POR ELIZABETH SEGRAN

A pandemia criou o cenário ideal para um ano de crescimento vertiginoso na Amazon. O pavor tomou conta dos milhões de clientes reclusos, e produtos essenciais passaram a ser esperados diante da porta de casa. Em 2020, a Amazon gerou uma receita de US$ 386 bilhões, um crescimento de 38% em relação ao ano anterior, o que fez a fortuna de Jeff Bezos engordar em US$ 75 milhões. “Nós fizemos a Amazon”, diz Lauren Bitar, analista de varejo na RetailNext. “Ela não apareceu de repente como a vilã da história. Queríamos conveniência e preços baixos, e a Amazon fez isso acontecer para nós”.

Mas essa conveniência cobra um custo: centenas de milhares de pessoas trabalham nos centros de distribuição do e-commerce — onde o índice de acidentes de trabalho é 80% maior do que o das demais indústrias, assim como o nível de contaminação por Covid-19. Inúmeras pesquisas e relatórios expõem como a Amazon estrangulou a economia operando em condições extenuantes de trabalho, emitindo toneladas de carbono na atmosfera, agravando a desigualdade social e destruindo pequenos negócios

O CUSTO HUMANO POR TRÁS DO TRANSPORTE E DA ENTREGA

A Amazon não é a única varejista que causa enormes prejuízos, mas se destaca por causa da escala. Atualmente, a empresa emprega mais de 1 milhão de trabalhadores, tornando-se a segunda maior empregadora dos EUA. Em 2005, a Amazon lançou o perfil Prime, oferecendo aos assinantes entregas gratuitas em dois dias, sendo pioneira de um novo padrão de entrega rápida no setor de varejo, que foi copiada em concorrentes como Target e Walmart. Hoje, a Amazon tem 153 milhões de membros Prime que pagam anualmente US $ 119 e gastam em média US$ 1.400 por ano no site.

A entrega rápida em dois dias sustentou o crescimento da Amazon por meio do ritmo de trabalho alucinante dos estoquistas e motoristas de caminhões — indispensáveis para que os produtos sejam entregues a tempo. Sheheryar Kaoosji, diretor da Warehouse Worker Resource Center em Los Angeles, trabalha próximo aos funcionários da Amazon e admite que há “um custo humano em especial” para que o transporte seja tão rápido. “Não existe mágica. As coisas chegam rápido porque os trabalhadores correm, os motoristas avançam os sinais vermelhos apenas para poder cumprir suas cotas”, alega. 

A maioria dos funcionários da Amazon nos EUA, cerca de 850 mil pessoas, são motoristas ou estão localizados em um dos 110 centros de distribuição. A empresa mitigou a formação de sindicatos entre os trabalhadores e implantou um sistema de monitoração da produtividade, criando o que alguns chamariam de regime exploratório moderno. Já foram relatados casos de entregadores que urinavam em garrafas pet para dar conta de 36 entregas em uma hora, e evitar que o algoritmo da Amazon os demitisse automaticamente por não completar a rota. 

“Nossos funcionários têm a opção de filiar-se ou não a um sindicato. Como empresa, não acreditamos que os sindicatos sejam a melhor resposta para nossos funcionários ”, afirma Barbara Agrait, gerente sênior de RP da Amazon. “Os benefícios das relações diretas entre gerentes e funcionários não podem ser exagerados”.

Um estudo descobriu que 5,9 em cada 100 pessoas que trabalham nos depósitos da Amazon sofrem ferimentos graves. Agrait alega que a empresa está tentando reduzir esse índice de lesões. “Embora nossas taxas não estejam onde queremos, estamos investindo em segurança e somos encorajados pelo fato de que nossas taxas estão tendendo a cair, mesmo com o vento contrário de nosso rápido crescimento”, diz. “Agora temos uma equipe de quase 8 mil profissionais de segurança dedicados [e estamos investindo em] treinamento, ferramentas, tecnologia e novos processos”.

O ritmo extenuante leva muitos trabalhadores ao burnout. Uma investigação recente do New York Times descobriu que a Amazon perde 3% de seus funcionários horistas todas as semanas, o que condiz a uma taxa de rotatividade anual de 150%; essencialmente, a empresa tem que substituir o equivalente a toda a sua força de trabalho a cada oito meses. Alguns relatórios sugerem que isso é intencional, pois a Amazon não quer que os trabalhadores horistas fiquem na empresa por muito tempo.

A Amazon argumenta que parte dessa rotatividade é voluntária. “É importante lembrar que muitas pessoas podem optar por trabalhar conosco apenas por alguns meses para ter uma renda extra quando precisarem”, declara Agrait. “Descobrimos que uma grande porcentagem das pessoas que contratamos são recontratadas, mostrando que escolherão trabalhar conosco quando quiserem e depois voltarão quando for conveniente para elas.”

Durante a pandemia, quando as vendas da Amazon explodiram, a empresa entrou em uma onda de contratações, adicionando 350 mil novos trabalhadores que poderiam ganhar pelo menos US$ 15 por hora e benefícios. Mas muitos estavam colocando suas vidas em risco. Entre março e setembro de 2020, a Amazon admite que cerca de 20 mil trabalhadores testaram positivo para COVID-19; mas não confirmou quantos de seus trabalhadores morreram da doença. Os funcionários, por sua vez, dizem que a empresa está “tentando sistematicamente manter sua força de trabalho desinformada” sobre infecções e surtos em seus depósitos.

No final das contas, no entanto, muitos trabalhadores simplesmente pediram demissão e a Amazon os substituiu rapidamente. Em maio de 2021, com a pandemia ainda forte, a Amazon optou por eliminar algumas políticas como aumento no adicional de periculosidade e o dobro das horas extras. Também parou de permitir que os trabalhadores tirassem férias ilimitadas caso se sentissem mal ou inseguros no trabalho. “Os trabalhadores que saíram foram substituídos por outra camada de trabalhadores que estavam desesperados o suficiente para querer esses empregos, não importando as condições”, atesta Kaoosji.

O IMPACTO NO COMÉRCIO LOCAL E NAS PMES

Nos últimos 18 meses, várias lojas fecharam porque seus proprietários simplesmente não podiam pagar o aluguel. Nas últimas duas décadas, eles perderam clientes para os preços baixos e remessa rápida da Amazon — e muitos encerraram os negócios.

Uma pesquisa de 2019 descobriu que três quartos dos varejistas independentes identificaram a Amazon como uma grande ameaça à sua sobrevivência.Alec MacGillis, jornalista da ProPublica e autor de Fulfillment: Winning and Losing in One-Click America (“Completude: ganhar e perder na América com um click”, em tradução livre) viajou pelo país e observou como as ruas centrais, antes prósperos centros comerciais se esvaziaram. Essa tendência começou com a expansão de grandes lojas como o Walmart, mas a Amazon a acelerou. Tem sido particularmente devastador para as pessoas em áreas de baixa renda, onde muitas precisam viajar quilômetros para comprar alimentos e itens essenciais.

Mas MacGillis argumenta que a Amazon prejudicou mais do que o cenário de varejo: aprofundou o abismo entre ricos e pobres. Por meio de suas reportagens, ele conheceu trabalhadores em bairros pobres que acordam de madrugada para trabalhar em turnos de 12 horas em galpões de estoque da Amazon para embalar produtos para seus vizinhos mais ricos. Em escala nacional, a Amazon depende das classes mais baixas do país para fazer o trabalho que gera lucros maciços, canalizados para as partes mais ricas do país como Seattle, Boston e Washington, DC, onde trabalhadores qualificados em tecnologia têm uma boa vida. Isso faz com que o aluguel aumente nessas cidades, tornando mais difícil para as pequenas empresas manterem-se abertas.

O poder de mercado da Amazon agora se espalha por vários setores. Bezos usou o sucesso das operações de e-commerce da Amazon para lançar um serviço de streaming; Amazon Prime Video; e uma rede de computação em nuvem, Amazon Web Services, e também adquiriu a Whole Foods em 2017. Em contrapartida, a Big Tech aparentemente não paga imposto de renda federal há vários anos

MacGillis aponta que simplesmente se abster de fazer compras na Amazon — mesmo sem boicotar todo o ecossistema de serviços — ainda pode ter um impacto positivo. “Evitar a Amazon.com o máximo possível é uma boa coisa a se fazer, não apenas por alguma razão política, mas de uma maneira muito específica”, avalia ele. “Você está fazendo sua parte para promover um cenário de varejo mais saudável e diversificado, incluindo as empresas locais em sua própria comunidade. Há um valor real em fechar o aplicativo e realmente se envolver com o mundo ao seu redor”.

Quando questionada sobre o custo para as pequenas empresas, Agrait disse que elas conseguiram recorrer à Amazon para vender produtos online. “As pequenas e médias empresas vendem mais da metade de todos os produtos adquiridos na Amazon e criaram milhões de empregos em suas comunidades”, diz ela. “Nosso sucesso depende do sucesso de nossos parceiros de vendas para pequenas empresas, e investimos bilhões para apoiá-los e ajudá-los a se conectar com os clientes.”

Ainda assim, a Amazon distanciou consumidores e trabalhadores da linha de frente, tornando-nos menos sintonizados com as lutas das pessoas que tornam possível a conveniência a qual nos acostumamos. Mas não estamos presos a essa realidade. À medida que a pandemia recua, McGillis argumenta que podemos escolher colocar dinheiro de volta nas comunidades locais apoiando as pequenas empresas em nossos bairros. “Claro, estamos todos sujeitos a essas forças maiores da tecnologia e da globalização”, ratifica ele. “Mas também temos arbítrio pessoal. O sucesso da Amazon é resultado das decisões que tomamos coletivamente como consumidores para abraçar esta forma de consumo, esta forma de vida ”.

Mas afinal, como um único membro Prime escolhendo desertar, entre 153 milhões, pode ter algum efeito no sistema? Tanto MacGillis quanto Kaoosji acreditam que investir em outro lugar vale a pena. Pode-se apoiar muitas empresas que estão tentando competir com a Amazon e também nos leva a quebrar o hábito de consumo irracional que a empresa tentou cultivar.

E, em última análise, se nós, os consumidores, criamos a Amazon, também podemos desfazê-la. “Se você olhar para sua história, a Amazon respondeu à pressão pública em torno de seus objetivos climáticos, vendendo tecnologia de reconhecimento facial e aumentando seus salários para US $ 15 por hora”, Kaoosji completa. “Os sinais que eles recebem não vêm apenas de seus lucros. Eles vêm da organização, do engajamento público e de como as pessoas estão falando sobre a empresa. Então saia da Amazon, mas diga à ela — e a todos os outros — por que você está escolhendo fazer isso. ”

SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, é repórter sênior da Fast Company. Ela vive em Cambridge, Massachusetts.