POR VÍTOR DEL REY

Michael J. Sandel, professor da Escola de Direito da Universidade de Harvard, trouxe um debate interessante a respeito da justiça, fazendo a pergunta: o que é fazer a coisa certa? Em seu curso, Sandel apresenta uma série de situações que podem acontecer e que mostram não ser tão cartesiano assim estabelecer afirmações sobre o que é a coisa certa. 

O curso “Justice”, de Michael Sandel, era um dos mais procurados em Harvard, concentrando em um anfiteatro quase mil alunos que se aglomeravam para ouvi-lo relacionar os grandes problemas da filosofia a prosaicos assuntos do cotidiano: casamento entre pessoas do mesmo sexo, suicídio assistido, aborto, imigração, impostos, o lugar da religião na política, os limites morais dos mercados. No curso, que também é um livro, Sandel dramatiza o desafio de meditar sobre esses conflitos e mostra como uma abordagem mais segura da filosofia pode nos ajudar a entender a política, a moralidade e também a rever nossas convicções sobre o que é certo ou errado. Não se trata de propor uma relativização, mas o objetivo é mostrar que há uma série de variáveis que devem ser consideradas antes de escolher um lado e que há consequências para as escolhas. E que não escolher, por si só, já é uma escolha.

A popularmente conhecida Corrida Espacial foi uma disputa travada pelas duas potencias mundiais recém-saídas da Segunda Guerra Mundial. Em um tweet, a corrida espacial foi um dos capítulos mais emblemáticos da Guerra Fria, em que Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas disputaram a hegemonia na exploração do espaço entre 1957 e 1975, tendo como ponto alto e decisivo o envio do homem à lua pela National Aeronautics Space Administration, a NASA. 

Antes disso acontecer, quem deu o pontapé na corrida espacial foi a União Soviética, quando enviou, no dia 4 de outubro de 1957, às 22h28m horário de Moscou, o Sputnik 1, o primeiro satélite artificial a ficar na órbita da Terra. Mais tarde, a União Soviética faria outro feito extraordinário, em 4 de novembro de 1957, lançando o Sputnik 2, que tinha 508 kg e transportava a cadela Laika para o espaço. No dia 12 de abril de 1961, o homem foi ao espaço, a bordo da Vostok 1: Yuri Gagarin ficou em órbita durante 108 minutos, tempo suficiente para dizer a célebre frase: “a terra é azul”. Os soviéticos ainda foram os responsáveis por enviar a primeira mulher ao espaço, Vladimirovna Tereshkova, em 16 de junho de 1963.

O ápice da corrida espacial foi sem dúvida o envio de expedições tripuladas para a Lua por parte do governo norte-americano. O projeto foi anunciado pelo presidente John F. Kennedy, em 1961. O envio de expedições tripuladas à Lua era uma obsessão americana, visto que as inovações da corrida espacial haviam sido realizadas pelos soviéticos.

Para viabilizar esse objetivo, a NASA criou o Programa Apollo, que contou com apoio incondicional do governo americano e consumiu bilhões de dólares ao longo da década de 1960. Um fato curioso é que ao longo da década de 60, uma série de expedições Apollo foram realizadas como forma de teste, até que de fato a expedição tripulada fosse enviada.

Um desses momentos foi a expedição Apollo 8, que enviou uma tripulação para orbitar a Lua, em 1968. A missão que de fato enviou o homem ao solo lunar foi a Apollo 11, formada por Neil ArmstrongEdwin Aldrin e Michael Collins. Eles foram enviados à Lua no dia 16 de julho de 1969. Quando pisou na Lua, Armstrong soltou a emblemática frase: “este é um pequeno passo para o homem, mas um gigantesco salto para a humanidade”.

O fim da corrida espacial se deu em 17 de julho de 1975, quando uma missão espacial foi realizada em conjunto por americanos e soviéticos. Nessa missão, participaram as naves Apollo 18, enviada pelos americanos, e a Soyuz 19, enviada pelos soviéticos. Essa missão cooperativa marcou o fim da disputa espacial e deu início a uma fase de cooperação científica entre EUA e URSS.

Com o avançar da tecnologia e a implementação da rede mundial de computadores, a sociedade avançou e muito nas novas invenções. Palavras como inovação e disruptível fazem parte do cotidiano de quem vive o ambiente da alta tecnologia. Lugares como Vale do Silício são considerados as grandes mecas, e se você é do ramo, certamente já passou pela sua cabeça ir conhecer o Vale. Neste contexto, nas primeiras décadas do milênio, novos atores surgiram na cena, e na verdade alguns deles já batalhavam por um lugar ao sol há bastante tempo – um exemplo é o grande gênio Bill Gates, seguido por  Steve Jobs, só para citar dois das bigs techs que durante muito tempo fizeram, e ainda fazem, a cabeça dos aficcionados da era informacional. Porém, não há como falar desse setor sem mencionar o revolucionário Facebook e seu dono, Mark Zuckerberg. Com mais de 2,85 bilhões de contas ativas – sendo 130 milhões delas brasileiras –, o FB já concentra mais usuários em sua plataforma do que brasileiros no Brasil. Segundo a Resultados Digitais, um blog especializado em tecnologia, a terceira, a quarta e a quinta maiores redes sociais em números de usuários  também são de propriedade do grupo Facebook Inc. 

Dentro desses novos milionários que a tecnologia produziu, o pessoal da lista da Forbes inclui dois homens que nos conectam com a ideia original e de alguma forma retomam a corrida espacial. O primeiro é Elon Musk,  um empreendedor e fundador, CEO da SpaceX, CEO da Tesla, vice-presidente da OpenAI, fundador e CEO da Neuralink e co-fundador e presidente da SolarCity. Em 7 de janeiro de 2021, com um patrimônio pessoal estimado em cerca de US$ 188,5 bilhões, Musk tornou-se a pessoa mais rica do mundo, de acordo com a Bloomberg. O outro personagem é Jeff Bezos, fundador da Amazon, que no ano 2000 fundou a Blue Origin, uma empresa de voos espaciais humanos, parcialmente resultado do seu fascínio pelas viagens espaciais, incluindo um interesse precoce em desenvolver “hotéis espaciais”, parques de diversões, colônias e pequenas cidades para 2 ou 3 milhões de pessoas vivendo na órbita da terra.  A empresa ficou em segredo por alguns anos; tornou-se publicamente conhecida apenas em 2006, quando comprou terras consideráveis no oeste do Texas, para instalações de testes. 

Em entrevista, Bezos indicou que ele fundou a empresa espacial para ajudar as “pessoas a entrarem no espaço” e declarou que a empresa estava comprometida em diminuir o custo e aumentar a segurança do voo espacial.  A Blue Origin é uma das várias startups com o objetivo de abrir viagens espaciais aos clientes pagantes. Como a Amazon, a empresa era secreta, mas em setembro de 2011 revelou-se que a Blue Origin tinha perdido um protótipo de veículo não tripulado durante um pequeno período. Embora este tenha sido um revés, o anúncio da perda revelou pela primeira vez o quanto o time da Blue Origin havia avançado. 

Bezos e Musk vem travando uma corrida pela popularização da tomada do espaço para fins comerciais. Se antes a corrida envolvia a área da tecnologia, tendo nessa disputa duas nações que investiram na educação e realizaram pesados investimentos em estudos científicos, hoje a disputa é por protagonismo numa nova indústria do turismo. O interessante é que a relação entre Bezos e Musk já foi parar nos tribunais quando, recentemente, a NASA recusou uma proposta da empresa de Bezos (em detrimento da de Musk) para construção de uma base espacial para a nova ida do homem a lua. 

Na última quarta-feira, Blue Origin, empresa de turismo espacial do bilionário Jeff Bezos, realizou mais uma missão tripulada, às 11h (horário de Brasília). A bordo estave o ator William Shatner, de 90 anos, que interpretou o capitão James T. Kirk na série “Jornada nas estrelas” (Star Trek). É superimportante entender a função do cinema na criação do imaginário a respeito do espaço e da hegemonia americana nesse lugar. Hollywood é o soft power responsável por levar ao mundo a ideia de que os Estados Unidos da América são os nossos líderes e protetores, tanto no céu quanto na terra. 

Essa é a segunda viagem patrocinada pela empresa de Jeff Bezos e que acontece no momento em que o debate sobre a ausência de vacinas para o coronavírus em países africanos ou em desenvolvimento emerge. Para se ter uma ideia sobre como foi mal vista a viagem, o príncipe William [e cabe a você avaliar se a opinião dele vale alguma coisa] criticou a viagem, segundo ele “(…) vemos todos tentando fazer o turismo espacial acontecer – é a ideia de que precisamos de alguns dos maiores cérebros e mentes do mundo concentrados em tentar reparar este planeta, não em tentar encontrar o próximo lugar para ir morar – (…) precisamos nos concentrar neste, em vez de desistir e ir para o espaço para tentar pensar em soluções para o futuro.” William Shatner discordou do príncipe e respondeu  que “viagens como a dele são como um passo de bebê em direção à transferência de indústrias poluentes para o espaço […], o príncipe está perdendo o ponto.”

Segundo os pesquisadores Jesse Graham, da Universidade do Sul da Califórnia, e Jonathan Haidt, da Universidade de Nova York, nossa percepção a respeito de quando uma ação é certa ou errada segue mais ou menos uma mesma lógica em qualquer lugar do mundo, independente de crenças e religião/ou da não religião.  À essa lógica, os pesquisadores chamam de Teoria dos Fundamentos Morais (doravante TFM).  A TFM obedece a uma lógica de cinco fatores, a saber: cuidado, reciprocidade, lealdade, autoridade e pureza. Segundo a TFM, sempre que alguém for classificar uma atitude como certa ou errada, utilizará as cincos ou uma das cinco condicionantes. 

O valor da viagem não foi divulgado, mas, a julgar pelo valor leiloado para o primeiro voo que foi de VINTE OITO MILHÕES DE DÓLARES, é possível entender o tamanho da insatisfação da sua alteza real. Saliento que, se você tem um Jeep Renegade, tira foto fazendo linguinha pro espelho na academia Body Tech ou se gaba de tomar os melhores vinhos e cervejas artesanais Ipa, essa nova modalidade de turismo não é para você, pois os seus 28k por mês não dão conta desse estilo de vida. Para brincar no parquinho do tio Musk e do tio Bezos, tem que fazer parte da turma dos 1% mais ricos do mundo. 

No meio de uma pandemia, com pessoas literalmente morrendo de fome, morrendo, dar role no espaço pagando VINTE E OITO MILHÕES DE DÓLARES me parece (para quem tem dinheiro para pagar) a coisa certa, sendo feita na hora errada. Uma coisa certa feita na hora errada se torna uma coisa errada, ainda que certa. 

SOBRE O AUTOR

Vítor Del Rey é presidente do Guetto, irrequieto, polímata e um fazedor por excelência.