POR REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL

O Rock in Rio está aquecendo suas turbinas para a edição 2022, que está a menos de um ano de acontecer (o festival será nos dias 2, 3, 4, 8, 9 10 e 11 de setembro). Mas enquanto os fãs de música se preparam para a maratona de shows do ano que vem e aguardam mais nomes do concorrido line-up, os fãs da marca tiveram a chance de conhecer um evento diferente, com uma proposta que não encontra paralelos com outro festival do porte do RiR. Embora também tivesse música, o foco estava em outra “arte”, por assim dizer: conversar.

Organizado em quatro dias e com mais de 80 horas de conteúdo, o Rock in Rio Humanorama, um braço novo da franquia, foi definido como um festival de conversas. Ou de conexões e encontros. Com temáticas que incluem desde autoconhecimento até inclusão de PCD, de antirracismo até a habilidade de se relacionar com outras pessoas, de etarismo à economia circular, à primeira vista o evento poderia ser interpretado como um novo TED ou outra conferência com palestrantes famosos ou inovadores para compartilhar suas vivências. Mas não era isso que se queria.

Como conta Agatha Arêas, vice-presidente de learning experience do RiR, o Humanorama não se inspira em nenhum outro evento. E ele não poderia ser um TED exatamente por não ser feito de palestras. O formato é de interação, com muita troca e direito a desenvolvimento de atividades pelo público. “Nossa programação prezou muito por só ter conversas ou workshops”.

Gratuito e digital, o evento Rock in Rio Humanorama está hospedado em uma plataforma onde os interessados nas conversas deviam se cadastrar e criar “seu cartão”. Nele estavam foto, nome, estado e país – o evento foi criado no Brasil e em Portugal. 

Durante os dias do festival, com encerramento no dia 17 de setembro, um chat esteve à disposição, com pessoas podendo se encontrar por meio de interesses (como autocuidado e cidadania ativa) e iniciar conversas. Ou fazer busca por nome. Isso quer dizer que se uma conversa – ou encontro -, como o de Gilberto Gil, com a jornalista Andreia Sadi e Preto Zezé, presidente nacional da Cufa (Central Única das Favelas), rendesse um chat animado, era possível estabelecer conexões com as pessoas, continuando o papo sobre um determinado assunto. 

Passou o evento e alguém perdeu as conversas que mais gostaria de ter acompanhado? Elas ainda poderão ser vistas na plataforma. O material foi gravado e estará disponível até dezembro deste ano – mas por enquanto ele entra na íntegra, conforme o dia e o palco. Depois, as conversas serão editadas e poderão ser vistas uma a uma. 

Outro destaque da plataforma, mesmo com o final do evento, é que os usuários poderão continuar conhecendo gente nova de acordo com os interesses temáticos definidos ao se cadastrar no sistema. Quem estiver conferindo os conteúdos poderá interagir com outras pessoas na hora.

LINE-UP E PODCAST

A programação do festival, que começou a ser construída em janeiro, estava recheada de nomes conhecidos nacionalmente, como Monja Coen, Fátima Bernardes e Fábio Porchat, e havia também famosos em outros países, caso do DJ brasileiro Alok e da feminista e escritora nigeriana Chimamanda Adichie. Parte desses encontros viraram posts nas redes sociais ou entraram no podcast que foi criado para a nova plataforma. O Humanoramacast está disponível no Spotify.  

Mas por que criar tudo isso quando se tem uma franquia que é referência na indústria da música? “A marca Rock in Rio sempre foi mais do que o maior festival de música e entretenimento do mundo. Ela tem dimensão cultural e faz parte da história de, pelo menos, quatro gerações”, afirma Agatha. 

Desse modo, pontua, o RiR, que foi criado em 1985, vai passando dos pais para os filhos. E vai acompanhando a evolução dos tempos. Afinal, mesmo que a tecnologia mude, uma das características do evento é ser um projeto de comunicação gigante e ter um bom entendimento de narrativas, captando o espírito do tempo. “Ter o cuidado de estar sempre dentro de um contexto social é importantíssimo para a gente”.

Segundo Agatha, o RiR entendeu seu papel na sociedade. “O que podemos fazer através da nossa atividade-chave, que é a cultura? Como a gente incentiva o turismo? Como impacta positivamente a economia da cidade? Além disso, há 20 anos a gente mobiliza muito a iniciativa privada e tem investido, junto com nossos parceiros, em causas socioambientais”, enumera. 

Em 2001, a marca ganhou a assinatura “Por Um Mundo Melhor”. Mas, logo na origem, ela já se estabelecia com esse propósito, avalia Agatha, ao dar voz a uma geração e resgatar a autoestima da população, que saía da ditadura. 

Agatha Arêas 

ESPETÁCULO DO HUMANO

Há dois anos e meio, outro movimento surgiu na organização. Foi aberta a área de learning experience. Antes disso, tinha sido criado o RiR Academy, curso de formação executiva com base no modelo de negócios do festival. E em Portugal, em 2018, foi lançado o RiR Innovation Week, que começou com inovação tecnológica e foi reposicionado para inovação humana. “Faz mais sentido para o que a gente vive e promove, a conexão humana. Foi no RiR Innovation Week que a gente teve a centelha. Foi o primeiro movimento para chegarmos ao RiR Humanorama”, revela.

O conceito de inovação humana foi embalado na segunda edição do projeto em Portugal, em 2019, e agora, em 2021, o evento deixou de ser Innovation Week para o atual nome. A esse respeito, aliás, vale esclarecer que o sufixo vem do grego “hórama”, que quer dizer vista, espetáculo ou “descortinar de algo”. Por isso, Agatha conclui que o novo evento é, na verdade, um espetáculo do humano. 

A partir dessa conceituação, veio outra decisão: devia ser um festival de diálogos para que se pudesse provocar reflexão e empatia. “O Humanorama é um desdobramento natural daquilo que vem sendo o RiR. Em 1985, foi primeiro festival do mundo a iluminar a plateia”. 

É isso que eles pretendem continuar a fazer, iluminar as pessoas. Sobretudo neste momento, com uma pandemia levando o mundo a repensar tudo. A polarização gigantesca que vivemos é também uma questão a influenciar a criação da plataforma. Para Agatha, uma das grandes razões do grau de polarização em que estamos mergulhados é por estarmos no “piloto automático”. Em outras palavras, não se para por um minuto de reflexão. Quantos, ao receberem fake news, não pensam mais detidamente sobre aquilo? E, a partir daí, espalham-se comentários inflamados. 

“Não dá para continuarmos assim. A gente tem de exercer uma das maiores qualidades humanas, que é o pensamento. E também outra delas, que é a empatia”, analisa. Assim, Agatha explica os fundamentos do RiR Humanorama. “Estamos dando resposta a uma demanda, a um desejo das pessoas de realmente trabalhar determinados temas, conversando sobre eles, dialogando e construindo o novo com base num entendimento coletivo”.

COMPLEMENTARIDADE DE OLHARES

Com curadoria de conteúdo da jornalista carioca Michelle Aisenberg, a programação contemplou uma grande diversidade de temas e participantes. “Fizemos esforço de colocar pessoas de background diferentes nas conversas. Juntamos visões diferentes. Para que pudesse ter uma complementaridade de olhares e houvesse exercício de empatia”, descreve. 

Nestes dias, o Humanorama esteve representado por um espaço no ambiente digital. “Espaço para conversas e necessidade de conversar, a gente sempre teve. Mas a gente queria ter mais espaço para aprofundar isso”, comenta Agatha. Durante os dias do festival de música, havia essa disposição. Até se plantava sementes, despertava curiosidades. Mas lá não era o lugar para aprofundar temas. Fora os quatro dias de evento – que se estenderam de 14 a 17 de setembro -, foi montado uma plataforma de conteúdo, lançada há dois meses. Os artigos podem ser lidos aqui: https://rockinriohumanorama.com/noticias

Além do Humanoramacast, também serão preparados vídeos e webséries. “Estamos sentindo a temperatura e vendo como as pessoas querem conversar”, revela.

Houve um momento em que se pensou em fazer o festival de conversas em formato híbrido. Em relação à parte digital, ela sempre foi idealizada de modo gratuito. Com a perspectiva de haver um espaço em que as pessoas pudessem estar presentes fisicamente, discutiu-se um modelo pago. Nesse caso, seria algo menor, mais restrito. No entanto, a pandemia não permitiu levar esse plano adiante. Ficou tudo no online e, portanto, inteiramente gratuito.

SEGUNDA EDIÇÃO

Ainda é cedo para saber o que pode ficar de legado dessa história. A repercussão tem sido boa em Portugal e no Brasil. Mas o que já está claro é que o Rock in Rio Humanorama volta em 2022.

Até lá, Agatha considera que o legado pode ser visto como o convite para um despertar individual e coletivo. O alcance? Pelas interações nas redes, pelas assinaturas da newsletter que surgiu do evento, pela audiência do podcast, ela crava que já passou dos milhões. “Estamos num momento de virada do mundo e da humanidade. E isso só vai acontecer se muitas pessoas fizerem um pouquinho. Isso é parte do que estamos fazendo. Estamos aprendendo juntos”, completa, contando que a evolução também vem acontecendo dentro da organização.