acesso à tecnologia, Kelly ressalta que essa é uma questão séria e antiga. “Na periferia, o que funciona é o WhatsApp”, afirma com a experiência de quem cresceu e vive em uma região periférica. A instituição sabe que, nos rincões do país, o estudante está desfavorecido. Não só pela oferta de dispositivos como pela falta de boa conexão.

Diante desse cenário, o WhatsApp foi o meio identificado como o mais viável para os jovens que vivem em comunidades ou bairros distantes do centro. Isso porque normalmente as operadoras fornecem acesso gratuito a essa plataforma dentro do pacote de dados. Outra dificuldade dos pais desses estudantes é que seus aparelhos não costumam ter muita memória. Portanto, a Fundação 1 Bi não ter desenvolvido um aplicativo específico para esse propósito foi uma decisão estratégica. O WhatsApp já está mesmo lá, no aparelho. E hoje é muito difícil encontrar alguém que não tenha o mensageiro em seu celular.