POR ELISSAVETA M. BRANDON

Como você imagina um móvel que foi desenhado por uma mulher? Quaisquer que sejam os estereótipos que provavelmente vieram à sua cabeça, um novo livro foi lançado para derrubá-los.

A editora Phaidon acaba de publicar a obra mais completa sobre designers mulheres já feita. Woman Made: Great Women Designers (Feito por elas: grandes designers mulheres, em tradução livre) reúne mais de 240 mulheres e suas contribuições para o mundo do design de meados do século XIX até hoje, chegando até produtos concebidos durante a quarentena do ano passado. Incluindo desde ícones do design moderno, como a falecida Zaha Hadid, até figuras esquecidas, como a designer de interiores filipina Mercedes “Ched” Berenguer-Topacio, o livro traz uma visão multifacetada de design, em que o gênero pode até ser o denominador comum, mas nem de longe é uma característica definidora.

As mulheres representam mais da metade dos designers de hoje, mas em 2019 elas ainda ocupavam apenas 11% dos cargos de liderança na área. O livro Woman Made faz parte de um movimento recente de reconhecimento do papel que as mulheres desempenharam, e continuam desempenhando, na formação do mundo em que vivemos. Na esfera do design – desproporcionalmente dominada pelos homens -, o traço feminino não está relacionado a uma estética ou estilo específico, mas sim ao design com propósito, seja ele social, cultural ou ambiental.

Trazendo exemplos que vão de móveis e têxteis a peças de iluminação e utensílios domésticos, o livro narra a criação de uma série de produtos pensados especificamente para o lar – lugar que acumulou estereótipos de gênero durante séculos. “A casa é um espaço de disputas, que muitas vezes estão emolduradas por questões de gênero”, diz Jane Hall, autora do livro e uma das fundadoras do Assemble, premiado coletivo de arquitetura com sede em Londres.  Woman Made aborda esses estereótipos abertamente, usando a casa como ponto de partida para uma reflexão sobre os papéis centrais das mulheres no design ao longo do século XX. No início dos anos 1900, diz Hall, o lar era o centro da vida doméstica. Mas à medida que as mulheres em todo o mundo conquistaram lentamente o direito ao voto, elas ganharam um papel de maior destaque na sociedade, e o lar foi se tornou um espaço mais dinâmico.

Para Hall, a casa sempre funcionou como uma espécie de vitrine para vários tipos de inovação, como em eficiência, higiene e vida em comunidade. Em 1926, por exemplo, a arquiteta austríaca Margarete Schütte-Lihotzky projetou a cozinha de Frankfurt, que hoje é um ícone. Considerada a precursora da cozinha moderna, ela tinha fogão elétrico, janela sobre a pia e muitos armários embutidos. “Esse tipo de design não emancipou as mulheres do papel que exerciam naquele ambiente, mas tentou tornar o uso das cozinhas mais eficiente para elas”, diz Hall. “Isso hoje pode soar estranhamente antifeminista, mas, pela primeira vez, alguém estava pensando na vida das mulheres.”

As mulheres não foram meros instrumentos para a formação os lares ocidentais, elas influenciaram ativamente os espaços domésticos ao redor de todo o mundo. E Woman Made lança luz sobre designs de mulheres dos quatro cantos do mundo. Nas Filipinas, Berenguer-Topacio foi uma das primeiras designers de interiores do país (na década de 1950) e dirigiu durante mais de 50 anos uma empresa de móveis de sucesso (sua cadeira Klismos utilizava cana trançada de origem local). Em Abu Dhabi, a designer nascida em Bagdá Rand Abdul Jabbar tem promovido o artesanato tradicional, que não foi dominado pela influência ocidental. Sua série de móveis escultóricos Forma, de 2015, lança um alerta sobre o desaparecimento das técnicas empregadas na fabricação dos tradicionais “dhows” (um tipo de barco à vela) e foi projetada em colaboração com construtores de barcos locais. 

Ao longo do século passado, as designers mulheres estiveram na vanguarda da inovação, experimentando novos materiais e técnicas. Uma das peças de mobiliário mais antigas em destaque no livro é a cadeira Bibendum (1926), de Eileen Gray. Já uma das peças mais recentes é o sofá Sport, que Monling Lee, do estúdio de design Jumbo, desenhou no ano passado durante a quarentena. Muita coisa mudou nesse intervalo. Nos anos 20, designers como a russa Belle Kogan (muitas vezes referida nos Estados Unidos como “a madrinha do design industrial”) trabalhavam com metal e usavam técnicas modernas. Na década de 1960, tudo se resumia aos plásticos. “A maioria deles tinha patentes”, diz Hall.

Nos últimos anos, as mulheres têm liderado no quesito sustentabilidade. “Hoje, as pessoas estão interessadas no retorno ao artesanato”, afirma Hall, que nota uma forte tendência à utilização de tecnologia industrial em prol do desenvolvimento de produtos acessíveis e que resgatem técnicas tradicionais. “Todas as designers com quem conversei, que têm entre 20 e 30 anos, estão realmente interessados ​​nas materialidades e refletindo sobre clima e consumo, e acredito que esse é um problema concreto para elas”, diz ela, observando a tensão para conciliar a criação de “coisas novas” à sustentabilidade e ao uso de recursos limitados.

Independentemente da época, nenhum produto apresenta aparência ou atmosfera particularmente “feminina”. Então, esqueça os detalhes curvilíneos e os tons de rosa. “Essa ideia de estética feminina é bastante problemática”, diz Hall. O traço comum aqui não é o gênero, mas sim o que ela chama de “metodologia de design feminista”, que pode ser definida como o esforço geral para projetar produtos que estejam enraizados em tradições culturais, que sejam sustentáveis e acessíveis a todos. Hall cita a designer industrial dinamarquesa Karin Schou Andersen, cuja coleção de talheres de 1979 foi desenvolvida considerando o uso por quem tivesse uma série de deficiências individuais, desde lesões esportivas até artrite.

Em última análise, o livro trata menos de tornar as mulheres mais visíveis e mais de tornar identidades marginalizadas mais visíveis por meio do design. Talvez as mulheres se destaquem no design justamente porque foram marginalizadas por tanto tempo. De qualquer forma, Woman Made busca provar, de uma vez por todas, que o mundo em que vivemos é decididamente feito por mulheres.

SOBRE A AUTORA

Elissaveta Brandon é colaboradora da Fast Company.