POR TOM STACEY E YING XIE

Os carros elétricos poderão ajudar milhões de famílias nos próximos anos, se elas simplesmente aproveitarem a energia de suas baterias. A eletricidade da bateria desse tipo de veículo pode ser conectada de volta à rede, em vez de ficar guardada. A técnica foi pioneira no Japão, e agora uma pesquisa vai ajudar a entender a melhor forma de aplicá-la no Reino Unido.

Muitos veículos elétricos estão sendo produzidos com a possibilidade de que suas baterias de bordo sejam usadas para enviar energia de volta às redes elétricas onde forem conectadas. Quer a conexão seja feita na casa do proprietário ou na rede elétrica da rua, essas tecnologias são incentivadas por governos e fabricantes de carros elétricos principalmente para equilibrar a demanda na rede de transmissão de energia.

A capacidade de conectar enormes baterias à rede está em conformidade com o futuro gerenciamento e fornecimento de redes mais limpas. Em vez de queimar combustíveis fósseis para gerar eletricidade, é hora de aproveitar fontes renováveis ​​limpas, como a eólica e a solar quando forem abundantes, e, quando não forem, armazenar a eletricidade em baterias. Portanto, ao carregar veículos elétricos a partir de fontes renováveis, podemos reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa.

O plano seria complicado de executar se não fossem baterias de carros elétricos, uma vez que eletricidade é difícil de armazenar. Como grandes quantidades dela são sistematicamente armazenadas em nossos carros, fica mais fácil. Como cerca de 1% das 27 milhões de residências do Reino Unido atualmente possuem um veículo elétrico, cada um com uma bateria média de 60 kWh, esses 300 mil veículos podem armazenar incríveis 18 GWh, que poderiam ser usados ​​de forma útil em usinas de força. Isso é mais do que a quantidade transmitida pela Dinorwig em Snowdonia, a maior unidade de armazenamento do Reino Unido, que armazena cerca de 9 GWh.

Em 2030, o Reino Unido poderá ter quase 11 milhões de veículos elétricos nas estradas. Presumindo que 50% desses veículos sejam capazes de alimentar a energia não utilizada de volta à rede, isso abriria oportunidades para abastecer 5,5 milhões de residências.

COMO FAZER ISSO ACONTECER?

Do ponto de vista técnico, para que os carros alimentem a rede de energia, três coisas precisam acontecer. Primeiro, deve ser possível a transferência bidirecional de energia do carro para seu ponto de carregamento. Esse sistema é conhecido como “veículo para a rede” (em tradução livre de vehicle-to-grid, V2G) e foi introduzido pela primeira vez no Japão após o desastre de Fukushima e sua subsequente queda de energia.

Mas há mais desenvolvimentos necessários antes de implantar essa tecnologia, incluindo a instalação de hardwares de carregamento de veículo para redes domésticas, a compatibilização de veículos e mudanças no mercado de energia. Existem também dois tipos concorrentes de equipamento de carregamento rápido, que precisam ser interoperáveis, talvez com unidades que tenham os dois tipos de conectores.

A terceira parte do quebra-cabeça técnico é garantir o suporte das redes de distribuição de energia. Algumas partes da rede são incapazes de ter uma quantidade significativa de energia sendo transmitida ao mesmo tempo de volta pelas conexões, portanto, as redes locais precisam garantir que conseguem dar conta disso.

MOTORISTAS ENGAJADOS

Uma vez que a tecnologia esteja implantada, como podemos ter certeza de que as pessoas vão aderir a ela? Estamos pesquisando a aceitação e o conhecimento dos consumidores sobre os sistemas “veículo para a rede”, com o objetivo de mostrar aos motoristas como a tecnologia funciona e evitar que as baterias descarreguem quando forem necessárias.

No momento, a maioria dos testes é realizada por empresas de energia ou distribuidoras de energia, que desejam descobrir como a tecnologia funcionaria comercialmente e ajudar a equilibrar a rede elétrica. Mas acreditamos que o foco também deve ser direcionado para motoristas, com benefícios financeiros, eco créditos e conveniências.

Carregar veículos elétricos com a energia mais barata e vender essa energia de volta para a rede no horário de pico pode permitir que os clientes ganhem até 725 libras por ano (cerca de US $ 974). Além da economia de combustível: um veículo elétrico custa em média 500 libras (ou US$ 671) por ano para funcionar, contra 1.435 libras (US$ 1.925,50) por ano para um a gás ou diesel.

Reduzir o impacto no meio ambiente, economizar nos custos de combustível e abastecer sua casa com energia limpa e barata são grandes benefícios. No entanto, caso a bateria dos carros fique fraca com esse uso, muitos proprietários ficarão insatisfeitos.

Outras preocupações incluem: os custos potenciais de instalação de carregadores V2G compatíveis em casa; os impactos no estilo de vida e inconvenientes de retardar o carregamento do veículo elétrico (se o carro estiver fornecendo energia para a casa); e o medo da degradação da bateria (que algumas pesquisas indicam ser justificado, mas compensado pelos benefícios potenciais).

A Ofgem, agência reguladora de eletricidade e gás do Reino Unido, pretende investir milhões de libras na criação de um sistema de energia mais flexível para apoiar a eletrificação de veículos e a geração de energia renovável, e para tornar mais justa e acessível a transição para uma economia de baixo carbono.

Se muitos motoristas aproveitassem a energia de seus veículos para a rede, o Reino Unido poderia ganhar a capacidade de geração de energia de até 10 grandes usinas nucleares, e reinvestir os custos dessa economia no desenvolvimento de energia limpa e sistemas de energia flexíveis.

O processo não será fácil. As soluções são inúmeras, mas precisarão do suporte de empresas de energia e até mesmo de fabricantes de automóveis e investidores. Há muitas partes do quebra-cabeça a serem resolvidas, mas como um carro comum fica 95% do tempo sem uso, as chances de que sua energia possa ser usada como fonte para uma vida mais ecológica e mais barata são enormes.

SOBRE OS AUTORES

Tom Stacey é palestrante sênior em gestão de operações de cadeia de suprimentos na Anglia Ruskin University. Ying Xie é professor de gestão de cadeia de suprimentos na Anglia Ruskin University. Este artigo, sob uma licença Creative Commons, foi republicado do The Conversation.