POR SARAH STEIN GREENBERG

A primeira vez que ouvi falar que a angústia é uma parte normal do trabalho criativo foi quando fiquei especialmente deprimida com o que estava produzindo naquele momento. Era um projeto focado em ferramentas de irrigação para pequenos agricultores do Mianmar, e uma semana antes da apresentação final eu estava tendo uma crise de ansiedade. Nossa solução para redesenhar uma bomba d’água e reduzir o seu custo parecia irrisória diante das enormes carências dos agricultores para os quais trabalhávamos.

Uma designer muito mais experiente, chamada Nicole Kahn, estava me orientando. Percebendo que eu estava abatida, ela me contou que nunca havia criado nada sem atravessar um desses momentos em que detestava o que estava produzindo. “Eu chamo isso de ‘poço do desespero’.” É quando enxergamos apenas as falhas, mas nenhum dos nossos méritos.

Mas quando Nicole chegava a esse ponto, algo sempre acontecia. Por exemplo, alguém fazia um elogio ou dava um feedback positivo que perfurava a casca da autocrítica, e ela começava a encarar o trabalho de maneira diferente. Ela descobria como melhorá-lo, recuperando o orgulho e o senso de realização. Com o tempo, Nicole disse que foi compreendendo como esses momentos são uma parte importante de seu próprio processo criativo.

Apesar dos muitos prazeres da criatividade, um de seus aspectos mais difíceis é que quase sempre há uma parte do processo que parece terrível. A boa notícia é que você não é o único que se sente assim. E a notícia ainda melhor é que esse desconforto vai lhe servir. No caso do meu projeto da bomba d’água, eu consegui sair do fundo do poço. No fim das contas, 1.500 bombas mais acessíveis entraram em serviço nos campos de toda a região.

O que eu percebi é que o “poço do desespero” não é apenas normal, ele é essencial. Os sentimentos negativos que você experimenta enquanto está no fundo desse poço sinalizam se o trabalho que você está fazendo é difícil ou complexo o suficiente para merecer toda a sua atenção criativa. Somente desafios que não têm respostas fáceis exigem que você dê saltos criativos mais significativos, daqueles que levam a descobertas. Apenas o trabalho que exige que você se esforce para desenvolver novas habilidades – e não apenas aplique as que já possui – mantém você no limite da sua própria curva de aprendizado e, portanto, alcançando todo o seu potencial.

Com o tempo, você começará a perceber que se não passar por esse processo, sente que está faltando algo no seu trabalho. Ele fica um pouco… chato. Você notará que prefere desafios com uma boa dose de incerteza. Naturalmente, você vai buscar desafios em seu trabalho ou na vida. Você continuará tentando superar tarefas cada vez mais difíceis. Porque somente assim você poderá dizer que conseguiu transformar a sensação nauseante de não saber na sensação, muito mais poderosa, de estar com tudo nas mãos para fazer com que um avanço aconteça. E essa descoberta é incrível.

Se você mergulhar mais fundo nesse “poço do desespero” (metaforicamente, por favor!), você encontrará nomes diferentes para ele. O meu favorito é “luta produtiva”, expressão que vem da pesquisa e da prática em educação matemática. Sabe-se que os alunos que resolvem sem esforço um problema de matemática obtêm menos respostas certas quando enfrentam problemas semelhantes no futuro, em comparação com os alunos que sofreram com o problema inicial e lutaram para resolvê-lo. A lição é que o aprendizado é mais profundo e que você retém mais conhecimento quando leva algum tempo e esforço para descobrir como resolver algo.

É muito útil reconhecer quando e por que você está lutando. Afinal, o instinto natural de reclamar da circunstância externa “isso é muito trabalhoso”, “o projeto é muito complicado” apenas distrai você de virar a lente para dentro. Uma abordagem mais construtiva é usar suas experiências anteriores como alimento para entender como você trabalha e como aprende melhor.

É claro que nem toda luta é produtiva. Se você está muito sobrecarregado com a dificuldade ou a complexidade de uma tarefa, seu cérebro e seu corpo ficam inundados de estresse e medo. E quando isso acontece, você não consegue mais produzir ou aprender. Mas você sabe perceber a diferença entre esse tipo de situação e o tipo de luta em que realmente vale a pena se engajar? Eu acredito que sim. 

Para começar, ajuda muito identificar a zona em que você se encontra. Quando se trata de enfrentar novos desafios, há muitas coisas que você já sabe fazer. Esta zona nos parece fácil e familiar. Existe também a zona das coisas que você nunca será capaz de fazer, e se você vagar muito tempo por ela, pode entrar em pânico. E, por fim, há a enorme zona das muitas coisas que você consegue fazer, desde que tenha um mínimo de orientação. Esta terceira zona é ao mesmo tempo difícil e emocionante. Seu nome formal é “zona de desenvolvimento proximal”, descrita pela primeira vez pelo psicólogo Lev Vygotsky nas décadas de 1920 e 1930.

Você provavelmente está familiarizado com a expressão “no flow”, que se refere a um estado de criação quando tudo o que você faz sem esforço parece ficar perfeito, e quando você nem entende como está fazendo aquilo tão bem. É ótimo quando isso acontece, mas aqui eu estou falando sobre um momento diferente: a zona desafiadora que você abraça ativamente, a fim de experimentar uma luta. 

Quando você está começando a lutar, pode recorrer a um conjunto de práticas. Elas vão oferecer a orientação de que você precisa para evitar uma luta vã e para enfrentar as lutas que o ajudarão a longo prazo. A forma mais fácil de orientação é buscar a ajuda de alguém mais experiente. Isso parece óbvio, mas como os discursos sobre a criatividade recaem com frequência no mito do gênio solitário, que é naturalmente dotado em seu ofício, é importante que eu diga explicitamente: você não precisa sofrer sozinho, não precisa descobrir tudo solitariamente. Essa consciência foi o que tornou tão valioso o conselho que recebi de Nicole Kahn. Ela nomeou o “poço do desespero” e me lembrou que ele é normal, o que me ajudou a sair dele.

Todo processo parece misterioso até que você tenha suas próprias experiências e reflita sobre elas. Você descobrirá que, no trabalho criativo, a luta produtiva acontece em momentos críticos determinados — a ponto de serem quase previsíveis. Um desses momentos é enquanto você dá sentido às suas observações e descobertas para definir qual direção seu trabalho deve tomar. Outro é quando você ou sua equipe estão tentando convergir ou decidir. Mesmo se você estiver trabalhando por conta própria, conciliar perspectivas concorrentes é simplesmente difícil. Ninguém pode afirmar com certeza se você está tomando ou não a decisão “certa”. Outro momento que comumente provoca luta é receber uma crítica ou um feedback negativo.

(Imagem da capa: Ten Speed ​​Press / Penguin Random House)

Uma das maneiras de aprender que os tempos difíceis são universalmente desafiadores é trabalhando ao lado de profissionais mais experientes. Logo, você começará a antecipar esses momentos para si mesmo. Outra forma de conseguir orientação é fazendo uso de “andaimes”, um conceito profundamente enraizado na maneira como ensinamos e aprendemos na Stanford d.school (instituto de Design Thinking que faz parte da Universidade de Stanford).  Katie Krummeck, uma designer da Stanford d.school que trabalha com educadores em todo o mundo, costuma ser a primeira pessoa a introduzir novos métodos de design em comunidades escolares. Segundo ela, “muitas vezes as pessoas abordam seus problemas tentando desenhar a solução a partir de dentro deles. Quando você faz isso sem novas motivações, sem outros enfoques ou sem estímulos de fora, você fica inerentemente limitado àquilo que já sabe fazer. Com um pouco de estímulo criativo e de estrutura externa, você pode invocar para dentro do seu trabalho algumas novas perspectivas que não teriam surgido sem esse suporte”. 

À medida que você continuar a desenvolver abordagens novas e pessoais para apoiar e expandir seu próprio trabalho criativo, lembre-se de que, embora as descobertas sejam ótimas, é vencendo dificuldades que você chega lá. A descoberta dessa tensão — a coisa que você tanto quer é algo que você não quer que aconteça tão facilmente — é simplesmente uma das grandes ironias, alegrias e talvez até mistérios da criatividade. Abra espaço para permanecer nessa tensão, em uma luta árdua para produzir um trabalho mais impactante, bonito ou satisfatório agora e no futuro.

SOBRE A AUTORA

Sarah Stein Greenberg é diretora executiva da Stanford d.school. Ela lidera uma comunidade de designers, professores e outros pensadores inovadores que ajudam as pessoas a desbloquear suas habilidades criativas e aplicá-las no mundo.