POR MIKE DUIGNAN E ADAM TALBOT

Na corrida para os Jogos Olímpicos Rio 2016, a comunidade de Vila Autódromo, localizada na Zona Oeste, foi parcialmente destruída devido a construção do parque olímpico. Moradias foram demolidas e centenas de famílias foram pressionadas a sair.

Um residente de longa data, Luiz Claudio Silva, perdeu a casa que havia construído com sua esposa ao longo de duas décadas. “Onde as Olimpíadas passam”, disse ele em 2018, “há um rastro de demolições, de destruição de histórias de vida … isso é muito claro, é óbvio, as únicas pessoas que não veem são as que não querem.”

Silva é parte das 22.059 famílias despejadas na preparação para os Jogos do Rio. E sua história não é única.

Jovens e empresas locais foram despejados para sediar os Jogos de Londres 2012, idosos tiveram suas casas destruídas para dar lugar ao novo Estádio Nacional em Shinjuku, antes de Tóquio 2020, e até mesmo pessoas desabrigadas sofreram com a perda de seu acampamento por conta do planejamento para os Jogos de Los Angeles 2028. A desocupação é tão olímpica quanto medalhas e recordes. Começa no estágio de planejamento, se estende durante o evento, e os efeitos são um legado do pós-jogos. 

A FASE DE PLANEJAMENTO

O planejamento para sediar os Jogos Olímpicos é uma tarefa gigantesca. Normalmente leva cerca de uma década, com uma quantidade significativa desse tempo gasto na construção de infraestrutura física, de estádios a redes de transporte. Para o Rio 2016, a cidade instalou um sistema BRT para conectar diferentes partes da cidade às zonas olímpicas. Em preparação para os Jogos de Paris 2024, uma ampla construção está em andamento em várias áreas da capital francesa para construir a Vila dos Atletas e a Vila da Mídia.

Sediar os jogos tende a ser visto como uma oportunidade de regeneração urbana, e de direcionar construções para áreas carentes. O sistema BRT do Rio foi responsável por cerca de 20% de todos os despejos na cidade, incluindo a remoção de comunidades inteiras.

Moradores e negócios em Saint-Ouen, um bairro pobre no norte de Paris, foram informados de que precisam sair para a construção começar. Despejadas logo no processo de planejamento, essas comunidades têm pouco ou nenhum acesso a quaisquer benefícios futuros que as edificações possam trazer.

DURANTE O EVENTO

As cidades-sede com frequência fazem gastos com turismo. Empresas locais e residentes empreendedores próximos aos locais dos eventos costumam procurar formas de ganhar dinheiro rápido. No Rio, vendedores ambulantes serviram caipirinha, barracas de churros marcaram presença, e alguns cariocas venderam churrasco de suas varandas para espectadores famintos.

No entanto, esses empreendedores são frequentemente proibidos de usar a marca dos Jogos. Para começar, eles sequer têm acesso aos turistas devido à forma como a cidade é reorganizada durante os eventos. As atividades esportivas e culturais oficiais acontecem em zonas especialmente construídas, para as quais o Comitê Olímpico Internacional (COI) oferece direitos exclusivos a patrocinadores, apoiadores e fornecedores de mega-corporações.

Os visitantes são incentivados a permanecer nessas zonas. Eles são transportados entre elas por uma rede de transporte olímpico que efetivamente exclui a comunidade local. Isso não apenas perturba o dia a dia dos moradores, mas também reconfigura a cidade de uma forma que desloca a população existente.

O LEGADO

O legado é geralmente citado como justificativa para esses programas de transformação urbana e seu custo concomitante. Londres 2012,por exemplo, foi apresentado como as Olimpíadas do Legado, com o então secretário do Exterior, Jack Straw, prometendo os Jogos como “uma força para a regeneração”.

Mas os legados não são exclusivamente positivos. Mesmo com o dinheiro gasto e os preparativos em andamento, muito se fala sobre as oportunidades perdidas. Seja investindo em instalações esportivas de base ou desenvolvendo experiências turísticas sustentáveis, fica a sensação de que o investimento e a energia destinados aos Jogos seriam mais bem empregados em outro lugar.

Depois do fato, esse sentimento é frequentemente confirmado. Estádios recém-construídos se transformam em elefantes brancos.

O West Ham United, clube de futebol da Premier League, ainda é subsidiado por contribuintes para usar o Estádio Olímpico quase uma década depois — em um acordo feito para garantir que o estádio não permaneça constrangedoramente vazio.

A infraestrutura de transporte construída para os Jogos nem sempre traz benefícios a longo prazo. No Rio, apesar dos bilhões gastos em ônibus e trens novinhos em folha, os cortes nos serviços existentes revelaram que a mobilidade urbana piorou após os Jogos, especialmente para as comunidades mais pobres.

Existem alguns benefícios para os cidadãos depois das Olimpíadas, como novos bairros culturais que aumentam os fluxos de turistas. E resultados menos tangíveis, como o aumento do orgulho cívico ou o desenvolvimento de habilidades por conta do voluntariado durante o evento.

Devido à intensa atenção da mídia e afiliação às Olimpíadas, há um aumento nos preços dos imóveis e nos valores de aluguel de propriedades residenciais e comerciais. Comunidades mais pobres que escaparam do despejo antes dos Jogos, geralmente estão afastadas das áreas que recebem o maior benefício econômico.

O desenvolvimento do turismo a longo prazo também sofre. Os turistas visitam as cidades para ter um vislumbre de algo novo e culturalmente específico de um lugar. A gentrificação pós-olímpica corrói a oferta cultural local: as pequenas empresas, que desempenham um papel fundamental na produção cultural, são excluídas, resultando em uma experiência turística que é, em última instância, menos autêntica.

É por esse motivo que populações anfitriãs vetam a própria ideia de sediar os Jogos quando têm a opção — como aconteceu recentemente em Calgary e Hamburgo, entre outros. Assim, o projeto olímpico corre perigo, porque pode não ser compatível com o desenvolvimento moderno inclusivo e sustentável.

De fato, o COI reconhece isso e está tentando implementar reformas. A instituição sugere que futuros jogos devam considerar o planejamento e as necessidades de desenvolvimento local. Ainda resta saber se essa retórica levará a ações concretas. 

SOBRE OS AUTORES

Mike Duignan é chefe de departamento, leitor de eventos e diretor do Observatório de Direitos Humanos e Grandes Eventos da University of Surrey e Adam Talbot é professor de esportes e gerenciamento de eventos na Coventry University . Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original .