POR LENA CASTELLÓN

Nos anos 80, a palavra “sustentabilidade” não estava nas conversas. Ela praticamente não existia no vocabulário cotidiano. E nem no corporativo. Mas se alguém falasse no mico-leão-dourado, espécie ameaçada de extinção, já se sabia que havia ali uma identificação com a causa ecológica. Essa foi uma das primeiras iniciativas que o WWF, o World Wildlife Fund, abraçou no Brasil. 

Fundada na Suíça há 60 anos, a entidade vinha atuando no país desde a década de 70 por meio de sua rede de ativistas. Até que em 1996, enfim, foi lançado o WWF-Brasil, que acaba de completar 25 anos.

Desde então, a luta da entidade vem ganhando corpo. A história de sua atuação no país reflete a evolução da temática ambiental entre os brasileiros. Na pauta estão temas hoje discutidos mais abertamente na mídia, como desmatamento, queimadas, crise hídrica, preservação do solo e também dos territórios indígenas. São diversos os projetos para atender essas demandas. E eles são trabalhados por região. O WWF-Brasil atua em quatro ecossistemas: Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica e Cerrado. 

Se na origem a missão mais visível da entidade no país estava em proteger o mico-leão-dourado, agora seu principal desafio é reverter o desmonte ambiental. É o que conta Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil. “Quem irá reflorestar o que foi desmatado? Como reequilibrar o regime de chuvas que já foi afetado pelo desmatamento?”, questiona.

Voivodic alerta que esse é um problema tão grave que pode deixar um legado permanente de destruição para o Brasil. Afinal, “são três anos consecutivos de recordes de queimadas e desmatamento”.

Para evitar o agravamento desse cenário, o WWF-Brasil desenvolve programas como o Ecodrones. Iniciado em 2015, o projeto avalia o uso da tecnologia para diferentes aplicações na conservação da natureza e na pesquisa ambiental. Entre eles, está a fiscalização e o mapeamento em alta resolução dos parques nacionais. 

Os drones são uma solução de baixo impacto e podem ser adaptados para paisagens como florestas, rios e savanas. Os equipamentos vêm sendo utilizados mais intensamente nos últimos anos devido ao agravamento dos incêndios e do desmatamento. Segundo a entidade, foram identificados em agosto 15.043 focos de queimadas no Cerrado, contra 10.115 em 2020. Já na Amazônia, foram registrados em agosto 28.060 focos. Com a experiência do projeto, o WWF-Brasil publicou em julho passado o “Guia de uso da tecnologia de drones para conservação”, o primeiro do tipo no país.

A tecnologia é também aliada em um projeto elaborado para uma das espécies que está no foco da entidade: o boto amazônico. Desde 2017, ela apoia um coletivo de cientistas de cinco países da América do Sul, que formam a Sardi (South American River Dolphins Initiative). Esses pesquisadores têm feito expedições às bacias dos rios Amazonas e Tocantins-Araguaia, no Brasil, e Orinoco, na Colômbia, para compilar dados que ajudem na proteção do “golfinho dos rios”. 

 

 

Foram percorridos cerca de 47 mil quilômetros de rios. Nas expedições também foram usados os ecodrones. O material coletado serviu para a construção da plataforma Botos Amazônicos, lançada no ano passado, que, por meio de diversos layers, apresenta informações como distribuição geográfica, estimativas populacionais, ameaças e barreiras naturais.

E quanto ao mico-leão-dourado, sua primeira bandeira? A batalha pela preservação do Leontopithecus rosalia deu tantos resultados que virou referência entre especialistas. A devastação da Mata Atlântica quase exterminou toda sua população, que ocupava o litoral fluminense de ponta a ponta. Para protegê-lo, surgiu o Programa de Conservação do Mico-Leão-Dourado, um dos mais bem-sucedidos do gênero no mundo, que passou a ser executado por organizações parceiras. 

No entanto, a luta tem de ser mantida. O WWF-Brasil aponta que, para que o mico-leão-dourado saia da lista de espécies ameaçadas de extinção, é preciso que, até 2025, haja cerca de dois mil indivíduos vivendo soltos, em uma área de 25 mil hectares de florestas. Hoje, as populações selvagens não chegam a mil indivíduos, que estão em remanescentes de florestas na região, em áreas de conservação, cobrindo um território muito menor do que o pretendido. Ainda assim, é exemplo de trabalho de preservação de uma espécie.

Fast Company Brasil – O que era o WWF-Brasil quando surgiu por aqui?

Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil  (Crédito: divulgação)

Mauricio VoivodicO WWF-Brasil foi criado em 1996. Desde a década de 70 atuamos no Brasil por meio da Rede WWF em projetos pontuais, como o Programa de Conservação do Mico-Leão-Dourado, na década de 80. Apoiamos o projeto Tamar e fortalecemos entidades ambientalistas como a FVA (Fundação Vitória Amazônica).

Fast Company Brasil E, hoje, como atua? Quais são suas principais missões? 

VoivodicO WWF-Brasil foi a 25ª organização nacional da Rede WWF e a primeira da América Latina. Nossa trajetória se confunde com o avanço da agenda ambiental no Brasil e no mundo: participamos de grandes conquistas como a reversão da curva de desmatamento da Amazônia no começo deste século – algo que exigiu um enorme empenho da sociedade civil e que agora requer nossa atenção mais uma vez. Executamos projetos em todo o Brasil por meio de parcerias com empresas, organizações não-governamentais, órgãos dos governos federal, estaduais e municipais, desenvolvendo atividades de pesquisa e diagnóstico; proteção de espécies e de ecossistemas ameaçados; desenvolvimento de modelos alternativos de conservação e uso dos recursos naturais; capacitação e desenvolvimento de entidades parceiras; disseminação de resultados por meio de educação ambiental, políticas ambientais e comunicação; e campanhas de mobilização social. Temos 130 funcionários em Brasília, São Paulo (SP), Rio Branco (AC), Manaus (AM) e Campo Grande (MS).

Fast Company BrasilQuais são os desafios do Brasil que precisam ser enfrentados agora, neste minuto? Crise climática, queimadas, crise hídrica, questão indígena? 

VoivodicO maior desafio é reverter o desmonte ambiental que pode deixar um legado permanente de destruição para o Brasil. Mesmo aquilo que pode ser revertido por governos futuros, como a curva ascendente de desmatamento, deixa um rastro de destruição. Quem irá reflorestar o que foi desmatado? Como reequilibrar o regime de chuvas que já foi afetado pelo desmatamento? No caso de leis aprovadas pelo Congresso, pode não haver volta. É o caso do PL da grilagem de terras, por exemplo, ou do Marco Temporal para terras indígenas. Desmatamento e queimadas, em especial na Amazônia, possuem caráter de ilegalidade e exigem a recomposição dos órgãos ambientais, que estão sucateados. E isso precisa ser feito com urgência: são três anos consecutivos de recordes de queimadas e desmatamento. Já perdemos muito que dificilmente será recuperado.

Mapeamento de áreas protegidas (Crédito: Odair Leal – WWF Brasil)

Fast Company BrasilEm 25 anos, a conscientização da população a respeito da sustentabilidade – palavra que nem era usada cotidianamente – mudou. Como você avalia a percepção do brasileiro médio a respeito das causas ambientais e sociais? 

VoivodicEm todo o mundo a preocupação pela natureza cresceu 16% nos últimos 5 anos. O brasileiro também está mais preocupado com a agenda ambiental: o país representa 14% de todas as assinaturas em campanhas em prol da biodiversidade e natureza. No entanto, ainda precisamos de vontade política para mudanças efetivas e as empresas precisam ter ambições e planos mais concretos na busca por reduções de emissões.

Fast Company BrasilO Brasil pode exportar experiências positivas desenvolvidas nos últimos anos e, assim, contribuir para vivermos numa sociedade mais saudável, limpa, sustentável?

VoivodicExistem muitas experiências positivas ao longo desses 25 anos. Conseguimos reverter a curva do desmatamento entre 2004 e 2012, por exemplo. E com crescimento econômico.  Em todas elas, o potencial humano e social foram os elementos de mudança, e sim, muito possíveis de serem replicados em outros ambientes. Pelo WWF-Brasil, destacamos a plataforma colaborativa que monitora os botos amazônicos, o uso de drones para a preservação das florestas e o cultivo de agrofloresta para a preservação do solo (no ano passado foi divulgada pesquisa em que foram testados dois modelos diferentes de agrofloresta na Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, no Acre; um deles empatou com o rendimento médio anual de soja, enquanto o outro obteve o dobro de lucratividade, demonstrando que é possível ter desenvolvimento econômico com a floresta em pé).

Fast Company Brasil Existe algo que o cidadão comum pode fazer?

VoivodicSim, o cidadão comum pode acompanhar os projetos de lei referentes ao meio ambiente e cobrar posturas coerentes dos seus governantes. Pode se engajar em campanhas de pressão popular sobre governos e empresas. Em suma, exercer seu papel de cidadão em prol do meio ambiente e modos de produção e consumo que respeitem o planeta e as pessoas. Precisamos subir a barra nas nossas escolhas, sejam elas de consumo ou de voto. A entidade tem ainda uma lista de ações para a população ajudar a combater a crise climática.

Fast Company BrasilO ambiente digital tem sido eficaz no papel de estimular as pessoas a cuidar mais do planeta? Ou ele também precisa de mais equilíbrio?

VoivodicÉ inegável que o ambiente digital favorece maior engajamento na busca por um mundo mais sustentável. No entanto, vemos que também favorece a disseminação da agenda de negacionismo da ciência e ataques diretos à democracia. Nesse cenário, a imprensa assume papel ainda mais relevante, como agente de checagem de fatos e, consequentemente, como freio para as fake news que se espalham pelas redes sociais.

SOBRE A AUTORA

Lena Castellon é jornalista, corredora, escreve sobre marketing, vida digital, esportes e saúde e é colaboradora da Fast Company Brasil. Este texto foi adaptado do artigo de Elizabeth Sagran. Leia o original.