POR REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL

Salvadoras no início da pandemia, as máscaras de pano – sejam as feitas em casa ou por grandes marcas – estão sendo banidas em certas situações. Não se trata de um movimento que negue o perigo da Covid-19, e sim umada comportamento cada vez mais adotado por companhias aéreas internacionais. Uma das mais recentes a anunciar a medida foi a Finnair, da Finlândia, que publicou o aviso para o público em suas redes sociais, em meados de agosto.

Em meio aos casos de contaminações acelerados pela variante Delta – que tem maior velocidade de transmissão –, o argumento é que as peças de pano não são tão eficazes quanto as máscaras de padrão médico. Por esse motivo, empresas como Finnair, Air France, Lufthansa e Swiss Airlines determinaram que a bordo somente podem ser usadas as cirúrgicas, as do tipo N95 ou PFF2 (como é chamada no Brasil, que tem eficiência mínima de 94%) e as PFF3 (com eficiência mínima de 99,7%).

No início do ano, países europeus começaram a recomendar o uso de máscaras médicas à medida que cepas mais transmissíveis do novo coronavírus, como a variante Alfa (ou britânica), começaram a se espalhar. Na França, o governo recomendou que a população usasse apenas máscaras cirúrgicas descartáveis ​​ou as N95. Já na Alemanha e na Áustria, os governos exigiram que os cidadãos adotassem peças faciais com filtro (as PFF) no transporte público, nos locais de trabalho e nas lojas. A justificativa alemã, apresentada no anúncio, foi que as máscaras de pano “não estão sujeitas a nenhum padrão quanto à sua eficácia”.

Máscaras de pano, de qualquer tipo, estão sendo banidas por companhias áreas como Finnair, Air France, Lufthansa e Swiss Air. (Crédito: Unsplash/ Parastoo Diba)

Nos Estados Unidos, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), agência do governo que monitora a saúde pública e orienta procedimentos médicos, prefere priorizar a N95 para os profissionais de saúde. Mas algumas organizações estão incentivando as pessoas a usarem máscaras de proteção médica. É importante notar que o CDC mudou várias vezes as diretrizes adotadas contra a covid-19 durante a pandemia e é possível que ela acabe por seguir o exemplo da Europa, recomendando as peças mais protetoras.

Por aqui, em 25 de março a Anvisa aboliu o uso a bordo de lenços, bandanas, protetores conhecidos como “face shield” sem máscaras por baixo, protetores com válvula de expiração (mesmo os profissionais), e máscaras de acrílico ou de plástico transparente. Mas são permitidas as peças de pano desde que sejam confeccionadas em algodão e tricoline, possuam mais de uma camada de proteção e tenham ajuste adequado ao rosto, cobrindo nariz e boca, sem permitir aberturas laterais, por exemplo, por onde escaparia o ar.

Desde o dia 1º de março, a LATAM decidiu restringir protetores bucais, lenços, bandanas e algumas máscaras, entre elas, as de pano, de camada única, “devido à comprovada baixa eficiência desses itens na filtragem de vírus e bactérias”. A empresa, que só permite no voo as autorizadas pela Anvisa, alega ter sido a primeira companhia na América do Sul a abolir as peças hoje proibidas.

A Gol, por sua vez, declara sempre ter acreditado na eficácia das máscaras como dispositivo de proteção individual contra a disseminação da covid-19. Tanto que “foi a primeira companhia aérea brasileira a engajar 100% dos seus clientes no seu uso a bordo”, desde maio de 2020. A empresa informa ainda que constantemente adapta seus procedimentos para garantir ao máximo a segurança de passageiros e funcionários, “de acordo com a evolução do entendimento das maiores autoridades de saúde brasileiras e mundiais”.

O uso das máscaras a bordo segue os critérios da Anvisa. É permitida apenas a utilização nos voos de máscaras cirúrgicas descartáveis, modelos N95 ou PFF2 (sem válvula) e máscaras de tecido com no mínimo duas camadas.

A Azul, que afirma que foi a primeira aérea do país a exigir o uso de máscaras de proteção facial a bordo, também orienta a utilização de máscaras cirúrgicas descartáveis, de alta eficiência (N95, PFF2 ou equivalente; todas sem válvulas), e caseiras fabricadas em tecido, se forem confeccionadas com camada dupla. Ela acrescenta que monitora constantemente o cenário da pandemia no Brasil e os riscos de transmissibilidade em seus voos.

A Finnair determinou que só são admitidas a bordo máscaras de padrão médicos, como as N95 ou PFF2. (Crédito – Finnair/ Facebook)

Perguntada se pensa em banir todo tipo de peças de pano, inclusive as multicamadas, a Azul respondeu que, até o momento, não considera proibir as máscaras de pano com camada dupla. Mas reitera que elas devem ser utilizadas corretamente, cobrindo nariz, queixo e boca.

Em 30 de julho, a Azul foi parar nas redes sociais porque uma passageira do voo AD4501, que saiu de Belém para Belo Horizonte, causou um transtorno durante a viagem por se recusar a cumprir as regras de uso de máscara. Ela chegou a desrespeitar os comissários de voo.

A aeronave retornou ao aeroporto de origem para desembarque da cliente, que foi levada pela Polícia Federal. A companhia ressalta que procedimentos desse tipo, rigorosos no uso das máscaras protetoras, são essenciais para garantir a saúde e bem-estar de todos a bordo.

PROTEÇÃO REGULAMENTADA 

A Covid-19 se espalha por meio de gotículas ou partículas que ficam no ar quando uma pessoa infectada espirra, tosse, fala ou respira. Colocadas corretamente, todas as máscaras devem reter as gotas que escapam do nariz e da boca do usuário, o que pode proteger outras pessoas. Segundo Christian L’Orange, professor de engenharia mecânica na Colorado State University, cujo laboratório mede a eficácia desses produtos, se todos os integrantes de uma comunidade adotassem a máscara, isso impediria a propagação da doença.

A questão está na quantidade de proteção que uma máscara de pano oferece em comparação com uma peça de padrão médico. Em um teste conduzido pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), as máscaras cirúrgicas forneceram 71,5% de filtragem, mas apenas quando tinham laços que proporcionavam um ajuste bem firme no rosto. As máscaras com alças auriculares ofereciam apenas 38,1% de filtragem.

Como as máscaras de tecido vêm em ampla variedade de materiais e designs, é difícil estipular quão eficazes elas são. O que os pesquisadores podem afirmar é que uma vedação melhor ao redor do rosto do usuário, ao apertar as alças na orelha, poderia aumentar a capacidade de filtragem de uma máscara de tecido entre 60,3% e 80,2%.

O problema, como alegam as companhias aéreas internacionais, é que não há padrão para saber se a máscara de tecido feita artesanalmente está oferecendo proteção robusta ou não. Já as peças de padrão médico estão sujeitas a regulamentações governamentais. Sem a possibilidade de padronizar a produção caseira, fica realmente difícil garantir que a peça feita com a melhor das intenções está realmente protegendo alguém.