POR MARK WILSON

Dantley Davis estava sentado em seu carro em San Jose, no estado da Califórnia, quando um policial empunhando uma arma se aproximou. Não foi a primeira abordagem policial sem motivos que ele sofreu, e, certamente, não seria a última.

Houve um assalto nos arredores e Davis – filho de pai negro e mãe coreana – supostamente se encaixava na descrição do ladrão, segundo o policial.

Embora não conhecesse Davis, certamente conhecia os frutos do seu trabalho. Na época, Davis era uma estrela em ascensão do design no Vale do Silício, responsável por algumas das interfaces mais utilizadas do mundo. Ele concebeu o carrinho de compras para o PayPal, que permite que você compre facilmente de varejistas terceirizados. Ele também projetou grande parte da interface moderna da Netflix, que continua em uso até hoje. Além disso, concebeu o conceito atual de ter perfis de conta separados em streamings e também o recurso que mostra a reprodução automática enquanto você navega (pelo qual se desculpou mais tarde).

Mantendo as mãos no volante, Davis explicou ao policial que morava no bairro, porém o agente desconfiou. Davis então prosseguiu, explicando que seu suposto “carro de fuga” – um Nissan Leaf – tinha uma autonomia de bateria de apenas 65 km. “O rosto [do policial] ficou completamente vermelho”, relembra Davis, dando uma risada, “e então me liberou”.

Embora Davis consiga rir disso agora, ele nunca se livrou do problema. Apesar de ter desenvolvido alguns dos produtos mais importantes do Vale do Silício, ele é repetidamente tratado como um outsider – o controle lhe é dado, mas ele continua tendo que se provar o tempo todo. Seu trabalho de criação de interfaces com amplo alcance lhe rendeu cargos importantes em algumas das maiores empresas de tecnologia. Mas com funcionários negros constituindo apenas 3% do quadro de designers e 7% em tecnologia, ele também se viu impotente ao pressionar por mudanças sistêmicas.

Esse outsider, no entanto, agora está moldando o futuro de uma das empresas mais influentes do planeta. Depois de ingressar no Twitter em 2019, Davis se tornou o primeiro diretor de design da empresa (bem como o primeiro executivo negro desde que o Twitter se tornou uma empresa de capital aberto). Sua missão: acabar com comportamentos tóxicos na plataforma e tirar a empresa de uma crise de desenvolvimento de produtos que já dura uma década, em parte mudando sua complacente cultura corporativa.

Embora o Twitter tenha sido uma força motriz por trás dos movimentos sociais mais proeminentes da última década, incluindo #MeToo e Black Lives Matter, também foi o responsável por impulsionar alguns dos piores comportamentos online. Foi permissivo com assédio direcionado desde seus primeiros dias. Propagou discursos de ódio e desinformação, incluindo propaganda antivacina e as distorções de realidade postadas pelo ex-presidente Donald Trump.

Um estudo de 2017 da Anistia Internacional apontou que um tweet abusivo é enviado a jornalistas e políticas mulheres a cada 30 segundos. Examinando uma década de tweets, um estudo de 2018 do Instituto de Tecnologia de Massachusetts descobriu que informações falsas se espalham seis vezes mais rápido do que informações verdadeiras na plataforma e tinham 70% mais chance de serem retuitadas.

Em retrospecto, não é surpreendente que esse tipo de coisa tenha acontecido por tanto tempo. A cultura de desenvolvimento do Twitter tradicionalmente prioriza gerentes de produto obcecados por eficiência, em detrimento de designers focados na experiência. (Exemplo: um dos melhores recursos de design do Twitter – deslizar para baixo, que permite aos usuários atualizar o feed – nem mesmo foi criado internamente; chegou por meio da compra do aplicativo Tweetie pelo Twitter em 2010.) Na maioria das empresas de sucesso, designers resolvem problemas. No Twitter, eles faziam principalmente o que lhes era atribuído.

Davis, no entanto, intensificou a programação de lançamento de produtos do empresa. Nos dois anos desde sua chegada, o serviço lançou um número impressionante de recursos que começam a combater alguns dos problemas centrais da plataforma. Ele fez campanha para colocar rótulos de “informação falsa” no feed (que foram utilizados para sinalizar alegações falsas de Trump sobre fraude eleitoral). Seu grupo ajudou a desativar algoritmos racistas que destacavam rostos brancos com sua função de corte automático de fotos. (O Twitter agora permite que os usuários postem fotos com proporção original.) Além de montar uma equipe de 15 pessoas para desenvolver conceitos para eliminar problemas, como assédio direcionado, ele também está lançando outros produtos, incluindo o recurso de bate-papo com áudio Spaces e um sistema de gorjetas para criadores, que estimulam interações positivas no site.

“O ingresso de Dantley na empresa é um dos pontos de inflexão mais importantes que já que tivemos”, diz Kayvon Beykpour, que, como gerente de produto, trabalha diretamente com Davis para definir os rumos do desenvolvimento do Twitter.

Esse ponto de inflexão não foi fácil para a empresa. Contratado para mudar a cultura corporativa, que por vezes prioriza a longevidade e não o desempenho, Davis é uma figura transformadora no departamento de design e pesquisa, que conta com mais de 200 funcionários.

Por um lado, ele está incorporando perspectivas diversas em sua crescente equipe de líderes de design, que até o momento é composta por nove funcionários, mais da metade dos quais são mulheres e pessoas não brancas. Em todo o seu departamento, ele fez questão de contratar, para resolver os problemas mais profundos da empresa, pessoas cujas perspectivas muitas vezes foram ignoradas. (Funcionários negros representam 6,7% da força de trabalho técnica no Twitter, que emprega cerca de 6.600 pessoas; funcionários latinos representam 6,1%, e mulheres, 29,2%.)

Dantley Davis (Crédito: Shayan Ashgarnia) 

Ao mesmo tempo, porém, ele foi responsável por um êxodo significativo de designers veteranos e isso teve um efeito desestabilizador. Após conversar com 20 ex e atuais colegas do Twitter e de outras empresas, temos um retrato de Davis: um designer reservado e focado em sua missão que, por vezes, pode desanimar e até afastar funcionários. Seus críticos se ressentem pelas mesmas razões que seus seguidores o amam: suas críticas cirurgicamente precisas e objetivas e seu foco na responsabilidade com o trabalho.

“Havia uma cultura de não se fazer muito na equipe”, diz Davis, sem cerimônia. “A expectativa mudou e hoje é esperado que cada um faça sua contribuição.”

Davis tem apoio nos mais altos cargos do Twitter. O CEO Jack Dorsey se refere a ele como “íntegro, criativo e intransigente”. Já a gerente de recursos humanos do Twitter, Jennifer Christie, ressalta que seu estilo “direto e focado no desempenho” impulsiona a empresa a “ser melhor tanto no desenvolvimento de produtos, quanto no tipo de empresa que queremos ser.”

Seu foco implacável nos resultados, no entanto, é uma faca de dois gumes para o Twitter, já que a empresa está em um momento crítico. Em poucas empresas as apostas em design são tão altas quanto no Twitter. Consertá-lo significa transformar a mídia social como a conhecemos – uma tarefa tão assustadora quanto necessária.

Davis e eu viajamos em uma van para o meio do nada para pilotar aeromodelos. Ele equipou uma van Mercedes Sprinter com bebês-conforto para seus dois filhos e, atrás, um conjunto de prateleiras de PVC, onde ficam alguns de seus modelos, que chegam a 4 metros de envergadura.

Assim que saímos, passando pelas barracas de frutas do interior da Califórnia, Davis fez a mesma coisa que fez com sua equipe executiva no Twitter: ele contou sua história.

Nascido em Seul em 1976, passou seus primeiros 16 anos morando em bases militares. Seu pai era da Força Aérea, e após duas viagens ao Vietnã, se tornou chefe da tripulação de F-15s e outros caças. A mãe de Davis é coreana e ensinou ao filho sua língua nativa como primeira língua. Ao se mudaram para a Flórida quando Davis tinha 3 anos, sua mãe seguiu o conselho de um amigo e parou de falar coreano para que ele tivesse um sotaque americano mais “típico”.

Davis descobriu que crescer em bases militares oferecia um tipo particular de liberdade. “Eu vivia cercado por pessoas com vidas completamente diferentes. É um exemplo concreto da diversidade dos EUA”, diz ele. “Eu não tinha nenhuma noção de qual era a minha raça, de fato.” Ele se tornou um construtor de coisas obsessivo; aprendeu a criar modelos e a programar sozinho. No início da adolescência, quando a família de Davis se mudou para uma base militar no sul da Califórnia (seus pais se divorciaram quando ele tinha 8 anos), ele praticava esses hobbies o tempo todo. “Eu era um nerd completo”, complementa.

Ele comprava jogos de videogame no shopping e descompactava seus arquivos para remover a proteção contra cópia. (Foi banido da Software Etc. quando a loja percebeu que ele estava revendendo jogos piratas em disquetes por US$ 5 cada.) Ele começou a recodificar jogos por diversão, aprendendo sozinho no Photoshop a redesenhar texturas. E então, começou a fazer a engenharia reversa dos códigos de programação pois já estava entediado com seus adversários.

Mais tarde, a base da Força Aérea fechou e seu pai se aposentou. Seus amigos deixaram a região. “De repente, percebi minha identidade pela primeira vez”, diz ele. “As crianças negras não queriam ser minhas amigas porque eu não era negro o suficiente. Enquanto crianças brancas não queriam por ser negro.”

No último ano do colégio, ele já construía sites para empresas de car-tuning (empresas que modificam carros, tornando-os mais bonitos, seguros e aumentando sua performance) e trocava seu trabalho por peças para turbinar seu Honda Civic. Um dia após a aula, seu professor de tecnologia o chamou para perguntar se ele pensava em seguir a carreira de designer gráfico. “Eu não tinha ideia do que era”, diz Davis.

Em 1997, aos 19 anos e com US$ 100 no bolso, ele se mudou para a Bay Area, em São Francisco, onde empresas que cresciam rapidamente estavam em busca de designers com proficiência técnica. Ele trabalhou em tempo integral enquanto estudava na Academy of Art University e, posteriormente, na Universidade de São Francisco. Depois de formado, ele conseguiu um emprego no PayPal, em 2002, logo nos primeiros dias da empresa.

Apesar de seu cargo na empresa, Davis se sentia isolado. “Quando cheguei [a São Francisco], tive a sensação de finalmente ter conhecido pessoas como eu, já que todos também eram nerds”, diz ele. Mas depois que a bolha das “pontocom” estourou, tudo se tornou mais corporativo. “Eu sentia que tinha que mudar minha personalidade para me encaixar, para não parecer agressivo.”

Nos fins de semana, Davis dirigia até Riverside, na Califórnia, para visitar sua namorada (que logo se tornaria sua esposa), uma reservista da Base Aérea da Reserva March. “Eu ia à unidade dela e via a camaradagem”, diz ele. “Eu sentia falta disso. Eu estava louco por algo assim.”

Essa falta que sentia da camaradagem se intensificou após os ataques de 11 de setembro, quando Davis tirou uma licença do PayPal para participar do treinamento militar chamado ROTC (ou Reserve Officers’ Training Corps, um programa de treinamento em faculdades e universidades para oficiais comissionados das Forças Armadas dos Estados Unidos). Seu plano era usar benefícios militares para financiar seus estudos em Direito Civil. Ele era movido por um senso de propósito, mas um sargento que supervisionava seu treinamento o convenceu de que ele já havia encontrado seu propósito. “Você poderia tornar o mundo melhor daqui”, Davis lembra o sargento dizendo.

Ele saiu do ROTC e retornou ao PayPal.

Enquanto nos aproximávamos de uma estrada de terra, Davis virou seu Sprinter em direção a um portão enferrujado. E então, chegou o momento de voar.

Antes de a esposa de Davis, como enfermeira, ser enviada ao Iraque em 2006, ela lhe deu um modelo de avião RC. “Isso me trouxe uma sensação de leveza e não fiquei mais tão paralisado de preocupação por ela”, diz ele. E também o apresentou a uma comunidade de entusiastas, muitos deles veteranos. Eles o ofereceram o apoio que faltava em sua vida profissional, que era repleta de pessoas que estranhavam sua relação com militares.

Davis é entusiasta de RC. Lançou o avião para o céu, que subiu em direção às nuvens e caiu em um arco suave. Então, começou a sobrevoar as cercas, apenas a alguns centímetros de distância do limite entre liberdade e colisão.

Davis é naturalmente empático com pessoas que costumam ser rotuladas como “marginais”. Enquanto esteve no PayPal, ele viu a dificuldade que sua mãe teve de configurar o sistema de pagamento online, como dona de uma loja de roupas, um obstáculo enfrentado por muitos outros proprietários de pequenas empresas da sua comunidade coreana. Na época, o PayPal tinha um botão de compra que podia ser usado em todos os tipos de contextos online, mas não possuía um aplicativo. Isso o inspirou a criar o “carrinho de compras” que hoje permite que qualquer varejista ofereça uma compra fácil aos seus consumidores.

Quando começou a trabalhar na Netflix em 2009, ele desenvolveu um conceito de interface para TV. “Alguns de seus primeiros trabalhos trouxeram uma sensação mais cinematográfica para a Netflix”, afirma Chris Smith, agora diretor de design da empresa. “Muitas pessoas da nossa equipe contribuíram para isso. Mas foram realmente os primeiros designs de Dantley que a transformou” Sua visão – de ir além dos thumbnails dos vídeos para uma experiência mais dinâmica – define a interface da Netflix até hoje.

CONSTRUINDO O NINHO: UMA ANÁLISE DOS NOVOS RECURSOS QUE DAVIS AJUDOU A IMPLEMENTAR PARA RESOLVER ALGUNS PROBLEMAS ANTIGOS DO TWITTER

Este trabalho o levou a supervisionar o aplicativo da Netflix, que em 2012 ainda era primário. Por insistência de Davis, os engenheiros da Netflix incorporaram mais telemetria ao aplicativo, permitindo que a empresa entendesse como as pessoas o estavam usando. Para sua surpresa, eles descobriram que, em algumas áreas dos EUA, as pessoas assistiam a filmes inteiros no celular.

Davis solicitou dados extras para testar sua hipótese: de que estes usuários eram de regiões predominantemente negras e hispânicas, lugares onde os dispositivos mais usados não são laptops ou desktops, mas smartphones. E ele estava certo. Essas descobertas iniciais levaram a Netflix a otimizar o streaming em celulares e, eventualmente, ajudou a adentrar mercados como a Índia, permitindo que o conteúdo fosse baixado antes.

Davis gostava de seu trabalho – e tinha reuniões regulares com o CEO Reed Hastings – mas ainda se sentia sozinho. “Eu olhava ao redor e não via ninguém que se parecesse comigo”, diz ele. “Por muito tempo, eu apenas aceitei. Era algo que me incomodava, mas acabei deixando pra lá. “

Um policial o parou, desta vez perto do campus da Netflix, certo de que sua BMW M3 era roubada. Davis contou o ocorrido a Hastings e, sem sucesso, insistiu a ele para incluir a representatividade negra na missão da empresa. (A Netflix não quis comentar.)

Quando Philando Castile foi baleado e morto por policiais em Minneapolis em 2016, vídeos tomaram conta do Facebook, e algo dentro de Davis mudou. Ele compareceu à reunião trimestral da Netflix, em que a empresa estava comemorando a alta do preço das ações. Davis puxou seu forte senso de justiça social de seu pai, que morreu em 2010, e enxergava a diferença gritante entre o mundo real e a bolha do Vale do Silício.

“Ele disse algo como: ‘Cara, não podemos aceitar isso. Precisamos reunir nossos funcionários negros’”, lembra Sabry Tozin, o ex-diretor de engenharia de estúdio da Netflix. Cerca de uma dúzia de funcionários negros se encontraram em uma churrascaria para jantar. Eles conversaram até o restaurante fechar e, depois, continuaram a conversa no estacionamento. Esse grupo cresceria e se solidificaria oficialmente como Funcionários Negros da Netflix. “Quando [Davis] se preocupa com algo, quando se trata de algo importante para ele, ele não descansa até conseguir”, diz Tozin.

A morte de Castile também levou Davis a aceitar uma proposta do Facebook, que estava procurando alguém para ajudar a desenvolver sua experiência de vídeo e seu aplicativo. “Achei que poderia ser uma oportunidade de [fazer] um trabalho positivo para a sociedade, através do design e da tecnologia”, diz ele. Porém, agora percebe que foi ingênuo.

No Facebook, ele novamente recorreu à pesquisa demográfica para quantificar como pessoas não brancas estavam usando a rede. Mas, embora o Facebook tenha dado luz verde à pesquisa, apelidada de Projeto Vibe, fazer com que a empresa fizesse atualizações significativas com base nas descobertas parecia impossível. “Eu estava exausto de ter que constantemente apontar esses problemas, levantar a bandeira, chamar todos para uma sala, tentar convencê-los de que havia um problema e fazer com que tomassem alguma atitude a respeito.”, diz Davis. (Um porta-voz do Facebook refuta as afirmações dele, insistindo que sua pesquisa levou a uma melhor aplicação das políticas de discurso de ódio e mais financiamento e programas para usuários negros e latinos) Quando o Twitter entrou em contato, Davis estava quase certo de que seus dias como funcionário de empresas de rede social tinha acabado. Mas como a entrevista seria com o próprio fundador Dorsey, ele aceitou.

Durante a reunião, Davis disse a Dorsey que seu interesse no trabalho se resumia a apenas uma pergunta: se o CEO do Twitter acreditava que havia lugar para grupos que toleram o ódio e o extremismo na plataforma. “Se ele dissesse que sim, não haveria porque ir para Twitter, já que estava lidando com isso no Facebook”, esclarece. “[Em vez disso] passamos os próximos 45 minutos ou mais de nossa conversa discutindo soluções. No Facebook, gastava toda a minha energia tentando convencer as pessoas de que os problemas eram reais. Jack reconheceu os problemas logo de cara e isso era tudo que eu precisava.”

Seu trabalho no Twitter tem sido difícil e, em muitos aspectos, é para ser assim. Quando ele chegou, ele encontrou uma estrutura em os designers atuavam como uma espécie de contrato de trabalho, apenas respondendo a solicitações dos gerentes de produto. De acordo com um ex-membro da equipe de design do Twitter familiarizado com a situação, os designers muitas vezes ficavam de mão atadas e muitos saíam frustrados. O recrutamento de novos talentos se tornou ainda mais difícil, já que as ações do Twitter caíram em meados da década de 2010. (O fato de Dorsey, que assumiu como CEO em 2015, às vezes parecer dividido entre a Square, onde atua como CEO, e seus investimentos em criptomoedas também não ajudava)

Davis queria revigorar a equipe – mesmo que isso significasse estremecer tudo. De acordo com uma fonte, ele foi para sua primeira reunião com gerentes de design empunhando o manual de cultura da empresa, que valoriza a honestidade e desempenhos racionais. Davis disse basicamente, lembra a fonte: “Vou ser extremamente honesto com todos vocês: Jack me disse que a equipe de design está ferrada e quer que eu conserte as coisas.” Em seguida, ele pediu aos gerentes que circulassem pela sala e dessem feedbacks críticos uns aos outros. Hoje, todos, exceto dois deles, deixaram a empresa.

“Havia muita tensão”, diz Davis sobre aqueles primeiros dias. Ele não fez rodeios em suas críticas, especialmente com funcionários de cargos altos. Um ex-membro da equipe descreve “uma cultura do medo” em suas políticas de revisão dos designs. Ele já esperava atrito e conseguiu.

Com o resto de sua equipe, ele tentou uma abordagem mais comedida. Ele provou ser um membro acessível da C-suite, oferecendo sessões semanais de feedback e mantendo o horário de expediente regular. Um designer atual chama Davis de “atencioso e gentil”, mas também “quieto, firme e direto”, o que foi intimidante no início. “Se você está nervoso e querendo validação, ele não é o tipo de pessoa que você deve procurar.”

Depois de receber o feedback do RH no início deste ano de que sua forma de liderança estava afastando alguns funcionários, Davis trabalhou para suavizar sua abordagem. Mas uma matéria do New York Times de agosto sobre queixas de funcionários de empresas do ramo que relatam se sentir “psicologicamente inseguros” e que também detalhava reclamações sobre ele, atrapalhou seus esforços.

Davis admite que provavelmente “contribuiu para que [as pessoas] não se sentissem psicologicamente seguras, porque foi a primeira vez que receberam um feedback sincero”. Desde então, ele se reúne com membros de sua equipe para ouvir suas preocupações e reclamações, mas afirma que não está diminuindo seus critérios.

“Ainda estamos aprendendo a encontrar o equilíbrio entre empatia e respeito e o feedback direto e honesto, e Dantley tem trabalhado numa forma de atingir isso”, disse Christie, chefe de recursos humanos. Mas mesmo os designers que não se sentiam incomodados há alguns meses agora dizem que estão perfeitamente cientes da tensão na equipe.

Sua abordagem ousada funcionou melhor em outros lugares: ele conseguiu quebrar os silos organizacionais entre designers e gerentes de produto, engenheiros e pesquisadores, e dar ao designer mais controle do desenvolvimento do produto. Em vez de ter gerentes apresentando conceitos em documentos corporativos prolixos – como era feito anteriormente no Twitter -, a equipe de design agora cria novos recursos, com um senso de clareza e urgência. “Dantley exigia que as pessoas não apenas se importassem, mas também fizessem seu trabalho”, diz Theresa Mershon, designer sênior que supervisiona os sistemas no Twitter. 

Sob o comando de Davis, o Twitter lançou dezenas de recursos. Alguns fazem parte do plano da empresa de desenvolver novos fluxos de receita (tanto para o Twitter, quanto para os criadores), como o Twitter Blue, um serviço de assinatura que permite editar tweets, e o Tip Jar, sistema de gorjetas que incentiva artistas independentes. Outros estão focados em permitir que os usuários interajam de forma menos tóxica, como o Spaces, que permite que você tenha conversas em áudio com grupos; e também o futuro Twitter Communities, que permitirá que você encontre a participe de grupos classificados por interesse.

Esses esforços parecem estar funcionando. O Twitter aumentou a “média de usuários monetizáveis” em 11% no ano passado, de acordo com seus ganhos no segundo trimestre, e 41% dos usuários começaram a seguir não apenas pessoas, mas tópicos organizados, o que aumenta o engajamento. A receita total do Twitter cresceu 74% no segundo trimestre.

Davis também chamou atenção para a falta de diversidade na empresa. Quando a equipe de design tirou uma foto em 2019 e postou no Twitter, Davis era um dos poucos negros entre os cerca de 100 funcionários. “Começamos a contratar designers não brancos”, diz ele. “Se tiramos uma foto hoje, vemos que nosso quadro de funcionários é diverso, com todos os tons de pele possível e com pessoas de diferentes partes do mundo.” Davis diz que já está vendo os benefícios disso. “Há várias coisas que só conseguiremos atingir com a diversidade de cultura, e aqui, não há mais a necessidade de explicar o motivo de precisarmos fazer algo neste sentido, a equipe já está ciente.”

A empresa havia desenvolvido projetos de sinalizadores de desinformação para conteúdos falsos antes da chegada de Davis, mas eles estavam simplesmente parados. “Não quero dizer que fui responsável por [o recurso ser colocado na plataforma], mas eu definitivamente estava pressionando, questionando e apontando o problema a partir de diferentes ângulos. E continuei por muito tempo até que, finalmente, começamos a usá-lo”, diz ele. Esses sinalizadores, que são uma versão mais sofisticada do projeto inicial, são apenas o começo. Birdwatch, uma forma colaborativa de apontar tweets falsos, entrou recentemente em fase beta e o Twitter está desenvolvendo agora uma opção de “não mencionar” em uma conversa, uma forma essencial de se livrar da toxicidade.

Para se manterem honestos – e incluir ainda mais vozes no processo de desenvolvimento – a equipe de design está trabalhando com uma transparência sem precedentes. O identificador @TwitterDesign agora compartilha mock-ups de novos recursos diretamente na plataforma, conectando a equipe de design diretamente aos usuários. “Queremos desenvolver os produtos com nossos clientes”, diz Anita Butler, que supervisiona os sinalizadores de desinformação como diretora de design de saúde do Twitter. “Não importa o quão diversa nossa equipe seja, nunca conseguiremos nos igualar a diversidade de nossos clientes.”

Muito disso parece promissor. Camille François, da empresa de pesquisas Graphika, que estuda como a desinformação se espalha nas redes sociais, duvida que os sinalizadores de desinformação do Twitter tenham tido um impacto significativo. Mas ela elogia a decisão da empresa quanto a eleição presidencial americana de 2020 de desacelerar os resultados virais, forçando usuários a adicionar um comentário a um retweet, em vez de apenas retuitá-lo. “O Twitter trouxe o design para o centro do combate aos danos na internet e isso mudou a forma como o Vale do Silício lida com o problema, algo que já devia ter sido feito há muito tempo”, diz ela. “Enfrentar os danos nas redes sociais não é apenas uma questão de quais regras você tem e quão bom você é em implementá-las. O modo como sua plataforma é projetada tem um impacto fundamental.”

Enquanto isso, o Twitter parece estar se esforçando mais para estudar o problema da toxicidade. Depois de anos renegando acordos de pesquisa de terceiros, a empresa iniciou recentemente um desses estudos, abrindo sua plataforma para Rebekah Tromble, que dirige o Instituto de Dados, Democracia e Política da Universidade George Washington. “O Twitter parece estar fazendo uma grande mudança em sua abordagem”, diz ela. “[Quando o Twitter] se tornou mais diverso, foi quando vimos a reviravolta em nosso projeto.” Mas qualquer pessoa que use a plataforma de uma forma mais do que casual vê que a empresa ainda precisa fazer muito mais para realmente resolver seus problemas.

Davis entende isso em um nível profundamente pessoal. Mesmo tendo ajudado o Twitter a banir o discurso de ódio, ele próprio foi alvo de ataques racistas na plataforma. Ele também recebeu ameaças de morte – detalhando tudo o que iriam fazer a ele e a sua família – o que levou o Twitter a contratar seguranças para protege-los. (O suspeito está atualmente sob investigação de autoridades policiais.)

Davis compartilhou essas experiências com a equipe de liderança do Twitter, o que serviu como um lembrete de que o trabalho da empresa está longe de terminar. Refletindo sobre a experiência agora, ele diz que o que estava sofrendo pode ter contribuído para os problemas com sua equipe. “Para acabar com as agressões que eu estava sofrendo tão intimamente”, diz ele, “tudo o que eu conseguia fazer era focar no que estava errado. Minha equipe estava celebrando pequenas vitórias todos os dias, mas do lugar que eu estava emocionalmente, não conseguia enxergá-las.”

De volta à pista de pouso, Davis estava prestes a fazer o avião pousar. Estava ventando muito. E o vento empurrava o aeromodelo como se fosse uma pena enquanto se aproximava da pista. Eu já estava preparado para uma colisão, mas Davis fez uma manobra leve para diminuir a velocidade sem virar.

Ele evitou a colisão, mas fez algo que eu não esperava. Em vez pegar o avião e guarda-lo, Davis o colocou de volta no ar, circulou a pista e pousou novamente. A aterrissagem foi bem-sucedida, mas ainda não tão suave quanto ele gostaria. Então, ele o lançou e o pousou de novo – e de novo. Não parou até conseguir.

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos. Seu trabalho já foi publicado  no Gizmodo, Kotaku, PopMech, PopSci, Esquire, American Photo e Lucky Peach.