POR ELISSAVETA M. BRANDON

Os americanos passam muito tempo dentro de casa. E, à medida que o inverno se instala em muitas partes dos EUA, estamos prestes a passar ainda mais tempo aconchegados no sofá e com o termostato ligado. Os sistemas de aquecimento são responsáveis por 43% do consumo de energia nas residências dos EUA. Isso significa que se reajustarmos para alguns graus a menos os nossos termostatos durante o inverno, poderemos ajudar a reduzir nosso impacto ambiental.

(Crédito: cortesia da LifeLabs)

Recentemente foi criada a LifeLabs, empresa de vestuário com o objetivo de maximizar o conforto e, ao mesmo tempo, reduzir o uso pessoal de energia em situações de clima extremo. Dirigido por um ex-executivo da North Face e por dois professores de Stanford, a LifeLabs divide seus produtos em duas coleções. A coleção CoolLife promete diminuir a temperatura do corpo em quase 4 graus Fahrenheit. Já a coleção WarmLife promete aumentá-la em 18 graus, empregando 30% menos material do que outras térmicas no mercado. Por enquanto, as coleções incluem camisetas, jaquetas e pijamas, mas em breve a tecnologia chegará a outras áreas da vida cotidiana, desde cortinas aquecidas até roupas de cama resfriadas.

(Crédito: cortesia da LifeLabs)

A CoolLife e a WarmLife têm objetivos opostos, mas ambas as tecnologias consideram a forma como nossos corpos gerenciam o calor. Por exemplo: em um casaco WarmLife, o lado voltado para a pele é revestido com uma camada de alumínio da espessura de um clipe de papel, e que reflete 100% do calor irradiado pelo corpo de volta para a pele (o tecido é o resultado de um estudo de 2016 publicado na revista Science). Em contrapartida, uma camiseta CoolLife permite que a radiação infravermelha (ou seja, o calor do seu corpo) escape através do tecido, graças ao uso de polietileno reciclado, um tipo de resina sintética também usada em sacolas plásticas de supermercado. Ao contrário da seda, que é fria ao toque, mas acaba captando o calor do corpo, o polietileno mantém continuamente a temperatura do corpo baixa.

O professor Yi Cui, de Stanford, foi co-autor do estudo publicano na Science e co-fundador da LifeLabs com Meng Shui, um químico e CEO da aceleradora de tecnologia de sustentabilidade EEnotech. Ele explica que reduzir nossos termostatos em até 1 grau pode resultar em uma redução de 10% no uso doméstico de energia. “Você não precisa mudar seu estilo de vida, você só precisa escolher a roupa certa”, defende ele.

(Crédito: cortesia da LifeLabs)

Acabei de passar uma semana na chuvosa Toulouse, na França, durante a qual as temperaturas nunca ultrapassaram os 35 graus Fahrenheit (1,6 grau Celsius). O tempo estava muito frio para eu aguentar mais de uma hora com uma camiseta da coleção CoolLife, mas eu tentei duas roupas diferentes da WarmLife, e elas fizeram jus ao seu nome. Vesti meu casaco WarmLife, que eu descreveria como uma mistura de capa de chuva com uma parca: leve, à prova d’água e quente. Eu estava tão confortável quanto meus amigos que usavam casacos de inverno mais grossos. Ainda assim, dada a natureza da vestimenta, eu a usava apenas ao ar livre.

Enquanto comecei a escrever este texto, estava vestindo um colete da WarmLife e meu corpo parecia estar envolto em um fino véu de calor sutilmente morno. O termostato da minha casa estava regulado para 4 graus abaixo do normal, e eu me sentia totalmente confortável. (Tivemos que voltar para casa porque meu marido estava com frio.)

(Crédito: cortesia da LifeLabs)

A coleção WarmLife inclui dois tipos de casacos à prova d’água, um colete, calças e luvas. Para uma empresa projetada para nos ajudar a reduzir nosso consumo de energia em casa, é estranho que ainda falte nessa coleção algum um moletom básico (por isso eu vesti um colete com capuz dentro de casa).

Para fazer uma redução real no uso de energia de alguém, eu esperaria algumas peças mais casuais, talvez calças de moletom, blusões de moletom ou até mesmo meias. Mas a equipe da LifeLabs afirma que as coleções já lançadas são apenas um ponto de partida.

Quando fiz um zoom com Scott Mellin, o CEO da empresa, ele estava vestindo um colete WarmLife e o protótipo de um suéter da WarmLife. “Enquanto trabalhávamos para construir uma coleção básica e versátil de roupas para a vida cotidiana, consideramos que os casacos fazem parte de um guarda-roupa básico e que ainda tem espaço para melhorias”, diz Mellin, que anteriormente atuou como líder em inovação na North Face. “Sem falar que lançamos a marca durante o inverno, e queríamos levar em consideração o comportamento do consumidor nessa época.”

(Crédito: cortesia da LifeLabs)

Com apenas um produto da WarmLife que pode realmente ser usado por dentro dos casacos (o colete), as ambições da empresa de reduzir o uso de energia pessoal ficam um pouco perdidas. Em comparação, o CoolLife inclui uma camiseta de manga curta e outra de manga comprida, calças, shorts, um boné de beisebol refrescante e um conjunto de pijamas. Junto com o conjunto de roupa de cama para a primavera, a coleção para dias quentes parece muito mais promissora. Em 2020, o ar-condicionado era responsável por cerca de 12% do consumo total de eletricidade nos EUA. Ainda assim, teremos que esperar até o verão para ver quantos graus um conjunto de pijama CoolLife pode ajudar a diminuir o uso do ar-condicionado. 

Em última análise, a proposta da empresa é substituir todo o guarda-roupa de seus clientes, e toda a estética das peças exala minimalismo. “É tudo que você precisa e nada mais”, diz Mellin, acrescentando que a empresa deseja criar uma linha acessível, sem detalhes opcionais ou extras. No momento, no entanto, a média de preço ainda é alta. Uma jaqueta WarmLife pode custar até US $ 343, enquanto uma camiseta CoolLife sai por US $ 73. O produto mais barato é um par de luvas de US $ 53; o mais caro é uma jaqueta de $ 693 que é avaliada como 38% mais quente do que o Canada Goose Snow Mantra (modelo da concorrente que custa a metade do preço).

(Crédito: cortesia da LifeLabs)

Independentemente de qualquer coisa, é muito dinheiro para investir em um casaco de inverno. Ainda assim, Mellin aposta que os têxteis são “a forma mais democrática” de as pessoas reduzirem suas pegadas de carbono. Podemos reformar nossas casas para funcionar com eletricidade; podemos instalar painéis solares em nossos telhados; ou podemos mudar para um carro elétrico, mas tudo isso tem um preço.

Claro, o impacto ambiental de uma casa movida a energia solar não pode ser comparado ao de um colete termicamente eficiente, por mais quente que ele seja, mas Mellin acredita que as roupas vão nos ajudar sistematicamente a reduzir nossa pegada de carbono: “Os têxteis podem ser super benéficos para a sustentabilidade a longo prazo.”

SOBRE A AUTORA

Elissaveta M. Brandon é colaboradora da Fast Company.