O que os criadores da web3 têm a aprender com o iPhone e o Macintosh

Algumas áreas-chave que a web3 precisa melhorar ou mudar para que tenha alguma chance de ganhar apelo em massa

Crédito: National Museum Of American History/ t2id.com/ Freepik

Prad Nukala 4 minutos de leitura

A web3 está enfrentando um desafio muito comum: os desenvolvedores mais inovadores do mundo estão super empolgados com ela, mas o resto do mundo, não.

Apesar de estimativas apontarem que, globalmente, o número de desenvolvedores passará de 28 milhões até 2024, dados de janeiro deste ano sugerem que há apenas cerca de 18 mil no ecossistema da web3. Por mais que ressaltem seu potencial revolucionário, a realidade é que não há muitas pessoas interessadas nela.

Isso levanta a questão: o que está impedindo a web3 de ganhar apelo? Ou melhor: o que fará com que “atravesse esse abismo”?

ATRAVESSANDO O ABISMO

Peguei essa expressão emprestada de um famoso livro de Geoffrey Moore: “Atravessando o Abismo: Marketing e Venda de Produtos Disruptivos para Clientes Tradicionais”. Nele, Moore classifica indivíduos que adotam tecnologia em cinco categorias:

1 . Inovadores

2 . Visionários

3 . Pragmáticos

4 . Conservadores

5 . Céticos

Os inovadores são os mais ávidos por adotar novas tecnologias (e, frequentemente, construí-las), seguidos por visionários, que são rápidos na aceitação. O verdadeiro abismo está entre este grupo e os pragmáticos, que só se dispõem a adotar uma nova tecnologia quando ela oferece valor imediato e tangível. 

Atraí-los é a tarefa mais desafiadora para qualquer nova tecnologia. Uma vez convencidos, os dois últimos grupos se tornam muito mais propensos a enxergar o potencial de valor da tecnologia – ou serão forçados a viver em um mundo onde as velhas tecnologias a que estão acostumados não são mais viáveis.

Isso nos traz de volta à web3. E quando penso no abismo que ela tem diante de si, sempre lembro da Apple – especificamente, do fracasso do Macintosh e do sucesso do iPhone.

UM CONTO DE DUAS APPLES

Em 1984, o Macintosh era um dispositivo inovador. Foi revolucionário na forma como humanizou a computação pessoal. O simples fato de o computador dizer “olá” quando iniciado era um aceno para a experiência do usuário que a Apple viria a dominar.

Por mais que agradasse os entusiastas de tecnologia, o Macintosh foi um fracasso comercial completo.

Embora impressionasse em certas frentes – sobretudo na experiência do usuário –, falhou em agregar valor prático à vida das pessoas. Era muito lento e tinha pouca memória para desenvolvedores e criativos (cerca de um oitavo da memória RAM do outro lançamento de computação pessoal da Apple, o Lisa).

Por mais que agradasse entusiastas de tecnologia, o Macintosh foi um fracasso comercial completo e contribuiu para a saída precoce de Steve Jobs da empresa.

Agora, pense no lançamento do iPhone, em 2007. Imediatamente, ele substituiu um conjunto de outros produtos: tinha bússola, cotação da bolsa, previsão do tempo, bloco de notas, câmera, calendário e calculadora. Ah, e também dava para fazer ligações telefônicas.

Por isso, os visionários se empolgaram tanto com essa tecnologia inovadora. Os pragmáticos, por sua vez, viam nele um produto capaz de fazer o trabalho de oito. Se o iPhone fosse somente elegante, provavelmente teria tido o mesmo destino do Macintosh (ou do Moto Razr). Mas ele era muito mais do que isso.

COMO A WEB3 PODE ATRAVESSAR O ABISMO

Existem algumas áreas-chave que a web3 precisa melhorar ou mudar para que tenha alguma chance de atravessar o abismo:

Novas tecnologias podem mudar o mundo quando combinam ideias visionárias e valor prático.

  • Legitimidade – Um fator importante que pesa sobre tudo o que está relacionado à web3 e às criptomoedas é que a maioria das pessoas pensa se tratar de um golpe. Certamente não é, mas entendo essa impressão. Se eu lhe mostrasse minhas DMs no Twitter, você ficaria surpreso com a quantidade de mensagens sobre criptomoedas que prometem enriquecimento fácil. 

Se o crash das criptomoedas serviu para alguma coisa, foi para desfazer certos mitos. Dentro e fora do mundo web3/ cripto, os investidores estão assustados com qualquer coisa que não seja baseada em utilidade. E isso é bom. A web3 só será adotada amplamente quando a maioria acreditar que é segura.

  • Experiência – É necessário muito conhecimento técnico para acessar a web3, algo que pessoas comuns provavelmente não têm ou nem mesmo desejam ter. Grande parte das carteiras de criptomoedas, por exemplo, requer seed phrases, ou frases semente, de 14 palavras para serem acessadas. Portanto, a web3 precisará encontrar uma maneira de tornar tudo mais simples. Acredito que o nome de usuário combinado com biometria ajudará bastante a resolver esse problema.
  • Valor prático – O staking, uma forma de conseguir renda passiva por meio de criptomoedas em uma carteira virtual, é uma área interessante cujo potencial de valor tangível ainda não foi totalmente explorado. Atualmente, ele oferece algum valor prático na forma de liquidez de rede – e, ostensivamente, controle de preços de moedas, embora tenhamos visto o quão volátil isso pode ser.

Acredito que há mais coisas que podemos fazer. Por exemplo, oferecer gratuitamente uma certa quantidade de espaço para armazenamento em nuvem para cada incremento de staking – com valor definido, dissociado do destino da própria moeda.

Novas tecnologias podem mudar o mundo quando combinam ideias visionárias e valor prático. O Macintosh era visionário, porém sem nenhum valor. Já o iPhone era (e ainda é) uma fusão perfeita de ambos. Peço aos desenvolvedores da web3 que sempre busquem unir suas visões às necessidades de uma geração nativa digital.


SOBRE O AUTOR

Prad Nukala é fundador e CEO da Sonr, plataforma que permite aos desenvolvedores criar aplicativos focados no consumidor e na privacid... saiba mais