POR NATE BERG

Depois de três décadas criando e desenvolvendo máscaras e figurinos para filmes de super-heróis, não resta dúvida de que José I. Fernandez capacitou-se excepcionalmente para as demandas de indumentárias da pandemia de Covid-19.

Dos capacetes de ciberespaço de Tron: o Legado (2010), à máscara com orelhas de gato de Pantera Negra (2018), Fernandez se especializou em criar elementos que cumprissem a missão de transpor com perfeição as histórias de heróis para as telonas, garantindo, ao mesmo tempo, o pleno conforto dos atores dentro de suas criações.

(Crédito: Cortesia de Xupermask)

Ano passado, o músico Will.i.am, do Black Eyed Peas, entrou em contato com Fernandez (seu parceiro em diversas ocasiões), e lhe propôs um desafio: criar uma máscara prática e multifuncional para a era da Covid-19. A ideia de design era simples: uma máscara com filtros, que tocaria música, e que seria cool, atraente.

Esta não é a primeira vez que Will.i.am se aventura no mundo dos wearables high-tech. Em um projeto anterior, o rapper desenvolveu um produto (de usabilidade duvidosa) chamado PULS, um smartphone em formato de rosquinha para ser usado no pulso. A pandemia de Covid-19 inspirou algo ligeiramente mais relevante. Se o uso de máscaras era o novo imperativo da saúde pública, por que não combiná-las com outras tecnologias que as pessoas normalmente usam — como fones de ouvido bluetooth para ouvir música e receber ligações?

Desafio aceito, Fernandez começou a trabalhar. Usando o que aprendeu ao longo dos anos, desenhando máscaras e fantasias para filmes de super-heróis, ele decidiu criar uma máscara estilosa e protetora ao mesmo tempo.

(Crédito: Cortesia de Xupermask)

“O protótipo que criei com o Will tinha estilo e alguma segurança, com certeza. Possuía apenas uma camada de filtro N95. Mas ainda esquentava muito o rosto, então decidimos adicionar ventiladores”, conta Fernandez.  Os ventiladores movem o ar quente para fora da máscara depois que ele é respirado pelos filtros, como uma sala de pressão negativa presa ao seu rosto. “Aquele foi o momento ‘aha!’, que mudou tudo”, relata. 

Ali eles perceberam que com os componentes e processos de fabricação certos, o protótipo que haviam criado poderia tornar-se um produto que as pessoas desejariam comprar. Uniram-se então à empresa de tecnologia e manufatura Honeywell e agora estão lançando no mercado o Xupermask, uma máscara de dupla filtragem de ar de alta eficiência, com ventiladores em três velocidades para fluxo de ar, um selo facial de silicone, fones de ouvido com Bluetooth integrado, acesso para microfone, indicador LED e luzes de realce e uma bateria recarregável com sete horas de energia, disponível por US$ 299. Projetada para ser usada por horas a fio e capaz de filtrar o ar mesmo depois que a bateria acabar, pode-se dizer que é um produto metade Centro de Controle e Prevenção de Doenças, metade Marvel.

(Crédito: Cortesia de Xupermask)

Colocar todos esses recursos na máscara foi um desafio, mas para Fernandez o maior obstáculo foi tornar a máscara confortável o suficiente para ser usada por longos períodos de uso – o mesmo desafio que enfrenta ao projetar os figurinos de atores que passam extenuantes diárias de 12 a 16 horas nos sets de filmagem.

“É uma mistura de arte com solução de problemas”, diz Fernandez, que abriu sua própria empresa de design de figurinos, a Ironhead Studios, em 2007. “As pessoas usam essas coisas. Elas têm que respirar, têm que ir ao banheiro. Super-heróis não pensam muito sobre isso, mas as pessoas em geral precisam fazer todas essas coisas.”

Fernandez diz que a tecnologia tornou as fantasias usadas em filmes muito menos incômodas do que eram no passado. Bons exemplos incluem os ventiladores compactos integrados a máscaras de capacetes para manter os atores refrescados, implementados a partir de “Tron: o Legado”. Seu projeto atual é The Mandalorian, série ambientada no universo Star Wars. Os filmes originais de Star Wars eram famosos por seus capacetes abafados, segundo Fernandez. “Todos esses caras estão usando capacetes Stormtrooper, que por dentro são uma verdadeira floresta tropical”, diz. Para The Mandalorian, ele projetou capacetes com ventiladores, luzes e até mesmo tecnologia de comunicação para ajudar os atores a receber instruções.

(Crédito: Cortesia de Xupermask)

O advento da modelagem 3D ajudou a encaixar todos esses complementos nas partes apertadas de um capacete espacial, sem aumentar muito seu peso.

“Quando comecei na indústria, tudo o que fazíamos era o exterior. Era um verniz”, conta. “Mas agora posso fazer os interiores, e isso me permite fazer vias aéreas, encaixes para baterias e ímãs eletrônicos. Tudo se encaixa como um quebra-cabeças.”

Com a Xupermask, os truques de design da indústria cinematográfica alcançam o público. É claro que o consumidor médio pode não ser capaz ou mesmo querer pagar US$ 299 por uma máscara de alta tecnologia, já que, ouvir música provavelmente não estará no topo da lista de prioridades em uma crise de saúde pública. Mas Fernandez está confiante de que as máscaras vieram para ficar.

“Quando isso acabar, haverá outras coisas com as quais teremos que lidar”, diz ele. “Poderá ser pessoas com asma preocupadas com a poluição, ou acometidas de um resfriado, desejando proteger outras pessoas. Ou pode ser que algumas pessoas simplesmente queiram se sentir mais protegidas em um avião.”

SOBRE O AUTOR

Nate Berg é é um jornalista que cobre cidades, planejamento urbano e arquitetura.