POR JARED NEWMAN

Demorou várias décadas, mas os programas de edição de documentos mais recentes finalmente pararam de copiar o Microsoft Word.

Editores modernos como Notion e Coda não imitam uma página impressa. Em vez disso, se assemelham mais com navegar na web. Seus espaços para escrita fluem livremente, sem quebras, e podem se ramificar em subpáginas da mesma forma que hyperlinks. Essas páginas também são interativas, com caixas de seleção, gráficos, painéis kanban (semelhantes ao Trello) e podem ser vinculadas a fontes de dados externas.

Embora Notion e Coda já existam há muitos anos, sua abordagem de repente começou a atrair muita concorrência. No início deste ano, o Google Docs adicionou checklists interativas e formas mais simples de vincular outros documentos. Já uma atualização futura do Box Notes incluirá links de âncora, caixas de texto explicativo e tabelas revisadas. A ferramenta de gerenciamento de projetos Monday lançou um editor de documentos em agosto, com referências claras aos blocos de conteúdo que você pode arrastar e soltar da Notion. A própria Microsoft está trabalhando em um sistema modular de edição do Office chamado Fluid Framework. Enquanto isso, Skiff e Craft, editores iniciantes menores, estão dando seu próprio toque à fórmula, com foco respectivamente na privacidade e na escrita.

Box Notes

Como resultado, podemos ver a primeira grande mudança de paradigma em editores de documentos em décadas. Por outro lado, isso também pode gerar dor de cabeça para os usuários, à medida que empresas abandonam ferramentas já testadas e comprovadas em busca de novos formatos de edição.

O FIM DO ARQUIVO E O CRESCIMENTO DE EDITORES INDEPENDENTES

Shishir Mehrotra, cofundador e CEO do Coda, diz que grandes empresas como Microsoft, Apple e Google não se preocupam em reinventar seus editores de documentos. Em vez disso, criaram processadores de texto com o objetivo maior de estabelecer suas plataformas de computação.

“Há décadas, toda inovação em produtividade é feita por uma empresa de tecnologia cujo objetivo principal é disseminar sua plataforma”, diz Mehrotra. “Se o seu objetivo é que mais e mais pessoas utilizem seu sistema, você simplesmente não vê incentivos para fazer grandes mudanças nos seus produtos.”

Mas com o surgimento de smartphones e aplicativos mais poderosos, as expectativas começaram a mudar. No mês passado, Monica Chin, do portal The Verge, escreveu sobre como os estudantes universitários de hoje têm dificuldade de entender o funcionamento tradicional de arquivos. Tendo crescido em meio a serviços que priorizam o online, as hierarquias de arquivos não soam mais naturais para eles.

Ferramentas como Notion e Coda seguem essa tendência. Ao contrário do Google Docs – que ainda usa paginação, permite classificar documentos em pastas e mantém a compatibilidade com o Word – esses novos editores não se preocupam em dar suporte aos modelos tradicionais.

“Estamos vendo uma mudança de geração nessas ferramentas, semelhante ao que vimos quando as pessoas mudaram de editores como o Microsoft Office para ferramentas em nuvem”, disse a porta-voz da Notion, Elaine Greenberg, por e-mail. “As pessoas não querem ficar presas à rigidez tradicional.”

Notion e Coda não inventaram a ideia de editores de documentos interligados e de fluxo livre. Muitos de seus conceitos básicos surgiram pela primeira vez em um editor chamado Quip, lançado em 2013 como uma alternativa para smartphones ao Office. O próprio Quip se inspirou em aplicativos de redes sociais como o Twitter, usando o “@” para enviar mensagens para outros colaboradores e criar links para outros documentos. Também introduziu checklists dinâmicas, o que o fez parecer mais com ferramentas de planejamento do que páginas impressas. O cofundador da Quip, Bret Taylor, falou de forma empolgada sobre o fim dos arquivos do computador e sobre transformar documentos em centros completos de planejamento de projetos.

Porém, o software estava um pouco à frente de seu tempo, algo que Kevin Gibbs, outro cofundador da Quip e atual CEO, agora reconhece. Enquanto a Salesforce comprou a Quip por US$ 750 milhões em 2016, a Notion foi avaliada em US$ 10 bilhões e o Coda, em US$ 1,4 bilhão. Demorou até agora, afirma Gibbs, para que os usuários aceitassem editores de documentos que refletem a natureza livre da internet.

“Não se trata de organização ou criação de pastas e hierarquias”, diz ele. “É realmente uma teia interconectada onde você encontra e faz referência a outros documentos.”

A NOVA GUERRA DE DOCUMENTOS

É claro que a pandemia do coronavírus também acelerou tudo. À medida que mais empresas e usuários mudam para o trabalho remoto ou híbrido, a maneira como trabalhamos também está mudando e precisamos de novas ferramentas para nos mantermos atualizados.

Aaron Levie, o CEO da Box, cita como exemplo a videoconferência. Antes da pandemia, os colegas de trabalho se reuniam pessoalmente. Agora os funcionários estão se reunindo tanto pessoal quanto remotamente, enquanto usam seus computadores ou dispositivos móveis o tempo todo. Isso significa que todos podem colaborar em um único documento de planejamento, seja em tempo real ou depois.

“Temos a fusão perfeita de colaboração síncrona e assíncrona no mesmo ambiente”, diz Levie, “e isso está mudando fundamentalmente a forma como trabalhamos”.

Notion

Editores completos de documentos, como Notion e Coda, podem ser o Santo Graal para esse tipo de trabalho, o que explica o motivo de tantas outras empresas estarem correndo para se adaptar. O Google está tentando adicionar planejamento de produtos em seu editor, enquanto a Monday está fazendo o inverso, tentando encaixar a edição de documentos em seu planejador de produtos. Não seria totalmente surpreendente se o Airtable ou o Trello se expandissem além de suas planilhas centrais e interfaces de painel kanban para incluir documentos semelhantes a processadores de texto também.

“Esse mercado é importante não apenas porque altera completamente o entendimento tradicional do que é um documento, mas também porque, se funcionar, vai acabar incorporando todas essas outras categorias”, diz Mehrotra.

Tudo isso pode parecer demais para os usuários. Em vez de ter ferramentas ajustadas para diferentes tipos de trabalhos, eles provavelmente terão que lidar com aplicativos que parecem cada vez mais homogêneos.

Mas Levie diz que este é apenas o resultado natural de um novo paradigma se estabelecendo. Ele vê o formato de edição da Notion se tornando algo importante, à medida que mais clientes se acostumam ao modelo, o que faz com que empresas precisem se diferenciar de outras maneiras.

“Não acho que você vai necessariamente ganhar com novos editores”, diz ele. “O ganho será na forma como compartilhando informações.”

Para a Box, isso se reflete em governança de dados e ferramentas de compliance que ela oferece para empresas que lidam com dados confidenciais. Para o Google, podem se refletir no estreitamento de laços entre os produtos de seu ecossistema, como Gmail e Google Meet.

E no caso da Notion e do Coda, ambos estão correndo para construir seus ecossistemas a partir dos templates que seus usuários estão criando. Na semana passada, o Coda anunciou um marketplace onde os usuários podem vender templates uns aos outros. A Notion ainda não deu esse passo – atualmente, seus usuários costumam fazer vendas em outros sites, como o Gumroad -, mas está em condição forte de fazê-lo. Sua porta-voz, Greenberg, aponta a “comunidade inusitadamente grande e engajada de 20 milhões de usuários” como seu diferencial.

O resultado pode ser um conjunto inteiramente novo de formas de editar documentos, abandonando décadas de influência do Word e de gigantes como o WordPerfect. “Se você espera que todos os documentos funcionem de uma maneira nova”, diz o CEO do Coda, Mehrotra, “de forma gradual, isso vai se chegar em todos os produtos”.

SOBRE O AUTOR

Jared Newman escreve sobre aplicativos e tecnologia do seu posto remoto em Cincinnati. Ele também escreve duas newsletters, Cord Cutter Weekly e Advisorator.