Assunto de primeira ordem para toda e qualquer nação, a saúde ganhou ainda mais relevância desde que a crise da Covid-19 avançou sobre o globo há pouco mais de um ano. Se por um lado a pandemia como um todo evidenciou falhas e desigualdades estruturais em diversas instâncias – e, por outro, ajudou a acelerar transformações – sob o aspecto sanitário, especificamente, a crise jogou ainda mais luz sobre os desafios do sistema de saúde. E, como consequência, apresentou oportunidades para novas soluções e negócios neste segmento.

Tanto é que 2020 foi bastante expressivo para as healthtechs, que captaram US$ 106 milhões em 53 rodadas de investimento, de acordo com a Distrito Dataminer, braço de inteligência de mercado da Distrito. O montante representa um crescimento de 70% em relação ao ano anterior e, além disso, o setor ficou atrás somente das fintechs em termos de aportes. O levantamento mapeou um total de 671 startups de health no ano passado.

A ebulição das techs de saúde se justifica de duas formas: a primeira, mais óbvia e imediata, diz respeito à necessidade de passar a oferecer atendimento médico para a população à distância. As consultas online, assim como as compras de supermercado pelo app, passaram a ser hábitos para muitos brasileiros. A segunda é sobre uma tendência já vislumbrada e planejada tanto por instituições de saúde tradicionais quanto por startups: a digitalização iminente dos serviços, que viabilizará um sistema mais eficiente para todas as partes envolvidas da cadeia.

Para se ter uma ideia, a telemedicina foi regulamentada no país somente em março de 2020 em caráter temporário (a regulamentação definitiva ainda está em discussão no Congresso). Isso provocou uma expansão significativa das receitas médicas digitais. Na cidade de São Paulo, a healthtech Memed gerou 4 milhões de prescrições online – em 2019, emitiu 794 mil. “Mudanças necessárias na regulação estavam ocorrendo muito devagar e houve aceleração. Outro aspecto foram as mudanças forçadas de hábito. Tudo isso já existia, mas num contexto mais lento. A pandemia viabilizou o modelo de muitas de nossas investidas”, afirma Luiz Henrique Noronha, sócio da DNA Capital, fundo de investimentos especializado em healthtechs e que alocou investimentos na própria Memed, além da Beep, de vacinação em casa, e Feegow, sistema de gestão de clínicas.

Com atendimento online e presencial, a Cuidas trabalha com o conceito de atenção primária (Crédito: Divulgação)

A Docway, que há seis anos promove atendimentos médicos domiciliares, viu uma escalada de 600% de seus serviços de teleconsulta em 2020. Segundo o CEO Fábio Tiepolo, o principal avanço foi o fato de que os médicos passaram a solicitar exames e a prescrever medicamentos nas consultas em vídeo. “Logo ficou claro que os pacientes querem ser bem-cuidados, ainda que estejam diante de uma tela. Tanto que 50% dos atendimentos não são mais por causa de Covid-19”, diz. O desejo do paciente por cuidado e atenção descrito pelo executivo é o que tem motivado outras healthtechs, como a Cuidas. “Quando fizemos pesquisas antes de lançar a Cuidas, em 2018, descobrimos que saúde é o setor mais importante para os brasileiros, mas ao mesmo tempo é o que mais deixa as pessoas insatisfeitas, até mais do que segurança pública, educação e por aí vai”, comenta João Vogel, cofundador e CEO da Cuidas.

Hoje, a empresa foca no conceito de atenção primária (ou medicina de família e comunidade), que é prover o mesmo time de saúde ao longo da vida do paciente. “São médicos especializados nas questões mais comuns para a população brasileira, seja ginecológico, psiquiátrico ou respiratório. Esse mesmo profissional vai resolver até 80% de tudo que vai acontecer na vida dessa pessoa”, explica. A operação atende a PMEs que não têm plano de saúde por meio de mensalidades, e empresas maiores que oferecem planos de saúde para os colaboradores, mas recorrem à startup para resolver problemas que as operadoras não conseguem resolver. “Essas empresas apostam que usando mais a atenção primária da Cuidas, os colaboradores usarão menos o plano de saúde, reduzindo o desperdício e evitando o reajuste anual dos planos”, afirma. Ele também diz que mais da metade das demandas da Cuidas hoje são por serviços relacionados a saúde mental.

Integração com players tradicionais
Um ponto comum que une muitas healthtechs é a partida de um objetivo específico que passa para o desafio subsequente de como transformar esse propósito em um business, considerando em uma indústria fragmentada como é o sistema de saúde no Brasil. “Há conflitos de interesse, então o modelo de negócio deve ser capaz de gerar valor para a ponta, que são os pacientes e profissionais de saúde, e buscar dentro dos stakeholders quem é capaz de arcar com as inovações e as tecnologias”, afirma Lívia Cunha, fundadora e CEO da Cuco Health, startup focada em soluções para que o paciente consiga seguir o seu tratamento em todas as etapas. De acordo com ela, o mercado de healthtechs vive um momento de consolidação e o melhor caminho para a evolução é o modelo B2B e a integração com empresas tradicionais. “Em um segmento complexo como o de saúde, vender soluções para grandes players tem sido um movimento recorrente. O grande player tem capilaridade e tem o off-line, contato direto com o médico e com o paciente. Enquanto a healthtech tem agilidade e capacidade de escala”, avalia.

Depois do boom das prescrições digitais – em três meses de pandemia, a Memed passou a ter mais de 30 mil farmácias cadastradas na plataforma (antes, esse número era zero) – a startup também quer ajudar a acompanhar o tratamento médico dos pacientes. Com a ajuda dos dados, a operação começou a ter dimensão dos impactos econômicos para os sistemas de saúde público e privado. “Queremos entender o que impede o paciente de aderir a um tratamento. Às vezes é o preço do medicamento, às vezes é comodidade”, conta. Hoje, o app ajuda o paciente a encontrar farmácias mais próximas e a agendar exames, por exemplo.

A Telavita, serviço de consultas online com psicólogos e psiquiatras, tem diferentes propostas de valor dependendo do cliente: para empresas de saúde, propõe mais eficiência, alcance geográfico e gerenciamento de sinistro, gerando redução de custo e recursos como pronto-socorro e internações. Já para empresas em geral, a oferta tem caráter mais preventivo e consiste em programas de saúde emocional para funcionários, com o objetivo de reduzir afastamentos e aumentar a retenção da equipe. “Isso gera um ROI para ambos os tipos de empresa. A organização que investe na saúde mental dos colaboradores consegue um ganho de três a quatro vezes maior”, exemplifica Andy Bookas, cofundador e CEO da Telavita. Na visão dele, a situação do sistema de saúde no Brasil afeta diretamente o modelo de negócios das startups de saúde. Está nos planos da Telavita, aliás, expandir o modelo de negócios para a saúde pública.

Seriam as healhtechs as novas fintechs?

Alice propõe planos de saúde modulares de acordo com a necessidade da pessoa (Crédito: Divulgação)

Uma das healthtechs mais jovens do mercado nacional – e uma das que movimentou o país em 2021, ao receber um aporte de US$ 33,3 milhões – a Alice foi lançada em plena pandemia, no final de junho. André Florence, sócio e CEO da startup, gosta da analogia das fintechs, que em 2010 começaram com o objetivo de servir o mercado tradicional, mas aos poucos passaram a revolucionar a cadeia como um todo. “Isso é análogo ao que acontece com as healthtechs. As primeiras soluções de tecnologia foram criadas e existem para melhorar o mercado tradicional, a eficiência, mas não altera essencialmente o ecossistema. Exemplos disso são os sistemas de gestão, os prontuários e as prescrições eletrônicas, que são coisas boas”, afirma.

O objetivo da Alice, segundo ele, é reinventar o modo com que as pessoas pensam sobre a própria saúde e revolucionar a cadeia como um todo a partir da criação da categoria de gestora de saúde. Com a premissa de oferecer um atendimento personalizado e que olha para o bem-estar da pessoa em geral, a empresa aposta em times especializados que acompanham o sono, a alimentação e diversos outros aspectos da saúde do consumidor. Com isso, a startup que que o serviço seja uma one stop shop para as pessoas.

Mas, mesmo com a premissa de provocar uma disrupção, a Alice desde o início tem parcerias com instituições tradicionais, como o Hospital Albert Einstein para impulsionar o modelo de value-based healthcare (VBHC). Isso significa que, no momento de montar o plano, a pessoa pode incluir profissionais do hospital. Para Luiz Henrique, da DNA Capital, isso representa uma tendência de consumerização da saúde, em que o indivíduo toma cada vez mais posse da própria saúde.

Se o mercado de fintechs no país movimenta centenas de bilhões de reais, o segmento das healthtechs ainda está na casa das centenas de reais. Na visão de Ricardo, da Memed, pesa o fato de este ser uma área muito regulamentada, o que causa certo receio nos investidores. “Com a pandemia, as healthtechs começam a entrar mais no radar dos investidores, mas ainda há o problema de não conseguir uma segurança jurídica, em muitos casos”, observa. Para Lívia, da Cuco, as healthtechs têm diante de si um desafio maior do que as fintechs pela própria natureza de cada um. “Fintechs têm de lidar com temas mais burocráticos, que se resolvem mais facilmente no digital. Enquanto startups de saúde lidam com a vida, é extremamente sensível. Mas o cenário dos investimentos vem mudando, estamos vendo fundos de venture capital que não atuam em nichos específicos entendendo o mercado de saúde como oportunidade de investimento”, afirma.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil