POR SARAH STEIN GREENBERG

Hoje em dia, a grande maioria dos sites recebe os visitantes com um popup. Este impedimento na navegação é chamado de “cookie banner” e existe para garantir o consentimento do usuário, de acordo com as leis de privacidade online, para que sites retenham informações sobre as visitas.

O cookie banner oferece uma escolha: consentir apenas os cookies essenciais que ajudam a manter a funcionalidade de navegação ou aceitar todos — incluindo cookies que rastreiam o histórico de navegação para vender para empresas de publicidade direcionada. Como esses cookies adicionais geram receita extra para os sites, os cookie banners costumam ser projetados para induzir as pessoas a clicar em “aceitar todos”.

O comissário de Informação do Reino Unido recentemente pediu aos países do G7 que resolvam esse problema, destacando como usuários cansados ou desatentos estão concordando em compartilhar mais dados pessoais do que gostariam. Mas, na verdade, os cookie banners são apenas um exemplo do que é chamado de “dark design” — a prática de criar interfaces que são intencionalmente desenvolvidas para confundir ou enganar as pessoas.

Cookie banners continuam sendo a forma mais óbvia de “dark design”. Note como o botão “aceitar tudo” é grande e destacado, atraindo o clique do cursor em uma fração de segundo assim que entra em um site. Em contrapartida, os botões de “confirmar escolhas” ou “gerenciar configurações” — aqueles por meio dos quais pode-se proteger a privacidade – são menos proeminentes e exigem uma atenção maior do usuário. Basta experimentar o Cookie Consent Speed-Run, um jogo online que mostra como é difícil clicar no botão correto quando estamos diante de um dark design.

Sites de e-commerce também costumam utilizar estes dark patterns. Digamos que você encontrou um produto com preço atraente que gostaria de comprar. Você cria uma conta, seleciona as especificações do produto, insere as informações de entrega, clica na página de pagamento e descobre que o custo final, incluindo a entrega, é misteriosamente mais alto do que você tinha visto anteriormente. Esses “custos ocultos” não são acidentais: o site espera que você confirme o pedido mesmo assim, em vez de gastar ainda mais tempo repetindo o mesmo processo em outra plataforma.

Outras aplicações de dark design são menos óbvias. Serviços gratuitos como Facebook e YouTube monetizam a atenção, colocando anúncios durante a navegação ou reprodução de vídeos. Nessa “economia da atenção”, quanto mais o usuário navega, mais dinheiro as empresas ganham. Portanto, essas plataformas são otimizadas intencionalmente para direcionar e reter atenção. Por exemplo, o algoritmo cuidadosamente elaborado por trás das sugestões de próximo vídeo do YouTube pode nos prender assistindo por horas, se deixarmos.

DESIGN DE APLICATIVOS

A manipulação de usuários para ganho comercial não acontece apenas em sites. Atualmente, mais de 95% dos aplicativos para Android na Google Play Store são gratuitos. Criar esses aplicativos é caro, exige equipes de designers, desenvolvedores, artistas e testadores. Mas os designers sabem que vão recuperar seus investimentos.

Em uma pesquisa para analisar aplicativos de jogos gratuitos populares entre os adolescentes, meu colega e eu identificamos dezenas de exemplos de dark design. Os usuários são forçados a assistir propagandas e frequentemente encontram anúncios disfarçados que parecem parte do jogo. Eles são incentivados a compartilhar postagens nas redes sociais e, conforme seus amigos entram no jogo, são instigados a fazer compras no app para diferenciar seus personagens dos de seus colegas.

Parte dessa manipulação psicológica parece imprópria para usuários mais jovens. Alguns jogos promovem padrões estéticos prejudiciais à saúde, enquanto outros promovem e incentivam ativamente o bullying por meio da agressão indireta entre os personagens.

Existem mecanismos para proteger usuários jovens da manipulação psicológica, como sistemas de classificação etária, códigos de conduta e orientações que proíbem especificamente o uso de dark design. Mas eles dependem que desenvolvedores entendam e interpretem esta orientação corretamente e, no caso da Google Play Store, os desenvolvedores são responsáveis por examinar seu próprio trabalho e cabe aos usuários relatar quaisquer problemas. 

LANÇANDO LUZ SOBRE O PROBLEMA

O problema do dark design é que ele é difícil de detectar. E os dark patterns, produzidos por desenvolvedores, se espalham rapidamente. É difícil para designers não os utilizar quando aplicativos e sites gratuitos estão competindo por atenção, com métricas como “tempo na página” e “taxa de conversão”.

Portanto, precisamos considerar as implicações mais amplas de um ecossistema virtual cada vez mais manipulador. O dark design é usado para influenciar nossas decisões sobre dinheiro, dados pessoais, tempo e consentimento. Mas uma compreensão profunda de como eles funcionam e o que eles pretendem alcançar pode nos ajudar a detectar e superar suas manipulações.

 

SOBRE O AUTOR

Daniel Fitton é professor associado de design e UX na University of Central Lancashire. Este artigo foi republicado do site The Conversation sob a licença Creative Commons.