POR AIMEE RAWLINS

Mesmo antes da pandemia de covid-19, os índices de quadros de ansiedade vinham aumentando nos Estados Unidos, especialmente entre jovens adultos. Os últimos 18 meses, no entanto, causaram um pico de depressão e ansiedade sem precedentes entre os americanos. De acordo com um estudo sobre o assunto, 42% das pessoas relataram algum tipo de sofrimento psicológico em 2020, em comparação com 32% em 2018. Não surpreende, então, que também tenhamos visto um aumento no número de aplicativos de meditação, como o Calm e o Headspace, e de influenciadores que trazem dicas de bem-estar e nos bombardeiam com propagandas de óleos essenciais e tratamentos de desintoxicação digital.

 

Mas e se você pudesse decorar sua casa com móveis e cores que lhe trouxessem tranquilidade? E se você soubesse quais sons e aromas afetam positivamente a sua mente? Essa é a ideia por trás da neuroestética, um novo ramo de estudo que investiga o impacto que a arte, o design, a música e a arquitetura podem ter no cérebro humano.

 

Neuroestética foi o tema de uma mesa-redonda apresentada no Fast Company Innovation Festival no último dia 29 de setembro. Entre os especialistas, estavam Ivy Ross, vice-presidente de Design de Hardware do Google; Susan Magsamen, fundadora e diretora executiva do International Arts + Mind Lab; Diana Saville, cofundadora e CCO da BrainMind; e Judy Tuwaletstiwa, artista visual, escritora e professora. Mark Wilson, da Fast Company, redator sênior da Co.Design, mediou o debate.

 

A ideia de que a arte pode influenciar nosso humor não é nova, mas a neuroestética surge para “casar a ciência com as artes” de vez, diz Magsamen. “Como assimilamos o mundo por meio de nossos sentidos? Como essa experiência incrível altera nosso humor? Como ela nos ajuda a regular a fisiologia do nosso corpo? Como ela nos ajuda a crescer,  a nos transformar e a aprender? A neuroestética responde a todas essas perguntas.”

 

O International Arts + Mind Lab, que faz parte do Instituto de Ciência Pedersen Brain da Universidade de Medicina Johns Hopkins, está trabalhando para estabelecer uma nova abordagem para estudar questões como essas. Uma parceria recentemente firmada com o Instituto Aspen dá ainda mais peso para o estudo e a sistematização da neuroarte.

 

Magsamen pôs em prática essa abordagem interdisciplinar a partir de um projeto que organizou com Ross e o Google na Feira de Móveis de Milão em 2019. Cada uma das três salas da exposição do Google foi projetada para emitir uma vibração específica, enquanto os participantes usavam sensores que mediam suas respostas biométricas em cada uma das salas. Ao final da experiência, os participantes receberam um quadro que mostrava em que momento seu corpo havia ficado relaxado e em que momento ele havia reagido aos estímulos. “Nós queríamos provar que nosso corpo sente o tempo todo, que quando entramos em um espaço, nossa mente pode até dizer: ‘Ah, eu gosto daqui’ – seja porque o ambiente é pintado com sua cor favorita, seja porque a decoração lembra algo que você viu em uma revista –, mas, ainda assim, seu corpo não se sente à vontade na sala, e, no fim das contas, você se sentiria mais confortável em uma sala diferente daquela.”

 

Não havia uma sala “certa” para casa participante. Ross e Magsamen reforçam que cada pessoa traz sua própria bagagem, suas próprias experiências, e é isso que influencia a reação do corpo a estímulos como cor, som e textura.

 

Embora o Google não tenha coletado dados nesse projeto, segundo Ross, “o uso de sensores e como esses dispositivos podem ajudar a melhorar nossa vida são a definição de futuro”. Além disso, ela diz que o Google deseja criar produtos que provoquem emoções e se concentrem na “sensação associada ao design versus o pensamento associado ao design”.

 

É claro que este é um filão que os designers já exploram há muito tempo, como observa Saville. Ela dá o exemplo do uso de vermelho e amarelo em logotipos de redes de fast food. “O vermelho desperta a fome, a impulsividade, enquanto o amarelo traz uma sensação de conforto. E se você pudesse otimizar isso?”, diz Saville. “Cientistas estão usando o ‘aprendizado de máquina’ e a neuroimagem para analisar o ‘neurofeedback’ em tempo real. Em vez ser usado para vender hambúrgueres, esse tipo de conhecimento poderia ser usado para transformar a maneira como você planeja seu escritório, o quarto do seu filho ou uma sala de aula. As perspectivas são muito animadoras.”

 

O estudo sobre o papel do nosso inconsciente, e sobre como nosso corpo e nosso cérebro estão constantemente absorvendo o que está ao nosso redor, também pode influenciar significativamente trabalhos que envolvem criatividade. Tuwaletstiwa conta de uma ocasião em que pediu que um grupo de alunos escrevesse uma história, garantindo que os textos não seriam guardados depois. Essa garantia deu aos alunos uma imensa sensação de liberdade, e eles ficaram impressionados com o que conseguiram criar. Ela organizou um projeto semelhante com Ross no Google, no qual propôs aos designers uma atividade com argila, para ver o que eles criavam. “Nossas mãos carregam um tipo de inteligência muito especial”, diz Tuwaletstiwa. “Elas estão sempre refletindo a influência do mundo sobre nós”. A artista visual acredita que permitir que o corpo explore a arte sem expectativas pode levar a inovações na área do design também.

 

Ross concorda com isso. Ela lembra de uma história que aconteceu alguns dias após Tuwaletstiwa ministrar o workshop no Google. “Um dos meus designers mais jovens veio até mim e disse: ‘Nossa, Ivy, depois daquele workshop de argila, me animei para ir à nossa oficina e começar a esculpir na madeira o modelo que queria para uma caixa de som antes mesmo de recorrer ao computador”. “Isso me deixou muito emocionada”, conclui Ross.

SOBRE A AUTORA

Aimee Rawlins é Senior Staff Editor da Fast Company. Mora em Portland, Oregon, nos EUA.