A Fox News tem um grande problema em suas mãos.

Mesmo que a emissora de notícias tenha tido um recorde de audiência em novembro do ano passado graças à eleição presidencial, seu domínio está sendo testado pela Newsmax, competidora destemida que teve menos reservas na hora de questionar a vitória de Joe Biden. A postura rendeu ao canal elogios da parte de Donald Trump, rumores sobre uma aquisição ou investimento por aliados do republicano e uma enxurrada de notícias examinando a ascensão da Newsmax entre os canais de notícias de TV.

A maioria das publicações sinaliza que a Newsmax ainda está muito atrás da audiência da Fox News. No entanto, o canal não precisa de uma audiência maior na TV a cabo para destronar a rival. A ascensão da audiência da Fox News ocorreu dentro do espaço confinado da TV paga, a Newsmax tem milhões de pessoas assistindo suas transmissões ao vivo no online, ou seja, não exigem um pacote de TV por assinatura.

O CEO Chris Ruddy diz que quando se leva em conta a audiência do streaming da Newsmax, a corrida entre as duas emissoras conservadoras é bem acirrada.

“Por que assinar a Fox quando você pode ter a Newsmax de graça? Agora temos algo similar à Fox – talvez sejamos até melhores que eles  em alguns aspectos – e os espectadores não precisam pagar US$ 1.500 por ano pela porcaria do cabo”, afirma Ruddy.

ALTERNATIVA GRATUITA À FOX NEWS

Mesmo que a Fox News não exija mais assinatura de TV a cabo ou satélite, ainda requer algum tipo de pacote, mesmo que transmitida via internet. A forma mais barata de ter o canal é pela Sling TV, que possui um pacote azul a US$ 30 mensais e inclui dezenas de outros canais. Alguns pacotes de streaming que incluem a Fox News, tais como a YouTube TV e o Hulu Pus Live TV, custam US$ 65 por mês ou mais.

Em comparação, é quase impossível não ter acesso à transmissão ao vivo da Newsmax: está disponível em um app e faz parte de diversos agregadores de streaming gratuitos, como The Roku Channel, Pluto TV e Xumo. A plataforma também realiza transmissões ao vivo no YouTube, no Twitter, no Facebook e em seus sites próprios. É claro que a Fox News também tem presença nas redes sociais – 6,63 milhões de inscritos no YouTube ante 1,66 milhões da Newsmax – mas exibem apenas clipes curtos, não as transmissões completas da TV.

“A Newsmax está no universo da TV a cabo, mas também estamos transmitindo gratuitamente em todos os dispositivos OTT e plataformas e estamos vendo ótimos números,” comenta Ruddy.

Dados fornecidos pela Newsmax para a Fast Company mostram que o canal do YouTube teve 6,3 milhões de visualizações não repetidas em novembro e a transmissão ao vivo no NewsmaxTV.com teve um total de 6.63 milhões de espectadores. O canal da Newsmax na PlutoTV teve um total de 3,83 milhões de espectadores não repetidos.

A maioria destes espectadores não aparece no modelo Nielsen de audiência de TV, que mostra que a Fox News chegou a 84.1 milhões de telespectadores em dias de semana contra 24.3 da Newsmax. Isso não quer dizer que você pode apenas somar as audiências da TV a cabo com a do streaming – provavelmente há alguma superimposição entre elas – mas Ruddy acredita que as transmissões ao vivo de seus canais de streaming somem um total de 10 milhões de espectadores não repetidos à sua audiência total.

De fato, mesmo este total revisado posiciona a Newmax com cerca de 50 milhões de espectadores a menos que a Fox News, mas eles também têm mais espaço para crescer. Além de competir por assinantes de TV a cabo, a empresa também pode chegar a 40 milhões de lares que não possuem um pacote de TV por assinatura.

STREAMING EM ALTA

Embora aguente assistir nem a Fox News nem a Newsmax, acho a guerra entre as duas empresas fascinante, sendo alguém que cobre há anos a ascensão das transmissões sem cabo.

Dentro da debandada da TV por assinatura, uma das tendências mais importantes foi o surgimento de um sistema paralelo de TV à la carte, que consiste em serviços existentes fora de um pacote de TV paga. A Netflix, é claro, é o exemplo mais notável, mas serviços como a Newsmax também são parte deste sistema. Em todos os casos, o objetivo não é duplicar o que está disponível na TV a cabo, mas trazer alternativas suficientemente boas por uma fração do preço.

Para aqueles que não conseguem imaginar a vida sem os canais a cabo, pode ser difícil entender como as pessoas escolhem sair deste sistema, mas a tendência é clara: há cinco anos, cerca de 100 milhões de lares possuíam uma assinatura de TV, mas esse número caiu para 82,6 milhões desde então, de acordo com o Leichtman Research Group. E a indústria televisiva está se preparando para uma queda de 50 milhões de assinantes nos próximos cinco anos.

É por isso que tantos gigantes de mídia começaram a buscar alternativas com serviços como o Disney Plus, HBO Max e Peacock. Nenhuma destas empresas quer arriscar seu futuro em um modelo de negócios que está ruindo.

Nenhuma estratégia deste tipo partiu da Fox News até agora. Ainda que a empresa tenha um serviço próprio de streaming na Fox Nation, o serviço de US$ 6 por mês não possui os programas mais populares do canal. Conforme relatório da Bloomberg, a Parks Associates estima que o serviço de streaming tenha entre 200 e 300 mil assinantes.

Isso cria uma brecha para a Newsmax, cujos contratos com distribuidores de TV permitem que ela ofereça transmissões ao vivo via streaming mesmo para os não-assinantes. Como estes acordos funcionam não está claro, já que Ruddy não tem os detalhes das negociações com os distribuidores, mas ele diz que não é incomum que canais de notícias a cabo transmitam sua programação simultaneamente por streaming “no período inicial” (Ben Smith do The New York Times também relatou que novos canais geralmente pagam os distribuidores pela transmissão, mas não está claro se isso está acontecendo com a Newsmax).

Ruddy diz que os planos de streaming da Newsmax podem mudar no futuro – ele deixa no ar a ideia de ter um canal para assinantes e outro para espectadores do streaming gratuito – mas explica que a empresa ainda não decidiu um caminho. Por hora, gosta da ideia de usar o cabo para atingir uma massa de espectadores enquanto cria um público para o streaming.

“Você tem todo o ecossistema da TV a cabo e todo o ecossistema do OTT. Por que rejeitar isso, se existe essa possibilidade?”, questiona.

QUANDO O EXTREMISMO GANHA

Se a Newsmax crescer o suficiente, também poderá seguir outra grande tendência da era sem cabo: cada vez mais a TV a cabo perde os melhores conteúdos para os serviços de streaming. Hoje em dia, se quiser assistir aos programas mais populares ou aclamados pela crítica, provavelmente os encontrará na Netflix, na Disney Plus ou na HBO Max. Não é difícil imaginar um futuro em que a Newsmax comece a atrair os talentos da Fox News, iniciando um ciclo vicioso.

“SE VOCÊ INVESTE EM AÇÕES DA FOX, COMECE A VENDÊ-LAS”

“Se você investe nas ações da Fox, eu começaria a vendê-las, porque o OTT vai começar a machucá-las e será um grande desafio para eles manterem lucratividade e audiência”, avalia Ruddy.

Essa afirmação tem base na aposta de que a Newsmax não é um brilho momentâneo ligado à histeria da direita sobre a fraude eleitoral. Ainda assim, Ruddy diz que a audiência do canal já vinha subindo mensalmente durante o último ano e meio e rejeita a ideia de que o canal precisa se tornar mais extremista para segurar seus espectadores. Ele insiste que a emissora é um canal de notícias de “centro-direita”, mesmo que tenha sido o mais consistente apoiador de Trump.

“Aceitamos Joe Biden e o respeitaremos como presidente”, assegura Ruddy.

Eu, porém, tenho dúvidas. Outra grande tendência nos vídeos por streaming – e conteúdos online em geral – é a de que é difícil se sobressair quando há tanto a ser consumido. As vozes extremas são as que tendem a ser notadas, vide a amplificação das alegações de roubo nas eleições feitas pelo apresentador da Newsmax, Greg Kelly, que o tornaram uma estrela conservadora em ascensão.

Em outras palavras, ver a Fox News suar diante do crescimento da Newsmax me traz grande satisfação, sendo alguém que sempre torceu pelo colapso dos pacotes de TV por assinatura. Mas tenho medo do que pode surgir dos destroços.

SOBRE O AUTOR

De Cincinnati, Jared Newman cobre apps e tecnologia. Também escreve duas newsletters, Cord Cutter Weekly e Advisorator.