Tim Berners-Lee está construindo a terceira camada da internet. Não é a web3

O criador da World Wide Web fala sobre o Solid, projeto para oferecer um lugar privado onde armazenar e compartilhar nossos dados online

Crédito: Sam Barnes/ Web Summit via Sportsfile/ Flcikr

Harry McCracken 4 minutos de leitura

“A web3 não é, de forma alguma, a web.”

Durante a edição deste ano da conferência de tecnologia Web Summit, em Lisboa, no início de novembro, um palestrante convidado criticou veementemente a web3 – conceito bastante popular atualmente, que abrange um conjunto de tecnologias que visam proporcionar à internet uma infraestrutura descentralizada baseada em blockchain para gerenciar a propriedade de dados online.

Dado que esse crítico é ninguém menos do que Tim Berners-Lee, o homem que inventou a World Wide Web há mais de 30 anos, sua opinião é, definitivamente, digna de atenção e repercussão.

Mas Berners-Lee não subiu ao palco do Web Summit apenas para criticar a web3. Ele estava lá para falar sobre o Solid, sua aposta de código aberto para reinventar a web por meio de novas ferramentas descentralizadas e voltadas para a privacidade dos dados.

Concebido como um projeto de pesquisa do MIT, o Solid também o levou a cofundar uma startup, a Inrupt, para comercializar a tecnologia.

Com o Pod você pode conceder a qualquer site acesso às suas informações armazenadas e revogá-lo quando desejar.

Autoproclamado “nerd de dados”, Berners-Lee há muito tempo sente prazer em inventar novas maneiras de obter mais das informações que tem ao seu alcance. Por exemplo, antes de as fotos digitais incluírem automaticamente os dados de GPS, ele criou seu próprio software para produzir um mapa com as fotos tiradas em sua viagem para uma estação de esqui.

Como desejava fazer coisas mais úteis com seus próprios dados, pensou: “preciso de ainda mais poder nesta área, mas quero que todos também tenham”, diz ele. Isso resultou no projeto Solid.

A ideia central é que, em vez de seus dados pessoais serem espalhados por toda a web e armazenados por terceiros, todos deveriam estar em um único lugar e sob seu controle.

Esse lugar é chamado de Pod, uma abreviação de “personal online data store” (ou armazenamento pessoal de dados online). Com ele, você pode conceder a qualquer site acesso às informações armazenadas e revogá-lo quando quiser.

O Solid também oferece um recurso de login único, que permite fazer login em qualquer site que suporte a tecnologia – conceito semelhante às ferramentas de login universais oferecidas por Meta, Google ou Apple, com a diferença de não prender o usuário ao ecossistema de uma gigante da tecnologia.

TÃO GRANDE QUANTO A PRÓPRIA WEB

Berners-Lee compara o Pod a um quadro em branco. “À medida que sua vida digital avança – sua identidade online ou estado online –, os aplicativos escrevem coisas no Pod e ele fica cada vez mais interessante, cada vez mais rico”, explica. O Pod permanece privado, o que o torna fundamentalmente diferente da web3 e do uso da tecnologia blockchain pública.

O sistema ficaria ainda melhor se outras plataformas como Netflix e Spotify conectassem seus algoritmos ao Solid.

Como o sistema é capaz de armazenar dados de todos os tipos, suas aplicações potenciais são tão extensas quanto a própria web. Na Bélgica, por exemplo, o governo de Flandres se comprometeu a usar Pods como base de toda a economia digital da região.

Em outubro, a BBC começou a utilizar a tecnologia em seu recurso “watch party”. Isso permite que os espectadores deem à emissora acesso a mais dados sobre si mesmos além do que ela já conhece sobre seus hábitos de streaming, o que torna as recomendações de conteúdo mais relevantes.

Como a própria BBC apontou, essas sugestões poderiam ficar ainda melhores se outras plataformas de streaming, como Netflix e Spotify, também conectassem seus algoritmos ao Solid para permitir que os usuários tenham registros de suas próprias preferências armazenadas em várias plataformas de mídia.

JÁ TENHO NO MEU POD”

Para Berners-Lee, o Solid é “a terceira camada da web” – o sucessor das páginas estáticas da década de 1990 e das experiências mais interativas e dos aplicativos que se seguiram. “Ele tem um pouco mais de tecnologia, um pouco mais de padrões. É uma revolução na maneira como realmente usamos a internet.”

Quando perguntei se a adoção do Solid poderia ser semelhante ao que vimos com a World Wide Web na década de 1990 – um progresso silencioso por alguns anos e então repentina onipresença – ele gentilmente respondeu que o sucesso da web não foi tão repentino assim.

Provavelmente, as empresas que coletam nossos dados para fins próprios farão o possível para ignorar o Pod.

Tudo começou com um servidor que recebia 10 acessos por dia, então demorou um pouco para os números crescerem e se tornarem realmente gigantescos. Mesmo no início, “retrospectivamente, houve definitivamente um crescimento exponencial”, diz ele.

Conversando com Berners-Lee, é fácil se deixar levar por seu entusiasmo pelo projeto – em parte, por causa de sua credibilidade como criador da web, mas também porque realmente parece uma boa ideia.

Isso não significa que as milhares de empresas que coletam nossos dados para fins próprios adotarão o Solid de bom grado. Provavelmente, elas farão o possível para ignorá-lo. Mas, se a tecnologia ganhar força entre os usuários, recusar-se a adotá-la pode se tornar algo tão irracional quanto decidir não fazer negócios na internet. 

Ou, pelo menos, isso é o que Berners-Lee prevê. “Chegará ao ponto em que as pessoas dirão: ‘desculpe, eu já tenho isso no meu Pod’”, diz ele. “‘Não tem como dizer de outra forma: a vida é muito curta.'”


SOBRE O AUTOR

Harry McCracken é editor de tecnologia da Fast Company baseado em San Francisco. Em vidas passadas, foi editor da Time, fundador e edi... saiba mais