Trabalhadores da Apple se mobilizam por sindicalização

Os esforços de sindicalização na Apple Store de Londres seguem a trilha de iniciativas semelhantes em outros lugares

Crédito: Istock

Chris Stokel-Walker 4 minutos de leitura

A luta pela sindicalização continua para os funcionários da Apple na Europa. 

Os trabalhadores da loja situada no distrito de White City, em Londres, se sindicalizaram no último dia 12 de dezembro e pediram à gigante da tecnologia com sede em Cupertino, na Califórnia, que reconhecesse voluntariamente seu sindicato.

De acordo com o United Tech & Allied Workers (UTAW) – braço da União dos Trabalhadores de Comunicação do Reino Unido que está representando os funcionários da Apple –, a empresa tem até hoje, 22 de dezembro, para responder ao pedido oficial de reconhecimento sindical.

A ação dos trabalhadores dessa loja no Reino Unido é a mais recente de uma campanha global de sindicalização que está se espalhando pela empresa. Em novembro, uma loja em Glasgow, na Escócia, votou para se sindicalizar junto ao Trades Union Congress, um sindicato do Reino Unido.

Isso ocorreu depois de movimentos semelhantes terem proliferado nos Estados Unidos, onde várias lojas diferentes solicitaram  o mesmo tipo de reconhecimento (embora não esteja claro se algum deles foi reconhecido pela empresa). 

PRIMEIRAS VITÓRIAS

Essas iniciativas no Reino Unido e nos Estados Unidos, por sua vez, seguem o exemplo uma luta mais antiga por direitos trabalhistas, que aconteceu em países europeus como a Itália – onde 1,3 mil funcionários de 14 lojas foram reconhecidos como categoria sindicalizada pela primeira vez em um acordo coletivo de 2013 – e como a Alemanha, onde a campanha sindical  começou em 2012.

A ação dos trabalhadores do Reino Unido é a mais recente de uma campanha global de sindicalização que está se espalhando pela empresa.

“Eles nos mostraram que era possível”, declarou um funcionário da Apple Store de Londres, que falou sob a condição de manter o anonimato. “Começamos a descobrir que havia muitas pessoas interessadas em se sindicalizar aqui no Reino Unido. De repente, passamos a ter um pouco menos de medo de falarmos sobre isso uns com os outros.”

A motivação para se sindicalizar é simples: “É igual a qualquer outro trabalhador que enfrenta a crise do custo de vida”, explica o funcionário. “O dinheiro não vale mais o que valia. Não temos condições nem de morar na cidade onde trabalhamos. Não temos dinheiro para comprar os dispositivos que vendemos nas lojas em que trabalhamos.

Outro funcionário da mesma loja, também falando sob a condição de anonimato, afirma que há “muito estresse e muito esgotamento em índices muito, muito altos”. Eles estão buscando algum reconhecimento sindical porque querem ser capazes de negociar escalas de trabalho e turnos, para que sejam “mais saudáveis e não criem esses buracos na saúde mental nos quais nos encontramos”.

Um dos funcionários, que está há muito tempo na empresa, diz ter notado uma piora de cultura ao longo dos anos. A Apple alega ter feito grandes melhorias, mas, na verdade, não as implementa – a menos que seja submetida a pressão externa, observa. Ele foi levado a ingressar em um sindicato ao constatar que não seria capaz de provocar mudanças por conta própria dentro da empresa.

“Tentei por muito tempo ter um impacto positivo e incentivar mudanças reais, mas parecia simplesmente impossível. Para mim, a sindicalização é uma forma de conseguir isso.”

MUDANÇA DE FOCO

O trabalhador acrescenta que a Apple mudou muito, de um modelo centrado no cliente para um focado em atingir metas calculadas por algoritmos. “Isso começa a ter um grande impacto na saúde mental e emocional de todos. E tem levado a empresa a realmente perder talentos.”

Loja da Apple na Quinta Avenida, em Nova York (Crédito: Apple)

A Apple não se esforçou para reconhecer os direitos dos trabalhadores. Em maio, a revista “Vice” descobriu e divulgou um documento usado pela companhia para dissuadir os funcionários de se sindicalizarem. Eran Cohen, um dos organizadores da UTAW, conta que a abordagem da Apple para a unidade do Reino Unido tem semelhanças com o documento que vazou dos EUA.

“Eles não chegam a fazer aquilo que eu descreveria como ‘sujar as mãos’, dissolvendo os sindicatos”, diz ele. “Preferem fazer ataques passivo-agressivos. Em vez de dizer com todas as letras ‘somos contrários à sindicalização’, eles optam por um discurso simulado, dizendo que reconhecem que todos têm o direito de ter um sindicato mas que não querem que ninguém seja coagido a se sindicalizar.’”

Essa postura sugestivamente contra os sindicatos não agrada os trabalhadores que buscam representação. “A Apple tem sido, tradicionalmente, uma empresa muito antissindical”, declarou o primeiro trabalhador anônimo com quem conversamos.

“Sempre houve rumores de pessoas perdendo o emprego por se juntar a um sindicato. Existe esse equívoco generalizado de que há algo em nossos contratos que nos impede de ingressar em sindicatos. E isso é algo reforçado pelas gerências também.”


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais