POR ELISSAVETA M. BRANDON

Vamos falar sobre sexo. Sim, esse assunto estigmatizado, mal ensinado nas escolas, altamente explorado pela mídia e que permanece sendo um tabu em muitas culturas.

A designer Michelle Kee experimentou na pele as consequências negativas de sua má educação sexual: “nós nos tornamos sexualmente ativos e isso faz parte do nosso crescimento, mas eu sinto que a sociedade não faz nada para nos proteger nessa descoberta”, ela se queixa. Foi pensando nisso que Kee decidiu coletar histórias anônimas sobre encontros sexuais. Ela as reuniu em um site visualmente impressionante, que combina texto com ilustrações de outros artistas. Intitulado Learning by Doing It (Aprendendo na Prática, em tradução livre), o projeto torna mais acessível um tópico que geralmente é tabu e aumenta a consciência sobre a importância do bem-estar sexual. Resumidamente, ele faz tudo o que faltou na sua educação sexual.

(Crédito: cortesia de Learning by Doing It)

Como a maioria de nós, Kee não recebeu nenhuma educação sexual formal na escola. “Educação sexual nunca existiu”, lembra ela sobre seu ensino médio na Coréia. “Era apenas aula de anatomia.”

Kee se formou recentemente na famosa Design Academy Eindhoven, na Holanda. Em seu projeto de pós-graduação, ela resolveu aprender na prática, e partiu de uma constatação simples: já existe uma série de plataformas sobre bem-estar sexual, como a OMG. Mas o que estava faltando era uma plataforma com histórias pessoais honestas. “As histórias pessoais têm uma influência muito forte”, defende ela.

Fantasy With Kindness (Crédito: cortesia de Learning by Doing It)

Hoje, o site apresenta cerca de 30 histórias sobre uma ampla gama de tópicos, desde orgasmos e orientação sexual até contracepção, consentimento e sexo com estranhos (o usuário também pode pesquisar por palavra-chave). Algumas histórias foram compartilhadas por escrito, outras vieram na forma de gravações, as quais Kee alterou para tornar as vozes anônimas. Histórias baseadas em texto foram combinadas com ilustrações impressionantes, encomendadas por Kee a um grupo de ilustradores. As confissões em áudio são acompanhados por gráficos minimalistas e por textos animados que ajudam a dar vida às histórias.

Incredible Sex With a Stranger (Crédito: cortesia de Learning by Doing It)

O resultado é uma festa para os olhos. As ilustrações variam do abstrato ao expressivo, sem nunca cair no gráfico vulgar. Kee diz que reuniu as ilustrações antes de começar a projetar o site. Ou seja: ela realmente construiu o site em torno delas. A página inicial traz um aviso “não é seguro para o trabalho”, mas a estética geral é tão elegante que poucas ilustrações fariam seu chefe desconfiar do conteúdo.

Less Lonely Orgasms (Crédito: cortesia de Learning by Doing It)

Estética à parte, o Learning by Doing It preenche uma lacuna na educação sexual. Nos EUA, a idade média em que as pessoas se tornam sexualmente ativas é 15 anos e, embora essa seja a média oficial, quase 40% de todos os alunos do ensino médio que participaram de uma pesquisa de 2017 dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças relataram que já fizeram sexo.

Learning to Love Your Health (Crédito: cortesia de Learning by Doing It)

Mesmo assim, até outubro de 2020, apenas 30 estados e mais o Distrito de Columbia exigiam que as escolas públicas ensinassem educação sexual. Enquanto isso, desde 1982 o governo norte-americano gastou mais de US$ 2 bilhões em educação sexual que prega “somente abstinência”. Nessa conjuntura, muitos sites como o Kee serão necessários para compensar a enorme lacuna na educação sexual nos EUA e no exterior. E o Learning by Doing It é um passo na direção certa.

Together as Equals (Crédito: cortesia de Learning by Doing It)

Desde que se formou, Kee começou a trabalhar com o Wonderland, um estúdio de design de Amsterdã com experiência na área. Juntos, eles estão atualizando o site para oferecer melhor navegação e experiência ao usuário. As novidades serão lançadas no início do próximo ano.

The Haunting Insecure Penis (Crédito: cortesia de Learning by Doing It)

Para preservar a aparência do site, será crucial levantar um financiamento. Afinal, para o site realmente ter sucesso, ele precisa de uma gama diversificada de vozes. Por isso, Kee está procurando almas corajosas e sensíveis, ​​dispostas a compartilhar suas próprias histórias. “Depois que as pessoas ouvirem nossas histórias, elas entenderão o nível de sinceridade e também desejarão compartilhar conosco a sua própria história, em nome de um bem maior”, diz ela. “Se uma pessoa ouvir um depoimento do nosso site e isso ajudá-la no futuro, isso já é tudo que eu queria.”

SOBRE A AUTORA

Elissaveta M. Brandon é colaboradora da Fast Company.