POR ERIKS SVARCBERGS

Apesar de um em cada quatro adultos nos EUA viver com algum tipo de deficiência, menos de 2% dos principais sites do mundo oferecem experiências totalmente acessíveis. Houve um aumento no número de processos judiciais relacionados a acessibilidade digital, mas resolver o problema envolve mais do que evitar consequências legais. O desenvolvimento de sites e aplicativos que se preocupam em oferecer acesso a todos permite que mais usuários utilizem esses produtos e cria um ambiente digital mais inclusivo.

8 PASSOS PARA CRIAR UM AMBIENTE DIGITAL ACESSÍVEL

Hoje, a pressão para criar um ambiente digital mais acessível está maior do que nunca e não está restrita apenas a pessoas com deficiência permanente. Imagine usar seu telefone ao ar livre em um dia ensolarado e ter dificuldade para ver claramente o que está em sua tela. Ou pense em como seria difícil usar um mouse se você tivesse passado por uma cirurgia no pulso.

O conteúdo acessível é fundamental para proporcionar experiências que funcionem para todos os usuários, especialmente aqueles com deficiências permanentes, situacionais ou temporárias.

1. Planeje com antecedência

Você precisa de uma estratégia sólida antes de criar e desenvolver seu ambiente digital e a acessibilidade é algo que não pode ser deixado de lado. Durante a fase de planejamento, defina o escopo dos recursos para acessibilidade, que deve incluir tempo, equipe e orçamento, e fique atento para ajustar o que for preciso conforme o projeto avança. Se você não possui um profissional ou equipe específica de acessibilidade, há ferramentas online gratuitas que você pode usar ou você pode adquirir o acesso ao padrão internacional ISO 30071-1.

Além disso, verifique as diretrizes locais, estaduais e federais com base na localização da sua empresa. Algumas jurisdições sugerem (ou mesmo exigem) um nível específico de conformidade de acessibilidade para experiências digitais. Você também precisa estabelecer a comunicação completa e interdepartamental sobre a estratégia para que todos estejam alinhados com as necessidades do projeto e suas responsabilidades individuais.

2. Pesquise

Você precisa alocar uma parte de seu orçamento, tempo e profissionais para pesquisar, mesmo se a sua empresa for uma startup com recursos limitados. Comece definindo seu público-alvo e base de usuários para determinar as necessidades de acessibilidade que você deve priorizar no design e desenvolvimento de  produto. Dado que 15% da população mundial vive com algum tipo de deficiência, você deve presumir que pelo menos alguns de seus usuários terão necessidades de acessibilidade. Pesquisar sua base de usuários dará, sobretudo, uma ideia mais clara de onde focar.

Por exemplo, se você estiver desenvolvendo um aplicativo para uma loja ou rede de óculos, é seguro presumir que sua base de usuários é composta por pessoas que usam este produto. Nesse caso, você precisa ter um cuidado especial para garantir que os aspectos visuais do seu aplicativo sejam acessíveis e fáceis de usar para pessoas com deficiência visual. Ou, se você estiver desenvolvendo um site voltado para um público mais velho, certifique-se de usar elementos visuais claros e diferentes opções de navegação para que se tenha uma experiência mais acessível.

Caso você tenha os recursos para tal, também deve incluir os usuários com necessidades de acessibilidade durante esta fase de pesquisa. Uma maneira de fazer isso é entrevistar vários deles para ter uma análise mais profunda da acessibilidade do seu produto e compor essa equipe com pessoas com necessidades diferentes (por exemplo, um usuário que depende de um leitor de tela e alguém que usa teclado para navegar na internet).

3. Mantenha a funcionalidade em mente

Antes de entrar na fase de design, seus profissionais devem ter uma compreensão clara dos padrões de acessibilidade. Se você não tem um especialista no assunto, a World Wide Web Consortium (W3C) oferece dicas sobre como desenvolver aplicativos ou sites com acessibilidade em mente, o que é um excelente ponto de partida. Mas, além disso, você precisa considerar usuários com todos os tipos de deficiência e como eles irão interagir com cada tarefa no site ou aplicativo. Como alguém usando um leitor de tela selecionará um intervalo de datas em uma página? Um widget de calendário pode ser frustrante ou inacessível para certos usuários, por outro lado pode ser uma alternativa acessível fornecer um campo de formulário adicional para inserir datas manualmente.

Uma interface cuidadosamente projetada também precisa transmitir informações em diferentes modalidades. Seu áudio possui legendas para usuários com deficiência auditiva? Seu conteúdo possui descrições de imagem em texto para usuários com deficiência visual? Garantir que todos os conteúdos possam chegar ao usuário através de mais de um sentido ajudará a manter seu site inclusivo e acessível.

Por exemplo, quando se trata de gráfico, você nunca deve usar apenas cores para comunicar uma mensagem, ao invés disso, use combinações de cores, números, palavras ou letras para identificar cada botão. Seus botões também devem ser facilmente identificados. Se o aplicativo ou site possuir um botão denominado “enviar”, por exemplo, como o usuário saberá o que está enviando? Pessoas com deficiência visual abandonam dois terços de suas compras online devido a problemas de acessibilidade. Além disso, não se esqueça de verificar o contraste da apresentação do seu site para garantir que todos os textos, imagens e elementos interativos sejam claramente perceptíveis. A W3C disponibiliza as diretrizes que você precisa seguir.

4. Crie conteúdo amigável

O conteúdo acessível utiliza uma linguagem clara e concisa. Evite jargões e frases complexas, soletre todo e qualquer acrônimo em sua primeira referência e escreva em um nível de leitura apropriado para seu público. É importante também que você crie títulos de página e cabeçalhos descritivos para que os usuários possam identificar o conteúdo. E não se esqueça de incluir descrição em texto para mídia, como vídeos ou imagens: usuários com deficiência visual precisam de um texto descritivo para entender imagens funcionais, como diagramas (não apenas botões e ícones). O ideal é que os designers indiquem onde coloca-los e que o redator produza o texto.

Um benefício extra para sites com conteúdo acessível é que eles tendem a aparecer em uma posição superior nos resultados de busca. Linguagem e estrutura claras criam uma experiência melhor para qualquer pessoa que visita um site ou aplicativo – manter-se atento às necessidades de acessibilidade cognitiva e visual beneficia a todos.

5. Desenvolva para todas as pessoas

Desenvolver seu site com uma separação clara entre aparência e funcionalidade resolverá muitos dos problemas de acessibilidade antes que eles surjam. Existem várias maneiras de desenvolvedores contribuírem para a acessibilidade em um projeto – e seguir as especificações de design é fundamental. Se os desenvolvedores não estiverem cientes das questões de acessibilidade abordadas – que devem ser comunicadas pela equipe de design – a experiência digital pode ser prejudicada. Além de atender às especificações de design, é fundamental certificar-se de que não há erros no código. Erros de código resultam em informações ininteligíveis para usuários que estão usando um leitor de tela, por exemplo.

HTML semântico é outro ponto crucial da codificação acessível. Por exemplo, os títulos devem incluir código HTML como H1, H2, etc. Se um usuário estiver utilizando um leitor de tela, o “h1” indica um título, dando a ele um significado semântico. Mas se você incluir o tamanho da fonte e o estilo nos colchetes angulares, o usuário não saberá se está lendo um título.

Você também precisa garantir que os usuários que utilizam leitores de tela possam navegar facilmente e projetar a experiência digital de forma que ela seja compatível com os diferentes dispositivos e tamanhos de tela. Usar um código definido com elementos relacionados (mas que independe da posição ou estrutura) irá evitar que você tenha que corrigir seu produto posteriormente. Você também precisa incluir em todo o espaço digital rótulos claramente definidos, para permitir que os usuários naveguem no site de várias maneiras diferentes (ou seja, com o mouse, teclado ou leitor de tela).

Cada elemento em seu site deve ser codificado para transmitir seu significado e não seu estilo. Além disso, certifique-se de associar um rótulo a todos elementos ou formas presentes em seu site – presuma que qualquer pessoa que o acesse precisará deles. Por fim, se estiver usando qualquer código ou ferramenta de terceiros, você precisa se certificar que eles também estão em conformidade com as diretrizes de acessibilidade de conteúdo da web (WCAG).

6. Teste a acessibilidade

É fundamental testar a acessibilidade do seu site ou aplicativo antes de colocá-lo no ar. Sua empresa deve ter uma lista de verificação padronizada para cada página da web para garantir que todos os elementos atendam aos padrões. O W3C também fornece uma lista de ferramentas de avaliação de acessibilidade, incluindo plug-ins de navegador, aplicativos para celulares e APIs. Por exemplo, Stark é um plug-in que verifica se o contraste está no nível certo. Quem quer que esteja realizando os testes deve ser treinado e estar atualizado quanto aos regulamentos e normas vigentes. Mas se você ainda não possui um profissional ou designer treinado, pode começar a aprender sobre acessibilidade com os recursos e ferramentas gratuitas acima.

Além de certificar-se de que tudo está em conformidade com as diretrizes de acessibilidade (pelo menos em um nível mínimo), atente-se à maneira como um usuário navegará em seu site ou aplicativo. Atender aos requisitos mínimos de acessibilidade é importante, mas, se puder, também inclua usuários com deficiência na fase de testes, pois esta é uma maneira eficaz de identificar quais elementos precisam ser melhorados. Isso pode transformar seu site ou aplicativo com acessibilidade básica em um produto realmente simples e divertido de usar para pessoas com deficiência.

7. Dê espaço para feedback

Para saber sobre a experiência dos usuários com seu aplicativo ou site, inclua um campo específico para que eles deixem comentários sobre acessibilidade. É importante também que você inclua formas de entrar em contato com um representante, como número de telefone, recurso de bate-papo e e-mail. Este campo precisa ser acessível e fácil de usar para todos. Possuir um espaço para feedback não apenas ajuda a melhorar a acessibilidade do seu ambiente digital, mas também pode te ajudar com problemas futuros. Se for possível, além do feedback, também incentive que usuários solicitem assistência para a navegação neste mesmo campo.

8. Repetir o processo

O lançamento não é o fim. A criação de um ambiente digital verdadeiramente acessível é um processo contínuo. Conforme o mundo digital evolui, o mesmo deve ocorrer em seu aplicativo ou site. Além de testar seu produto periodicamente, você precisa estar atento às novas tecnologias. Por exemplo, se a Apple lançar um modelo de iPhone que usa um novo código, seu aplicativo pode não funcionar na nova interface. Por fim, ouça atentamente ao feedback que você recebe. Uma coisa é criar um espaço para isso, mas ouvir de fato o que os usuários que precisam de acessibilidade têm a dizer é uma das maneiras mais eficazes de melhorar seu produto.

ESTEJA ATENTO À ACESSIBILIDADE EM CADA ETAPA DO PROCESSO

É hora de as startups desenvolverem produtos com todos em mente. Embora possa parecer muito complicado criar um produto acessível, não precisa ser. Planeje, dê o melhor de si e certifique-se de revisitar todos os processos enquanto sua equipe continua monitorando e reunindo feedbacks. E lembre-se de que acessibilidade vai muito além de apenas fazer o que é certo. O que pode não parecer grande coisa para você, pode fazer a diferença na experiência de outra pessoa com a sua marca.

SOBRE O AUTOR

Eriks Svarcbergs é diretor de design de acessibilidade na Mobiquity.