POR MARK WILSON

Crocs. Aqueles tamancos de espuma moldada e com furinhos são ao mesmo tempo controversos e ícones do design, um símbolo do “tô nem aí”, de quem abre mão da aparência em nome do conforto. Por anos, olhei para pessoas que usam Crocs como muitos: com um misto horror e inveja. E não sou o único.

“Ame-nos ou odeie-nos, acho que gozamos da polarização de nosso design”, diz Michael Sarantakos, diretor de design global da empresa. 

Salehe Bembury Crédito: Richard Brooks/cortesiaCrocs

Mas agora a Crocs está lançando um modelo que até os mais hypados podem cobiçar. Com design assinado por Salehe Bembury – um renomado designer de tênis que já criou calçados para Yeezy, Versace, Anta e New Balance – o novo modelo Crocs traz uma textura expressiva e ondulada, com solado inteiro, cobertura no calcanhar a parte frontal feita sob medida. 

Crédito: Emilynn Rose/cortesia Crocs

O modelo Salehe Bembury X Crocs Pollex, custa 85 dólares e será lançado em 14 de dezembro. Essa é a primeira vez que a Crocs permite a um designer repaginar seu clássico tamanco. A empresa admite que essa é uma jogada não só em busca de maior projeção, como também de atrair o mercado de compradores aficionados por tênis. 

Crédito: cortesia Crocs

“Eles estabeleceram uma silhueta icônica. Eu argumentaria que há apenas 10 silhuetas icônicas [no que diz respeito a sapatos]”, disse Bembury numa entrevista. “Não dá para negar esse fato.  Mas a pergunta é: como vou deixar minha marca nesse calçado? Como vou expandir os limites?”

Após uma década de vendas estagnadas, a Crocs voltou à vida com um crescimento das de dois dígitos em suas receitas em 2019 e 2020. Até então, 2021 promete ser um ano de destaque, já que a Crocs prevê até o final dele um crescimento entre 62% e 65%. 

Michelle Poole, presidente da Crocs, que entrou para a empresa sete anos atrás, carrega uma experiência considerável quando o assunto é tirar a poeira de calçados icônicos, vendo-os como telas em branco para a expressão cultural. “Eu trabalhei na Timberland com a bota amarela, na Sperry com o top-sider e na Converse com os Chuck Taylors,” relembra Poole. “Uma das primeiras coisas que fizemos quando entrei para a marca foi entender que precisávamos tornar mais desejado o nosso clássico tamanco. Esse foi o cerne da virada na marca. Não tínhamos noção do problema. Se você delineasse o nosso tamanco, eu diria que é tão reconhecível quanto uma garrafa de Coca. Mas nós tínhamos uma questão de torná-lo desejável, as pessoas diziam ‘eu conheço a marca, mas ela não é para mim’”. 

Sob a liderança de Poole, a empresa reduziu a linha de produção, focando sobretudo nos tamancos e sandálias. Em 2017, lançaram uma campanha de marketing “Come as you are” [Venha do seu jeito], reposicionando o peculiar tamanco como expressão de conforto, autoaceitação e individualidade. A Crocs molhou os pezinhos nas collabs com celebridades como Post Malone e com marcas como KFC. Mas fica claro que o estilo Crocs foi impuslionado por uma indústria mais ampla de sapatos feitos por molde de injeção, como a Birkenstock e a Yeezy. (Quando a Ye, anteriormente conhecida como Kanye West, anunciou seus tênis de espuma moldadas por injeção, a Foam Runners, no palco do Fast Company Innovation Festival em 2019, o público imediatamente identificou-os com Crocs, o que gerou com correntes infinitas de memes.) Junte a esse hype uma pandemia, na qual o mundo começou a se vestir colocando seu conforto em primeiro lugar, e a moda apenas segundo, e o palco estava montado para a volta dos Crocs. 

Com Bembury, a Crocs viu a oportunidade de ampliar seu próprio apelo no mercado explorando o fã-clube de aficionados por tênis. Mas assim como a maior parte das colaborações da indústria nos dias de hoje, as collabs da Crocs até então tinham sido superficiais. Os tamancos da Crocs mudaram de cor e textura, mas nunca haviam mudado de forma. Literalmente. 

Crédito: cortesia Crocs

Num primeiro momento a empresa entrou em contato com Bembury para lhe enviar uns sapatos, como faziam com outros influenciadores. Ele respondeu dizendo que preferiria desenhar seus próprios Crocs. Pesquisando no Google imagens, ele encontrou um modelo que o inspirou. Mas não era um tamanco Crocs tradicional; era, na verdade, um Crocs infantil, com outra fôrma. No fim das contas, a Crocs gostou que Bembury estavivesse pensando em romper com o modelo convencional, e então firmou um acordo para trabalhar com ele, oferecendo um nível de liberdade criativa nunca visto na empresa.

Crédito: cortesia Crocs

Bembary começou focando no cerne do molde do sapato Crocs e como ele poderia manter sua familiaridade tão estimada indo além na linguagem do design, desbravando novos territórios. 

“Uma coisa que aprendi trabalhando com a Ye foi a importância da forma, então eu realmente trabalho com muitos produtos pensando nisso”, diz Bembury.

Bembury fez apenas uma atualização significativa no molde do calçado. Ele rebaixou o dedão – que tinha uma forma quase anacrônica, lembrando sapatos de madeira dinamarqueses – e deu sua interpretação levemente mais parecida com a de um tênis hypado. Essa mudança demandou ajustes no molde da Crocs (um molde patenteado), mas a atualização mínima garante que os novos Crocs ainda serão sentidos como os velhos Crocs por quem os calçar.  

Crédito: Richard Brooks/cortesia Crocs

Bembury trabalhou na estabilidade do sapato, criando um solado genuíno e atualizado e acrescentando uma tira de nylon removível para quando o desejo for optar por um sapato mais casual. A sola foi reforçada com borracha no calcanhar e no ante pé. Conhecido por fazer trilhas diariamente, Bembury queria construir um Crocs que ele pudesse de fato usar em suas aventuras cotidianas.  

Legenda: cortesia Crocs

Claro que a diferença mais gritante é a nova textura, uma pele ondulada que parece mais orgânica do que industrial. Essas ondas são a marca registrada de Bemburry, moldadas em três pontos: o dedão, o arco do pé e o calcanhar. (E sim, Bembury já ouviu a piadinha sobre usar seu sapato para enquadrá-lo por um crime). Mas esse formato esconde uma função: note que Bembury incorporou quatro grandes aberturas na lateral dos sapatos, similares em tamanho e posicionamento às dos Crocs originais, para garantir que os pés respirarão como se estivessem num Crocs convencional. 

O produto final está precificado em US$ 85 – uma média de 30 dólares a mais que o Crocs comum, mas ainda bem mais barato se comparado ao preço de muitas colaborações de Bemburry – sobretudo em sites de vendas como StockX. De certo modo, Sarantakos acredita que essa parceria é um verdadeiro exemplo de design democrático. Não é apenas um sapato de designer barato; é um sapato confortável vendido no corpo de um sapato de design. 

Do jeito que o mercado de colecionadores de tênis anda hoje em dia, será que a Crocs realmente prevê que seu sapato estará amplamente disponível? Ou será que estamos diante de mais um tênis exclusivo que logo mais você não consegue comprar? “Será um equilíbrio”, diz Poole. “Queremos tentar satisfazer o maior número possível de consumidores, mas sem, todavia, deixar nada na prateleira pegando poeira”.

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company e escreve sobre design, tecnologia e cultura há mais de 15 anos. Seu trabalho já apareceu na Gizmodo, Kotaku, PopMech, PopSci, Esquire, American Photo e Lucky Peach.