POR MARK WILSON

Em homenagem a Virgil Abloh, ícone do design que nos deixou no último domingo (28/11), vou relembrar sua ascensão, sua produção e sua filosofia de que a criatividade não dever se contentar com os limites de nenhum meio. Abloh mostrou-se especialmente inspirado e produtivo nos trabalhos que fez para o seu selo Off-White e como diretor artístico da Louis Vuitton. Em pouco mais de uma década, ele nos legou um trabalho tão sólido quanto o de quem teve uma vida inteira. No entanto, hoje eu não consigo parar de pensar em um dos procedimentos artísticos de Abloh que havia ficado um pouco apagado sob a sombra de sua fama mais recente: o uso que ele fazia das aspas como recurso expressivo.

(Crédito: Edward Berthelot / Getty Images) 

Abloh será lembrado por seu design marcante.  Ele acrescentou Xs gigantes e listras diagonais às roupas porque percebeu que essas intervenções as tornavam inconfundíveis nas mídias sociais. Ele acrescentou zip-ties de plástico aos sapatos – uma assinatura sua que era removível e que o dono podia usar para customizar qualquer outro par como se fosse “seu próprio Abloh collab”.

(Crédito: Nike) 

Essas ideias eram brilhantes, mas ao mesmo tempo são fáceis de analisar. Enquanto isso, o uso de aspas proposto por Abloh exige uma reavaliação constante. É uma provocação rica em ambiguidades, que merecerá mais debates críticos nos próximos anos.

Vimos essas aspas gravadas em todos os tipos de itens que passaram pelas mãos de Abloh, desde roupas e acessórios até as colaborações de sua marca. Um “cachecol” da Off-White. Um Nike “Air” Jordan. A resposta mais curta para a razão dele ter usado essas aspas é: o objetivo de Abloh era redesenhar objetos com o mínimo de design possível (princípio chamado de regra dos 3%). Usando aspas, Abloh praticou o redesenho minimalista da escrita oriental. Com uma intervenção mínima – apenas dois tracinhos de cada lado de uma palavra – Abloh nos forçava a reavaliar um objeto.  Na verdade, o próprio objeto se tornava um “objeto”.

(Crédito: IKEA) 

Essa resposta mais comum, entretanto, nunca me satisfez totalmente. Afinal, as citações de Abloh lidas como aspas irônicas – é como se Abloh estivesse lendo a palavra em voz alta com os dedos no ar imitando a forma das aspas e um sorriso malicioso. Nesse contexto, as citações chamam a atenção para o artifício da marca ou do objeto. São uma piscadela e um aceno de Abloh, demonstrando que ele sabia que você sabia que tudo isso era uma construção. Abloh se autodescreveu como aluno de Marcel Duchamp, o artista da virada do século conhecido por produzir “Ready-mades” – objetos como um mictório, colocados em um contexto de galeria, para alertar sobre o absurdo da própria arte.

As cotações transformaram qualquer coisa que Abloh tocou em um Ready-made. Vamos lembrar da forma como Abloh lidou com sua colaboração com a Ikea. Na verdade, a Ikea não precisava do “recibo” da colaboração de Abloh para se provar um fenômeno capitalista irresistível. Tudo o que Abloh precisou fazer, então, foi rotular uma loja Ikea como “Ikea” para que uma marca tão estável se tornasse também um pouco dele. Esse é o poder desarmante de uma citação.

(Crédito: IKEA) 

Mas ver as citações apenas como uma crítica seria ignorar sua ambivalência e o fato de que as pessoas podem sentir duas ou mais emoções opostas ao mesmo tempo. Seria também ignorar que Abloh usou aspas para alguns de seus projetos mais pessoais, como seu programa de aulas “Pós-moderno” para estudantes de moda negra, ou seu livro de “Arte” pessoal vendido durante sua exposição de 2019 no Museu de Arte Contemporânea de Chicago (MCA).Quando conversei com Abloh em 2019 – durante o lançamento de sua loja Nike em Chicago e a abertura de sua exposição Figures of Speech na rua no MCA – eu mencionei como seu uso de aspas variava de sincero a irônico, para desarmar uma superficialidade. “É um dispositivo, é a contextualização de uma palavra sem entrar no design. Sempre foi feito para isso”, disse ele. “Posso ser literal e figurativo ao mesmo tempo, ou não.”

(Crédito: Jeremy Moeller / Getty Images) 

É, portanto, um propósito mais profundo do que a mera ironia. As citações tiraram a palavra de seu antigo significado e criaram um espaço em branco para uma nova interpretação, mesmo no mais humilde dos objetos. Trata-se de um efeito visual instantâneo semelhante a dizer uma palavra repetidamente até que ela soasse como um disparate. Pense, por exemplo, em um cachecol vermelho desenhado por Abloh para Off-White, com a palavra gravada “cachecol”. Ele é um cachecol enorme, óbvio, vermelho escandaloso. Ser rotulado como “cachecol” de forma tão evidente e por escrito apenas adiciona mais essa camada ao conjunto, forçando você a ver e a ouvir “cachecol” repetidamente em seu cérebro. Logo, a própria ideia de um cachecol não significa nada, embora ela seja a totalidade desse objeto e seu rótulo. O resto do design de Abloh, misturado com sua própria imaginação, preenche as lacunas.

“Colocar algo entre aspas automaticamente faz você questionar se essa é mesmo a definição certa, por assim dizer. Isso abre possibilidades de questionamento, de reimaginação”, diz Michael Darling, curador-chefe James W. Alsdorf do MCA que trabalhou em estreita colaboração com Abloh durante a criação da mostra do artista de 2019. “Transforma tudo em um assunto de conversa. Portanto, não é apenas um ‘chapéu’. É um chapéu que faz parte do esquema mais amplo de chapéus, seja lá o que isso for.”

(Crédito:  Nick Harvey / Shutterstock) 

Uma das minhas peças Abloh favoritas é uma bolsa com a gravação “escultura” (na verdade, essa é uma ideia fruto de reflexões que evoluíram ao longo do tempo). No início, o seu cérebro lê a palavra como uma dissonância cognitiva. “Mas espera, isso não é uma escultura, é uma BOLSA!” Depois, você pode razoavelmente concluir que Abloh está dizendo que sua nova moda é como a arte, digna do Louvre.  Mas conforme você considera essa palavra mais e mais – escultura, escultura, escultura – você pode contemplar uma verdade mais profunda na moda. As bolsas, assim como os sapatos, são, no fim das contas, esculturas. Eles são as únicas peças que você usa e que mantêm sua forma, mesmo quando removidos do seu corpo. Esta bolsa, não ironicamente, é uma escultura e, nesse sentido, ela pode apropriadamente ostentar a gravação “escultura”.

(Crédito:  Hanna García Fleer / cortesia MCA) 

Um macacão e uma jaqueta “Lewis Vuitton” com erros ortográficos — criado para o show de Abloh no MCA — podem ser considerados intervenções que transmitem a modesta mensagem de que o nome tão famoso da marca de design que ele dirigiu é tão importante quanto o nome de qualquer outra pessoa anônima. Na verdade, Darling me disse que esta peça surgiu antes de Abloh ter conseguido seu cargo na Louis Vuitton, e antes do projeto “The Ten”, para o qual ele redesenhou dez estilos de tênis Nike.

“Ele ainda era quase um estranho naquele ponto, brincando com referências do auge do luxo”, diz Darling. “Acho que isso te faz questionar se essa é realmente uma peça da Louis Vuitton ou não. Ele explora a cultura da pirataria, cheia de imitações baratas – ele realmente apreciava as imitações ruins e como elas podiam ser incríveis quando eram realmente ruins.”

Claro, “Lewis Vuitton” é também apenas uma piada adolescente engraçada. O que é “Lewis” senão a grafia equivalente a colocar aspas irônicas em volta de “Louis”? Darling aponta que este nome de marca com grafia incorreta sugere a teoria de Abloh sobre turismo versus purismo no design: que um turista é um forasteiro de olhos arregalados que aprecia um tópico com admiração, enquanto um purista é o insider que sabe tudo sobre um tópico, talvez até o ponto em que o caminho para o prazer se torna muito difícil. (Abloh se viu incorporando os dois extremos. Ele era, tanto figurativa quanto literalmente, Lewis Vuitton.)

Às vezes, Abloh passou inclusive a usar aspas como sua assinatura literal — ele assinava Jordans personalizados com uma caneta de tinta permanente para seus amigos, escrevendo qualquer coisa, desde seu nome até os tipos de dizeres que você esperaria em uma camiseta irônica, como “Odeio Instagram” ou “Exclusivo para tapete vermelho”. Você adora dizer que odeia o Instagram enquanto calça um sapato desenhado por alguém que alega ser famoso porque “fez do Instagram a sua revista”. Ou você calça um Jordan para uma ocasião formal. Sim, são ironias. No entanto, elas também podem ser lidos como declarações sinceras, destinadas a serem tomadas pelo valor de evidenciar o óbvio. O Instagram é superficial e odiável! E Abloh fez os Jordans serem dignos de tapete vermelho. Essas ideologias conflitantes criam um vórtice giratório de ambiguidade sobre o propósito dos próprios objetos e sobre o lugar que atribuímos a eles em nossas vidas.

O que quer que você veja, ou não veja, no uso de aspas por Abloh, eu diria que sua ambiguidade lúdica nunca atrapalhou um significado sério. Porque quando Abloh escreveu “Ikea”, ele não pertencia mais à Ikea, assim como a Nike “Air” não pertencia mais à Nike. Com algumas pinceladas sutis de tinta, essas coisas se tornaram de Abloh. Elas “pertenciam” a ele.

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company e escreve sobre design, tecnologia e cultura há mais de 15 anos. Seu trabalho já apareceu na Gizmodo, Kotaku, PopMech, PopSci, Esquire, American Photo e Lucky Peach.