POR REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL

Era para ser uma panela, mas depois ficou claro: não podia ser uma panela. Cinco anos depois, enfim, a materialização do projeto: um cooktop que reinventa a categoria. É assim que a Tramontina apresenta ao mercado seu primeiro produto que incorpora a Internet das Coisas (IoT). Batizado de Guru, o smart cooktop pode ser utilizado por meio de aplicativo e adota um sistema que é tão inteligente que ele mais do que permite cozinhar. Ele ensina a cozinhar.

Há um ponto fundamental nesse lançamento que o fabricante faz questão de destacar. O público-alvo do Guru não é formado por gente que já recebe elogios à mesa e quer aprimorar talentos. Ele foi feito para quem não sabe fritar ovo ou fazer arroz. Ou para quem não sabe a diferença entre leite condensado e creme de leite, que é o caso de Felipe Lazzari, diretor comercial da Tramontina. Ou era.  Lazzari testou os protótipos do cooktop inteligente e demonstrou para todo o time envolvido no projeto que era o exato target do produto. Hoje, o diretor comercial é capaz de fazer pratos mais elaborados, seja na sua casa ou em outro lugar onde possa ligar o equipamento e recorrer ao aplicativo em seu smartphone.

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O sistema do Guru, que conta com um aplicativo recheado com mais de 150 receitas, é fundamentado em precisão. O cooktop trabalha com sensores para fazer o controle do tempo, do peso e da temperatura. Com a ajuda do app, o Guru faz também o passo a passo da elaboração de pratos como strogonoff. E passo a passo pode ser entendido como o soar de um beep na hora de um determinado procedimento, como o alerta dado para se tirar o ovo da frigideira se o comensal quiser gema mole.

O cooktop conectado começa a ser vendido neste mês, aproveitando a onda de compras para o Natal – e depois de ter fugido do agito da Black Friday. Ele é oferecido como parte de um kit que tem régua, colheres medidoras e duas panelas da marca (uma caçarola de inox e uma frigideira antiaderente) ideais para o preparo das receitas. Esses dois produtos e mais três outros modelos (uma espagueteira, uma frigideira de inox e uma caçarola antiaderente) foram a base para os testes no Guru antes do lançamento.

O valor do kit é de R$ 2.099. Ele pode ser encontrado nos canais da Tramontina (lojas físicas e e-commerce), na Fast Shop e nas lojas Via Inox e Supreme Inox, que trabalham exclusivamente com a marca.

A novidade é um marco para a Tramontina, empresa que completa 110 anos neste 2021. Isso porque o Guru, além de ser um smart cooktop, tem o propósito de ensinar mesmo a cozinhar. Ou seja, ele é um produto e também um serviço. O aplicativo vem abastecido de conteúdo feito como se fosse de um curso. Nele, há instruções até do que não fazer. Em letras garrafais, pode surgir diante dos olhos do “aprendiz” a recomendação: “não mexa”, enquanto o filé doura na frigideira. Por meio do app, o usuário pode também se comunicar com a Tramontina, deixando seus comentários e abrindo mais um canal com a empresa.

“Muito mais que um equipamento, o Guru será o mais novo parceiro da casa conectada, que vai tornar fácil a criação de uma lista de receitas em constante crescimento, da mais simples à elaborada”, declara Riccardo Bianchi, diretor da Tramontina.

O lançamento representa também o início de uma fase na vida da empresa, mais direcionada para a inovação. O próximo capítulo será a evolução do sistema criado para o Guru. Outros dispositivos com tecnologia embarcada estão sendo planejados e parcerias podem ser construídas. Na mira estão assistentes de voz e conexão com outros produtos – e aí as panelas podem voltar para a prancheta dos designers.

COZINHANDO COM TECNOLOGIA

Quando o projeto surgiu, cinco anos atrás, a ideia era agregar tecnologia aos produtos. Na empresa, já se falava em IoT, 5G e futuro. O conselho de administração acionou três unidades da Tramontina relacionadas à produção de panelas e a de outros itens que equipam a cozinha para que, juntas, pudessem desenvolver algo nesse sentido.

Naquela ocasião, a atenção foi primeiro para um dos utensílios que carrega a fama da marca: a panela. Além disso, já havia no mercado internacional alguns produtos do gênero que se conectavam à internet e indicavam para o consumidor o momento de virar o bife, por exemplo. O projeto da Tramontina seguiu essa linha e foi batizado de Tecnopot.

“Esse era o caminho mais óbvio para começarmos a trabalhar a inovação”, comenta Lazzari, que lembra que a corporação sempre fez produtos “simples”, do ponto de vista tecnológico. “Temos uma grande capacidade produtiva do portão para dentro. Nossos maquinários são de última geração. Mas, olhando para fora, temos produtos simples: uma caçarola, um talher, uma cuba de aço inox. Não são revolucionários”, completa.

Porém, ao aprimorarem a proposta, perceberam que era necessário ir além da panela. Afinal, o projeto, desde o princípio, incluía a proposta de ajudar o público a cozinhar com tecnologia. “Se o foco era esse, nós precisávamos de um cooktop equipado com sensores”. Por isso, quase um ano depois de se iniciarem os trabalhos, o projeto migrou para outra solução, um processo que demandou esforço extra. “Os primeiros protótipos eram uns monstros, uns Franksteins. Tivemos muitos desafios”, admite o executivo.

Entre as questões que apareceram no meio do caminho estavam o tamanho dos primeiros produtos (“eram gigantes”), como usar uma tela (“tinha de ser no celular”) e o valor da tecnologia a ser desenvolvida (“não podia custar uma fortuna para o consumidor”). Viabilizar economicamente o projeto era um ponto fundamental para seguir adiante.

Foi quando entrou na história a Design Único, empresa que já prestava serviços para a Tramontina. “O projeto estava encorpado. Já tinha o aplicativo. Olhamos o produto e dissemos ‘não vai dar. Vão querer nos matar, mas vamos ter de redesenhar’. Então, redesenhamos”, conta Gustavo Giorgi, sócio da Design Único. Em linhas gerais, era preciso tornar o smart cooktop em um objeto bonito e que fizesse parte da casa. Não poderia ser um equipamento que desse vontade de esconder numa gaveta. E o design tinha de aliar dois conceitos: ser um produto eletrônico e estar vinculado à gastronomia.

Além da Design Único, o projeto teve como parceira a empresa gaúcha Ayga, que auxiliou no desenvolvimento da solução IoT e do aplicativo. A agência Wunderman Thompson Brasil também se envolveu com o Guru ao trabalhar na construção da estratégia de negócio e de comunicação. A Tramontina contou ainda com financiamento da Finep, empresa pública brasileira de fomento à ciência, tecnologia e inovação.

CONTEÚDO BEM RECHEADO

Perguntado se haveria no mercado internacional algum produto que fizesse algo similar ao Guru, Lazzari responde que, com o sistema criado para tornar o smart cooktop um curso gratuito de gastronomia – e que será atualizado e abastecido com o tempo –, não há nada igual. As videoaulas são feitas com linguagem simples. A abordagem é técnica, porém o conteúdo procura deixar tudo muito claro para quem não tem qualquer familiaridade com culinária. O aplicativo é igualmente simples, sem muitas funções que poderiam confundir o usuário. O objetivo é dar segurança para quem for preparar um prato. Os cuidados da produção, tanto dos vídeos quanto dos textos, refletem essa intenção.

O fornecimento de conteúdo é, de fato, um ponto que exigiu muito empenho da fabricante e de um parceiro que atua há cinco anos com a marca, Elzio Callefi, chef oficial da Tramontina. Foram gravados mais de oito mil vídeos. Cada receita do aplicativo foi testada entre 20 e 30 vezes.

“Minha preocupação era comunicar da forma mais correta. Há panelas, facas, utensílios corretos para cozinhar. O Guru facilita esse entendimento. Seu conteúdo é feito para as pessoas perceberem que existem processos, existe tempo, padrão de temperatura”, afirma Callefi. Ele argumenta que, quando alguém fala num vídeo “adicione água e deixe cozinhando”, a pergunta que pode surgir é “por quanto tempo tem de deixar cozinhando?”. No YouTube nem sempre vem a resposta exata.

Com a experiência de 700 cursos aplicados dentro dos projetos da Tramontina nesses cinco anos como chef da empresa, Callefi aponta que o Guru ajuda a quebrar mitos, como a mania de as pessoas colocarem óleo ou azeite na água de fervura da massa. “Você pode ter feito a vida inteira um prato de um jeito, o Guru mostra o resultado da receita feita cumprindo os processos certos. Mostra a importância do peso e da temperatura. Nós fizemos muitos testes em diferentes condições para fornecer o conteúdo”, acrescenta.

Os ingredientes escolhidos para as receitas também foram pesquisados para que fossem acessíveis. Para isso, o chef foi a supermercados para verificar produtos e até apresentar substitutos que estivessem à mão. “Creme de leite fresco pode não ter em todo lugar”, exemplifica.

Uma curiosidade culinária foi a atenção dada a ovos. Quem desejar fritar um com gema mole ou fazer omelete ou preparar um ovo poché, vai encontrar uma parte recheada de alternativas. “Temos uma série de variáveis de preparos com ovos. Para isso, tempo e temperatura são fundamentais. Com o menu de opções que existem no Guru, oferecemos de verdade um curso e sem a necessidade de pagar mensalidades”, compara Callefi.

TECH LOVERS E PRIMEIRAS VIVÊNCIAS

A oferta de produto e de conteúdo que se integram para facilitar a vida do consumidor é uma visão moderna de negócios. Para Keka Morelle, Chief Creative Officer da Wunderman Thompson Brasil, o Guru já nasce como se fosse um veículo de comunicação. “Ele olha para o que as pessoas precisam”. Da forma como se apresenta, o equipamento convida o consumidor a ter a experiência de cozinhar. A assinatura da campanha publicitária criada para divulgar a novidade expressa isso: “De repente você está cozinhando”.

O plano de comunicação procura mostrar que a Tramontina é também uma empresa de tecnologia. E, por isso, a campanha buscou destacar o produto como um gadget, que desperta o interesse dos amantes de novidades vindas do Vale do Silício – ou nem tanto. O Guru é produzido pela fábrica de Carlos Barbosa, cidade que fica a pouco mais de 100 km de Porto Alegre.

Renata Dallonder, diretora executiva de negócios da Wunderman Thompson, aponta que o target da comunicação é voltado para quem não tem muito conhecimento de culinária, mas que não poderia deixar de atingir os tech lovers, as pessoas que gostam de ter smartphones de última geração. Fazem parte do público-alvo também aqueles que estão em suas “primeiras vivências”, sejam os que estão começando a morar sozinho agora, tendo de comprar seus primeiros eletroportáteis. Ou quem acabou de casar e nunca se aventurou na cozinha. “A gente fala também com quem deseja ter peças de design”, emenda Renata. Por essa razão, o filme criado para o lançamento do Guru precisava estar no “nível de quem quer um iPhone novo”.

O produto nem bem foi lançado por aqui, e  já tem um caminho traçado para outros mercados. Dono de um nome fácil para ser levado para países que não falem português, o Guru já tem um destino futuro: os Estados Unidos. Felipe Lazzari conta que, depois de estabelecer o cooktop inteligente no Brasil e expandi-lo internamente, será a vez de prepará-lo para a exportação. “Até o final de 2022 devemos lançar o Guru nos EUA”, adianta. Depois disso, provavelmente México. “O nome não precisará ser traduzido”. E, com isso, novo desafio virá. Embora muito dos processos da arte de cozinhar sejam praticamente inalterados (afinal, refogar cebola vai ser igual aqui ou em Miami), o conteúdo sim precisará de novos parceiros.