POR REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL

O Web Summit 2021, conferência de tecnologia realizada em Lisboa, estava em sua primeira noite quando recebeu no palco a engenheira e cientista de dados Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook que entregou documentos comprometedores sobre sua antiga empresa ao Senado e ao Security and Exchange Comission (SEC), nos EUA, destacando que a rede preza o lucro acima de todas as coisas. Em um evento lotado, quase como nos tempos pré-pandemia, a entrevistadora Laurie Segall, do 60 Minutes +, perguntou ao público quem conhecia a convidada. A resposta entusiasmada e efusiva fez com que o rosto da jornalista ganhasse uma expressão de surpresa.

Pudera. Cerca de um mês atrás, seu nome não teria repercutido. Frances está no centro de uma série de notícias do Wall Street Journal, ou Facebook Papers, que revelava práticas da companhia como ignorar os danos que o Instagram podia causar em adolescentes por questões de autoimagem. Ela repassava documentos de forma anônima, mas decidiu dar uma entrevista para o programa 60 Minutes, da CBS, finalmente se identificando.

Desde então, Frances se tornou a pedra no sapato do Facebook, que já estava na berlinda devido a críticas sobre sua pouca ação em relação à proliferação de discursos de ódio e à desinformação em suas plataformas e por recentes decisões judiciais que vão custar fortunas à companhia por acusações de contratações ilegais nos EUA e por práticas comerciais que prejudicam a concorrência no Reino Unido. Isso sem falar no apagão tecnológico que sofreu dias atrás.

O ponto é que Frances vem ganhando cada vez mais destaque na mídia e em eventos, mantendo o Facebook encostado contra a parede. Mesmo a mudança de nome da corporação para Meta, anúncio feito pelo CEO Mark Zuckerberg na semana passada, não parece ser o suficiente para que as críticas diminuam. Por outro lado, os vazamentos de documentos vão continuar. Há farto material para que um consórcio de veículos possa se debruçar sobre os papéis e trazer mais dados comprometedores sobre a companhia.

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PADRÃO DE COMPORTAMENTO

No Web Summit, a ex-funcionária do Facebook declarou que gostou de ter atraído holofotes para si, mas que está feliz por ter a oportunidade de revelar os documentos que acessou e que mostram que existe um padrão de comportamento do Facebook, que prioriza a ganância sobre a segurança de seus usuários. Essa percepção a fez abandonar a companhia, segundo disse no evento.

De acordo com Frances, outras pessoas dentro do Facebook estão preocupadas com a maneira como a rede é orientada para a amplificação da polarização. Em suas palavras, o algoritmo dá mais destaque a conteúdos mais extremos. Para equilibrar isso e para combater a desinformação, seria necessário utilizar IA, porém há países que teriam mais dificuldade em adotar um sistema equipado com essa inteligência, caso da Etiópia, onde as “pessoas falam seis línguas e 95 dialetos”.

Por isso, reforçou na conferência a disposição em continuar sua cruzada. “Acredito profundamente que nossa sociedade merece ter transparência suficiente sobre como o Facebook funciona para que possamos tomar decisões que sejam para o bem público”, afirmou a engenheira, que saiu da empresa em abril.

Além disso, Frances disse que não deveria caber ao Facebook a decisão de quanto de informação deve ser pública em relação à maneira como opera. “Precisamos de transparência obrigatória e responsável. Precisamos de 10 mil olhos vendo como o Facebook funciona”.

ZUCKERBERG FORA DA EMPRESA

Na opinião da agora denunciante, seria melhor para a companhia que Zuckerberg renunciasse ao comando. Isso porque ele detém 54% das ações e é o CEO. Em seu entender, é pouco provável que a empresa faça as mudanças que deveria fazer com Zuckerberg ainda na liderança. “O Facebook seria mais forte com alguém disposto a se concentrar em segurança”, observou.

Outro comentário foi sobre a constituição da Meta. Para Frances, o desejo de Zuckerberg de transformar a empresa em um negócio voltado para o metaverso é impensável. Segundo ela, é comum que o Facebook aposte em novas áreas em vez de continuar investindo no que já faz. “À medida que você lê os documentos, fica claro que deve haver mais recursos em sistemas de segurança muito básicos. E em vez de investir para garantir que suas plataformas tenham um nível mínimo de segurança, eles estão prestes a investir em 10 mil engenheiros para videogames. Não consigo imaginar como isso faz sentido”, criticou.

Uma das decisões de Frances depois de ter aparecido ao mundo foi se juntar a uma organização que ajuda trabalhadores a reportar e denunciar práticas de empresas que prejudiquem a população ou grupos de pessoas: a Whistleblower Aid. No palco do Web Summit, ela esteve acompanhada da CEO da entidade, Libby Liu. A Whistleblower Aid ajudou a reunir denúncias contra Harvey Weinstein, o ex-produtor de Hollywood condenado por estupro e assédio.

RESPOSTAS DO FACEBOOK

O Web Summit recebeu também Chris Cox, diretor de produtos da Meta. A ideia era que ele desse mais detalhes do metaverso, mas precisou primeiro falar sobre as denúncias de Frances. Ele disse que há trabalho a fazer para encontrar o ponto de “intersecção entre liberdade de expressão e segurança”. E salientou: “não somos perfeitos”. Cox lembrou que a companhia montou um conselho externo de supervisão e defendeu a criação de mecanismos de regulamentação.

Nick Clegg, vice-presidente para assuntos globais do Facebook, foi mais um convidado da empresa a se apresentar no Web Summit. Ele salientou que sempre existem dois lados em uma mesma história. Clegg negou que a companhia priorize o lucro sobre a segurança de seus usuários. E disse que a corporação não obtém mais dinheiro com conteúdo extremista.

Na conferência, argumentou que quem paga ao Facebook são os anunciantes e que eles não querem ver a marca ao lado de postagens desagradáveis. E acrescentou que nem os usuários vão continuar nas plataformas se tiverem más experiências. Clegg é um nome respeitado pelo CEO da Meta. Foi um dos executivos que esteve na apresentação do metaverso feita por Zuckerberg na semana passada.

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