POR REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL

Em 2016, o dicionário Oxford elegeu o termo “pós-verdade” como a palavra do ano. À época, o empresário Donald Trump havia acabado de ser eleito presidente dos Estados Unidos amparado também, mas não somente, em uma máquina de desinformação – que, de tão absurda, levou até mesmo parte da imprensa americana a dar as notícias sobre a sua candidatura na página de entretenimento

O espanto ante a sua vitória logo mostrou, porém, a gravidade da situação. O país mais rico do mundo – que vinha em um processo de radicalização desde a crise de 2008, com o surgimento do Tea Party, o crescimento da Fox News e da ultradireita do Partido Republicano, representada por figuras como Sarah Palin – estava nas mãos de um homem que não tinha o menor escrúpulo em se valer de uma indústria de mentiras, manipulações e achaques para governar. 

Não foi sem reação. Em resposta à máquina de desinformação instalada na Casa Branca, a tradicional imprensa americana fez valer seu compromisso com o país, no que foi respaldada por parte da população. 

Ante a pandemia de Covid-19, agravada nos Estados Unidos pelo fanatismo anti-científico dos radicais republicanos, a informação qualificada teve seu valor social posto de novo em cena. Não apenas lá, mas também no Brasil e em outros países que têm enfrentado, com mais ou menos sucesso, o desafio de se manterem como um corpo estruturado, fincado na realidade, diante do mundo paralelo criado por seus governantes. 

E é justamente essa luta que foi coroada no final da semana passada com a concessão do Prêmio Nobel a dois jornalistas que enfrentam desafios que nos remetem aos anos mais duros da história brasileira – a ditadura civil-militar (1964-85). 

Maria Ressa, co-fundadora do site de notícias Rappler, tem enfrentado essa batalha diante do crescente arbítrio do governo de Rodrigo Duterte, um dos mais sanguinários do mundo, nas Filipinas. Por meio da busca pela verdade e do melhor jornalismo investigativo, o Rappler se contrapõe à máquina de execuções e perseguições instalada pelo ditador. 

O russo Dmitry Muratov co-fundou o jornal independente Novaja Gazeta e foi seu editor-chefe por 24 anos. Em sua carreira, viu a censura e autoritarismo recrudescerem na Rússia, quando se esperava que devessem permanecer em algum lugar do passado, junto das piores lembranças deixadas pela ex-URSS. A publicação teve mais de 20 jornalistas mortos.

A premiação da academia norueguesa merece destaque não apenas por colocar em cena o valor da busca pela verdade, como também por laurear a categoria mais vulnerável da imprensa contemporânea: justamente os jornalistas de veículos independentes que, além de terem de enfrentar pressões políticas e econômicas, lutam em condições financeiras e jurídicas muito adversas. Na Rússia, nas Filipinas, no Brasil, na Colômbia, no México e em uma série de países onde as fronteiras entre a política, o autoritarismo e a criminalidade já não são tão claras.

Portanto, o resgate do valor social da informação profissional – que chegou a ser dada como morta entre os anos 2000 e boa parte dos anos 2010 – não significa que a brutalidade dos anos recentes tenha ficado para trás. Ao contrário. Deve servir de alerta para que possamos evitar novas vítimas não apenas no jornalismo, mas na sociedade como um todo. Como o número de mortos pela Covid-19 que não quiseram se vacinar e a própria dificuldade de países como os Estados Unidos em concluir a vacinação não nos deixam esquecer.