POR CLAUDIA PENTEADO

Gilson Magalhães, CEO da Red Hat, líder mundial em soluções open source, diz que gosta de trabalhar, e incorpora perfeitamente aquilo que ele considera a habilidade mais importante para os tempos atuais: o desassossego criativo. Ser um desassossegado criativo é não se acomodar na zona de conforto, e procurar sempre abrir novos espaços para aprimorar e incorporar possibilidades àquilo que se entrega para o mundo. É ir além da job description como filosofia de vida, desde que, claro, isso seja positivo para todos os envolvidos.  Experiente na área de tecnologia, ele  começou sua carreira como programador do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq), passou pela Oracle, onde chegou a vice-presidente da unidade de Negócios Industriais, depois foi country manager da Dell Software. Há quase uma década está à frente da operação brasileira da Red Hat. Neste bate-papo com a Fast Company Brasil, ele dá seu ponto de vista sobre inovação, qualidade de vida, entre outros temas. 

O que é inovação, para você?

É curiosa a inquietação das empresas em introduzir inovação. Inovação é a palavra do momento. Em TI, inovação é o que fazemos o tempo inteiro e estudo muito o tema. Gosto da definição de que inovação é uma atitude que permite a pessoas e empresas enxergar o presente pelo olhar do futuro. E a partir dos componentes que se tem hoje, imaginar uma outra realidade no presente a partir de uma possibilidade que se vê no futuro, usando qualquer que seja o insumo. 

A inovação não é uma capacidade inerente ao nosso DNA. Dois terços das pessoas não têm inovação no DNA, isso pode ser aprendido. Inovação também é uma construção de mentalidade de uma empresa, a partir da consciência de que, em grande medida ela pode ser aprendida.   

É preciso conhecer as ferramentas para desenvolver processos inovadores dentro de casa. No nosso caso, inovar é criar um modelo de negócio baseado na colaboração de ideias entre pessoas, que permite que todos usem a construção de valor livremente, sem custos. Somos os precursores de open source. Quebramos o paradigma do software proprietário. Somos líderes mundiais na entrega de soluções corporativas de domínio público. 

Qual a habilidade mais importante nos tempos atuais?

Olhando para o cenário que estamos vivendo, eu diria que a habilidade ou característica ideal seria o desassossego criativo ou a inquietação positiva. Nunca, em hipótese alguma, achar que você chegou a uma zona de conforto. O desassossego do Fernando Pessoa é mais dramático, neste caso seria, no lugar de parar na zona de conforto, avaliar se algo pode ser feito para ficar ainda melhor. Porque se você não fizer isso, um chinês vai fazer, ou alguém fará. A partir disso, como dizemos aqui na Red Hat, ficar atento a novas ideias, ser “open” o tempo inteiro.

O que o conceito de sustentabilidade representa para você e para o seu negócio?

Cumprir nosso propósito é a nossa maior ação de sustentabilidade: entregar um software de qualidade, por um preço justo, para que os clientes sejam beneficiados com uso amplo de tecnologia disruptiva. Na prática é dizer que nosso software é eficiente energeticamente, barato e disruptivo e permite que as empresas se beneficiem – por exemplo, economizando energia nos datacenters. Também podemos ajudar a construir soluções de mobilidade urbana, e por aí afora. Com o produto que fornecemos, colaborativo e open source, podemos ajudar as empresas a se tornarem mais sustentáveis. Um bom exemplo de como o open source pode impactar positivamente é como a chamada open science nos permitiu disponibilizar a vacina contra a Covid-19 mais rapidamente. Ou permitiu construir respiradores mais baratos, mais rápido. O open source tem seu foco em impactar a comunidade positivamente, e é a base de diversas inovações que trazem benefícios para a sociedade. 

O que é qualidade de vida você?

Me sentir inteiro, onde quer que eu esteja. Dizer que é estar numa rede, na beira do mar, pegando uma brisa não seria verdade, porque gosto de trabalhar. Gosto de fazer o que eu faço, de me envolver com TI. Isso faz parte da minha qualidade de vida. Me sinto inteiro quando estou me doando inteiramente e o ambiente permite que eu use minhas capacidades no limite. Quero me sentir inteiro em todas as áreas, e não dividido, seja quando estou trabalhando, ou estou com a família, no lazer. A invasão entre as áreas reduz a qualidade. Quero ser o melhor funcionário, marido e pai possível. Isso depende da entrega total. Tendo a ser dadivoso, e me reconheço assim. E por isso quero morrer vazio. Não quero levar para sepultura coisas que eu poderia ter dado. Prefiro sempre me entregar.

Qual o seu conselho para quem quer ter sucesso nos negócios e na vida?

Ficar sempre em movimento. Mover-se, o tempo inteiro. Não significa ficar mudando de empresa. Dentro do desassossego que eu mencionei, é ter o espírito inquieto, que deseja entregar sempre o melhor. Não importa o que se faça. Minha primeira promoção foi numa lanchonete nos Estados Unidos, onde eu lavava os banheiros. Eu lavava com maestria, enquanto os americanos passam um paninho. Procure espaço para fazer coisas. Sair da visão mesquinha do job description e procurar fazer sempre o melhor. E não se deixar escravizar pelo dinheiro. Quem começa uma startup querendo ser unicórnio, tem poucas chances de chegar lá. Mas o cara que começa um negócio querendo transformar o mundo, tem todas as chances de se tornar unicórnio.

SOBRE A AUTORA

Claudia Penteado é editora chefe da Fast Company Brasil.