Em fevereiro, os amantes do design costumam ir a Palm Springs para a Modernism Week, celebração anual de arte e arquitetura que acontece desde meados do século passado. Aliás, lá as pessoas parecem ter saído do final dos anos 1960. Na última edição, antes da pandemia, era comum ver mulheres com vestidinhos estampados de rosa e amarelo, outras vestindo batas em formato de caleidoscópios marrons e laranjas e homens com ternos xadrez – como se tivessem acabado de sair de um episódio de Mad Men.

A Modernism Week deste ano está marcada para abril. E a grande aposta é a de que, se o evento realmente acontecer presencialmente, muitos estarão vestindo roupas criadas por Trina Turk.

A estilista nipo-americana passou o último quarto de século definindo o estilo de Palm Springs. Sua boutique é um verdadeiro distrito cultural da cidade, o que a tornou uma das vozes de mais destaque da moda americana – fundamentada em padrões ousados e maximalistas que refletem momentos de revolução e contracultura que marcaram a história da nação.

A capa do livro de Trina

Em um novo livro, Turk relembra os 25 anos desde que lançou sua marca homônima. A obra em si é encadernada com o tecido de uma das estampas da estilista, inspiradas nos anos 1960. Na obra ela conta que, a cada temporada, cria de 40 a 50 estampas inspiradas em roupas que encontrou quando vasculhava os mercados de pulgas nos EUA. Estilos sobrecarregados contrastam com roupas monocromáticas, calças skinny pretas e frentes únicas brancas, todas inspiradas em silhuetas de décadas passadas. “Sou conhecida pelas minhas estampas, mas cada coleção também tem peças mais simples, onde me concentro muito mais no drapeado do tecido e na forma como ele cai no corpo”, afirma Turk.

Um dos looks da estilista

O mais impressionante quando ao folhear as páginas do livro é perceber a consistência da estética de Turk. Mesmo com o vaivém de tendências ao longo das décadas, ela mantém uma integridade autoral pouco vista. Ao longo de sua carreira, conseguiu definir uma linha autêntica de estilo americano, diferente da estética preppy popularizada por Ralph Lauren, Tommy Hilfiger ou Brooks Brothers – e muito diferente do visual ocidental definido pelos jeans e camisas de flanela da Levi’s. Em vez disso, as roupas de Turk evocam mods e hippies que imediatamente nos transportam para uma piscina na Califórnia ou uma praia na Flórida.

A última coleção, 2019

No livro, a designer lista os vários ícones de estilo que a inspiram. Muitos são mulheres fortes, como Anni Albers, Mary Tyler Moore, Gloria Steinem e Jacqueline Kennedy Onassis, que se valeram de suas sensibilidades em relação a moda para resistir às normas culturais de seus tempos. Turk incorpora sua estética às delas, criando roupas que celebram as mulheres que ousam viver com audácia.

Vitrine da loja em Palm Springs

Turk começou a carreira explorando looks vintage e padrões coloridos em brechós. Lançou sua empresa em 1995, aos 34 anos, para criar versões dessas peças com modificações sutis que as tornavam modernas. Quando lançou sua primeira coleção, lojas de departamentos como Saks, Barneys e Fred Segal fizeram pedidos. Ao longo dos anos, colaborou com Macy’s e Banana Republic e lançou uma linha de roupas masculinas chamada Mr. Turk. Nos anos 2000, abriu seis lojas nos Estados Unidos e lançou um e-commerce próprio. Mas ao contrário de outros estilistas americanos que se tornaram conhecidos, como Diane von Furstenberg e Ralph Lauren, ela optou por manter seu negócio relativamente pequeno. Em vez de expandir para uma ampla gama de categorias e linhas, manteve-se focada nas roupas que adora desenhar e nos clientes que adotam seu estilo. Embora ocasionalmente participe da Semana de Moda de New York, Turk não é presença constante nos desfiles.

A casa de Trina Turk

Em vez disso, se contentou com a comunidade de Palm Springs. Adorava vasculhar os brechós da cidade, descobrindo roupas quando as estrelas de Hollywood passavam férias lá, nos anos 1980. “Naquela época, o contrato das estrelas estipulava que elas deveriam ficar em uma área a, no máximo, duas horas de carro do set de filmagem, e Palm Springs ficava a exatamente duas horas de distância”, conta. Em 1998, ela e seu falecido marido, Jonathan Skow, compraram uma casa de 1936 inspirada em um navio em Palm Springs. Em 2002, abriu sua primeira loja lá. Não percebeu , mas estava ajudando a dar o pontapé inicial na revitalização da região, transformando a cidade em um centro cultural da Califórnia.

Uma sala íntima na residência de Trina

Turk fechou suas lojas durante o confinamento e, como muitos outros negócios da moda, suas vendas despencaram. Para sobreviver, revela que teve de despedir funcionários e distribuir o estoque destinado a uma única temporada para várias temporadas. Os meses têm sido difíceis, mas a estilista é dona de uma personalidade equilibrada e está enfrentando a crise com calma. “Sobrevivemos ao 11 de setembro e à Grande Recessão. Somos uma empresa relativamente pequena, então fomos abalados pela pandemia, mas vamos sobreviver a isso”.

De muitas maneiras, a perspectiva de Turk está presente em suas estampas e padrões que tanto ama. “Sempre fui atraída por estampas vintage intensas porque representam otimismo. Celebram o controle sobre nossa própria felicidade. O que significa que podemos responder ao mundo ao nosso redor com alegria”.