POR FÁBIO CARDO

Jack Ma, fundador do Alibaba e atualmente “aposentado” com sua fortuna em torno de 40 bilhões de dólares, chamou a atenção nos últimos dias por alguns motivos. O primeiro e mais imediato, por ter reaparecido em público, decorridos muitos meses em que ficou totalmente off, após ter sido enquadrado pelo governo chinês por conta de suas manifestações públicas. Já o segundo motivo, pode ser fato de comemoração para muitos e apreensão para outros.

Em sua primeira viagem internacional, tendo como destino a Europa, dedicou seu tempo e atenção para estudar o agronegócio e a tecnologia. Visitou Espanha e Holanda para conhecer as práticas de cultivo de alimentos. Recentemente, no mês de setembro, ele foi visto visitando fazendas verdes na China. Um dia após a visita, ele declarou intenção de investir cerca de 15,5 bilhões de dólares até 2025 em negócios que gerem prosperidade para a população.

A FORTE ASPIRAÇÃO PESSOAL PROMOVENDO INICIATIVAS

Jack Ma

Jack Ma, fundador do grupo Alibaba (Crédito: Wikimedia Commons)

Jack Ma declarou em evento do Alibaba em 2017 ter como sonho pessoal acabar com a fome mundial. Sua meta é fazer com que qualquer pessoa no mundo tenha acesso a um prato de comida com qualidade e quantidade, em no máximo 72 horas. 

Hoje, somando com a flexibilidade da aposentadoria, finalmente parece estar se dedicando ao seu sonho. Com recursos financeiros pessoais abundantes para suprir as necessidades próprias e de familiares por gerações, pode adquirir toda a infraestrutura tecnológica e logística necessária para isso. 

Ele declarou em entrevista ao seu jornal South China Morning Post que a combinação da computação em nuvem, análise de big data e inteligência artificial do Alibaba podem modernizar a agricultura na China. Avançando nesse projeto, este não será o primeiro negócio que realizará com sucesso usando essas tecnologias. Vide, por exemplo, a oferta de seguro saúde com custo extremamente acessível a toda a população e serviços com qualidade.

China é um dos países que mais tem desafios de alimentação no mundo. Sua população, que passa de 1 bilhão de habitantes, já sofreu muito com a fome décadas atrás. Hoje, felizmente, está fora do mapa de países com maiores inseguranças alimentares. Porém, depende muito da importação de alimentos, onde o Brasil tem destaque como o maior fornecedor global da maioria de itens que compõem a pauta de importações. 

O país ainda tem que projetar suas necessidades para as próximas décadas, considerando todas as variáveis aleatórias que podem afetar a produção global de alimentos, decorrentes, por exemplo, do aquecimento global. Portanto, é muito saudável e preventivo investir em estruturas internas de produção de alimentos, usando o que há de mais moderno em termos de tecnologia aplicada desde o campo até a mesa dos consumidores.

VELOCIDADE DE ADOÇÃO DE TECNOLOGIAS EM FOODTECH NA CHINA PODE ABALAR MERCADOS INTERNACIONAIS?

Os padrões de cultivo e colheita de alimentos com produção extensiva estão muito bem aplicados nos países que são os maiores produtores mundiais, principalmente no Brasil. Culturas e safras bem definidas, agricultura de precisão e muita tecnologia estão evoluindo rapidamente e trazendo melhor produtividade. Ainda assim, dependem de boas terras e clima adequados. 

A China está investindo pesado nos países africanos, que têm boas condições de solo e clima, e contam com vantagens logísticas pela distância. Ma já esteve inúmeras vezes visitando o continente africano para promover iniciativas de e-commerce como ferramenta para melhorar os negócios e a qualidade de vida na região. E nunca pisou no Brasil.

É difícil precisar qual seria o foco e pretensão dele em termos de investimentos na produção de alimentos. Bem provável que ele esteja prevendo investir no curto prazo e dentro da China em estruturas de produção de alimentos em fazendas verticais, negócio que já conta com muitas operações locais.

Melhor adotar a máxima prudência e não duvidar que ele consiga estruturar dentro da China operações de produção de alimentos de cultura extensiva, hoje importados, em prazo mais longo. Faz parte da mentalidade chinesa planos estratégicos para longo prazo, 50 anos por exemplo. Isso sim poderá mexer com os mercados internacionais de alimentos, mas não se realizará da noite para o dia.

Além de estar prestando um grande serviço ao país ao ajudar a garantir a oferta de alimentos e redução da insegurança alimentar, Ma promoverá um goodwill alinhado com as diretrizes políticas do governo, podendo reduzir o stress com ele. E, principalmente, dará andamento em seu plano pessoal de acabar com a fome mundial.

SOBRE O AUTOR

Fábio Cardo é economista de formação, atua em comunicação empresarial e empreendedorismo e é co-publisher do canal FoodTech da Fast Company Brasil