POR ALEJANDRA ALBARRAN

Depois de um ano e meio trabalhando em casa, todos nós nos acostumamos a espaços de trabalho personalizados e com a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar. Se, por um lado, muitos de nós estão ansiosos para voltar para um ambiente profissional — longe de filhos, parceiros e outras distrações cotidianas –, por outro poder escolher de onde trabalhar tornou-se essencial. Em pesquisas feitas durante o verão/outono de 2020, a Gensler descobriu que pouco mais da metade dos trabalhadores dos EUA e dois terços dos trabalhadores do Reino Unido preferem um modelo híbrido de trabalho. Os entrevistados explicam que gostam de trabalhar em escritórios por conta da produtividade, mas preferem trabalhar de casa por conveniência e segurança— e não estão dispostos a abrir mão dos benefícios de ambos.

Essa recusa generalizada de retornar aos padrões pré-pandêmicos de escritório pode ser fortemente atribuída às falhas no conceito de open offices (ou “escritórios abertos”). Eles foram projetados para estimular a colaboração e socialização entre os departamentos da empresa, mas desconsideram a variedade de ambientes necessários para um local de trabalho confortável e produtivo. Em 2019, a Harvard Business Review analisou as interações ao vivo e virtuais na sede de duas empresas da Fortune 500 e descobriu que as interações ao vivo, na verdade, caíram cerca de 70% após a implementação de open offices, enquanto as interações online aumentaram. O resultado: uma força de trabalho infeliz, aumento da dispensa por doença e uma falta generalizada de produtividade.

Para agravar a questão, o custo da construção de um imóvel é alto, algo que se tornou um obstáculo para a criação de espaços adaptáveis e flexíveis de que as empresas precisam para crescer. Diante disso, elas estão em busca de um novo conceito de local de trabalho que se encaixe no modelo de trabalho híbrido – permitindo que os funcionários optem por um espaço dinâmico com vantagens, amenidades e áreas de trabalho e a socialização que não costumam ser encontrados em casa ou no escritório tradicional. Este novo conceito atende à necessidade individual de trabalhar em um espaço que estimule cada um a dar o seu melhor.

O tipo mais conhecido deste modelo é o espaço de coworking. No entanto, ao invés de simplesmente oferecer um local de trabalho com áreas amplas, como ofereciam os primeiros espaços do modelo, hoje há uma necessidade de abranger ambientes variados que estimulem diferentes níveis de produtividade e que incluam áreas para descanso.

A NeueHouse, em Manhattan, lançou recentemente o The Gallery, um clube comunitário que oferece espaços de trabalho lindos, como já oferecia antes, mas que agora incluem restaurante e bar, abertos durante todo o dia para os visitantes; além de instalações de arte, que dão destaque a talentos de diversas galerias e fundações; e uma loja de produtos voltados para os empresários de hoje. A Department Store Studios, em Londres, oferece uma mistura de espaços de trabalho, como: estúdios individuais para artistas e designers, terraço, sala de projeção, garagem de bicicletas, armários, chuveiros e vestiários.

Este novo modelo atende aos muitos trabalhadores que procuram pelo ambiente ideal. No entanto, vários detalhes estão abertos a interpretação. Independentemente da metragem ou das políticas de trabalho remoto, o “escritório do amanhã” terá de considerar os diferentes tipos de empresa que necessitarão deste serviço. O que mais chama atenção nesse modelo é sua estrutura dinâmica e seus vários ambientes de trabalho em um só lugar — que podem ser facilmente replicados dentro do próprio escritório.

Depois de anos projetando inúmeros escritórios para clientes em todo o mundo, com a ajuda de arquitetos, engenheiros e designers de produto, descobrimos um modelo específico de planejamento para criar um local de trabalho verdadeiramente dinâmico. Ele contém seis categorias principais de tipos de ambientes, que são propositalmente desenvolvidos para diferentes atividades: comunidade, colaboração, encontro, equipe, trabalho individual e bem-estar. Apesar de as proporções deverem ser ajustadas com base no tipo de empresa e necessidades operacionais, a estruturação do ecossistema de escritório ideal se dá da seguinte forma:

  • Espaços comunitários devem ocupar 25% do espaço total. Esses são ambientes de troca – como lobbies, cafeterias e lanchonetes -, que servem como pontos para estabelecer conexões e oferecem espaço para trabalhos informais, portanto, podem ter uma variedade de assentos para diferentes níveis de conforto;
  • O espaço “casa” também ocupa 25% da área total. Esse espaço transmite aos funcionários uma sensação de pertencimento e conforto para estabelecer relações e encontrar colegas. Embora possua espaços para trabalho e estejam equipados com tudo o que os profissionais específicos precisam, ele também abriga um número maior de opções de assentos informais, bem como armários individuais;
  • Espaços de reunião ocupam 20% da totalidade. Com salas de conferências de tamanhos variados, eles estimulam a produtividade e também possuem espaços específicos para apresentações e videoconferências, com um alto grau de formalidade e privacidade.
  • Espaços colaborativos devem ocupar 10%. Podem ser pequenos espaços, áreas criativas ou lugares abertos para um trabalho ágil e interações com equipes antes ou depois de reuniões – oferecendo assentos com encosto alto ou cabines com privacidade.
  • Espaços individuais devem ser distribuídos e ocupar 10% do escritório. Eles são um ambiente para concentração e, portanto, idealmente, devem ser à prova de som, para que os funcionários desenvolvam seu trabalho de forma produtiva e possam realizar ligações ou videoconferências. Em um ecossistema equilibrado, deve haver um espaço privado para cada oito funcionários. Podem ser cabines de criação, cabines telefônicas ou hotdesks, contanto que estejam separados dos ambientes compartilhados.
  • Espaços de bem-estar devem ocupar 5% do espaço total, mas são particularmente importantes, pois devem ser projetados de forma que tenham um impacto positivo no bem-estar físico e mental das pessoas. Para isso, é importante que este ambiente atente ao clima interno e à experiência, como acústica, acesso à luz do dia, qualidade do ar e conforto térmico. Exemplos desses espaços variam de uma área para relaxar e “recarregar as baterias” com assentos confortáveis, luz quente, plantas e estantes de livros até salas para meditação.
  • Espaços de apoio, como banheiros, salas de impressão e corredores, ficam com os 5% restantes.

Em última análise, esse novo modelo tira proveito das características de todos os diferentes tipos de espaços que comprovadamente funcionam para as pessoas. As áreas comuns podem, por exemplo, se parecer com nossa cafeteria favorita – com música ambiente, cheiro de café fresco e o burburinho das pessoas entrando e saindo. As áreas para trabalho focado podem potencialmente se utilizar das características de uma biblioteca, com assentos confortáveis, ótima iluminação e poucas distrações. Um saguão pode se tornar muito mais do que apenas uma área para passagem – pode se parecer com um saguão de hotel ou um espaço de coworking, oferecendo uma variedade de opções de assentos. Ao juntar vários tipos de ambientes em um só espaço de trabalho, devolvemos a escolha às pessoas – atendendo às necessidades, estilo de trabalho e personalidade de cada indivíduo.

No fim das contas, um escritório deve ser projetado para inspirar e, sobretudo, ser um espaço convidativo que estimula grandes projetos, mas também um espaço de troca, criatividade e energia. Isso tudo pode ser alcançado simplesmente repensando o modelo atual de trabalho, para que seja mais ágil e dinâmico, de forma que os escritórios evoluam com seus funcionários.

SOBRE A AUTORA

Alejandra Albarran é vice-presidente de design de locais de trabalho da ROOM.