Por que adoramos coisas que nos causam repulsa? A ciência explica

O cérebro funciona de maneiras misteriosas...

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Bradley J. Irish 4 minutos de leitura

O Halloween é uma época para celebrar e abraçar coisas que nos dão nojo ou nos assustam, de filmes de terror slasher a casas assombradas cheias de tripas e sangue falso.

Mas a atração por coisas que nos causam repulsa não está restrita ao Dia das Bruxas.

Basta trocar de canal na TV e você verá programas de “culinária aventureira”, nos quais os participantes têm que comer diversos tipos de comidas que embrulham o estômago; reality shows que mergulham profundamente no dia a dia profissional de dermatologistas que retiram espinhas e comédias que exploram o humor mórbido e de mau gosto para fazer os espectadores rirem. E, o mais extremo, existem sites que exibem imagens reais de morte e desmembramento para quem quiser vê-las.

Por que tantas pessoas são atraídas por coisas que deveriam fazê-las se sentirem horrorizadas? A ciência moderna tem a resposta, e tem tudo a ver com a forma como o sentimento de repulsa age em nosso cérebro.

O QUE É REPULSA?

A repulsa, ou nojo, é fundamentalmente um sentimento de aversão: sinaliza que algo pode ser prejudicial ao seu corpo e o incentiva a evitá-lo.

Os cientistas acreditam que a repulsa originalmente estava relacionada à comida. Charles Darwin observou “a facilidade com que esse sentimento é despertado por qualquer coisa com aparência, odor ou natureza incomum em nossa comida”.

A repulsa é um sentimento de aversão que sinaliza algo que pode ser perigoso e nos incentiva a evitá-lo.

De acordo com essa teoria, esse sentimento evoluiu lentamente para nos proteger de todos os tipos de coisas que podem nos colocar em contato com patógenos perigosos, como doenças, animais, lesões corporais ou sexo.

Além disso, a repulsa parece ter evoluído ainda mais para nos proteger de coisas que são simbolicamente prejudiciais: violações das regras morais, culturais e dos nossos valores. É por isso que algumas pessoas dizem que se sentem “enojadas” diante de um ato ou fala racista, por exemplo.

Por causa dessas funções reguladoras, ela é muitas vezes conhecida como o “sentimento guardião”, o “sentimento excludente” ou o “sentimento do corpo e da alma”.

O FASCÍNIO PELA REPULSA

Como, então, explicamos o fato de que coisas que nos causam repulsa, às vezes, podem nos atrair?

Pesquisas sugerem que estímulos repulsivos capturam e retêm nossa atenção de forma mais eficaz do que estímulos emocionalmente neutros.

De acordo com as estudiosas de mídia Bridget Rubenking e Annie Lang, isso provavelmente acontece porque, de uma perspectiva evolutiva, parece que “um viés de atenção para coisas que nos causam repulsa – não importa o quão nojentas e repugnantes – faria com que evitássemos substâncias nocivas”. Portanto, embora a repulsa possa ser um sentimento desagradável, ela evoluiu de forma a atrair a atenção das pessoas.

Pesquisas sugerem que estímulos repulsivos capturam e retêm nossa atenção de forma mais eficaz que os emocionalmente neutros.

Mas coisas nojentas não apenas chamam a nossa atenção; elas podem despertar nosso interesse.

A psicóloga Nina Strohminger sugere que o prazer derivado do sentimento de repulsa ou nojo pode ser um exemplo do que tem sido chamado de “masoquismo benigno” – a tendência humana de buscar experiências aparentemente “negativas” com o propósito de desfrutar de “riscos controlados”, como andar de montanha-russa ou comer alimentos extremamente picantes.

De acordo com Strohminger, “parece possível que qualquer sentimento negativo tenha o potencial de se tornar agradável quando é despido da crença de que o que está acontecendo é ruim, produzindo uma excitação fisiológica que é, em si, emocionante ou interessante”.

Portanto, não somos apenas predispostos a nos sentir atraídos por coisas repugnantes. Há também um mecanismo psicológico que permite que, nas circunstâncias certas, sejamos capazes de apreciá-las. 

A REPULSA SHAKESPERIANA

Abraçar e lucrar com essa atração não é um fenômeno da era digital. Isso já acontecia desde os tempos de Shakespeare.

A notória tragédia “Tito Andrônico” tem tanto sangue quanto os filmes de terror de hoje. Segundo uma estimativa, a peça tem 14 assassinatos (nove deles no palco), seis membros decepados, um estupro (ou dois, ou três, dependendo da maneira que se conta), um enterrado vivo, um caso de insanidade e um de canibalismo – uma média de 5,2 atrocidades por ato, ou uma para cada 97 linhas.

Há um mecanismo psicológico que permite que, nas circunstâncias certas, sejamos capazes de apreciar coisas que nos dão nojo. 

Ao explorar o “apelo problemático da violência desta peça”, a crítica literária Cynthia Marshall questiona: “por que um público, qualquer público, apreciaria as violências de Tito?” A resposta, acredito, deve-se à natureza sedutora da repulsa que psicólogos já documentaram.

Mas não é como se os elisabetanos fossem dessensibilizados, pessoas com uma tolerância maior para a repulsa. Eles a expressavam, mesmo quando se sentiam atraídos por ela. Depois de ver um corpo carbonizado pendurado no armazém de um comerciante, o escritor Samuel Pepys observou que o “agradou muito, embora fosse uma visão repulsiva”.

Como naquela época, hoje, coisas repugnantes continuam a atrair nossa atenção e podem até nos dar prazer. Os horrores presentes em “Tito Andrônico” refletem o fato de que as pessoas no período elisabetano (segunda metade do século 16) viviam em uma cultura que as encorajava a ter contato com imagens repugnantes, mesmo quando sentiam vontade de desviar o olhar.

Acredito que o público de Shakespeare abraçou o prazer da repulsa, assim como o público moderno faz ao assistir aos filmes da franquia “Halloween”.

O sentimento humano que nos protege de perigos também permite que experimentemos um prazer perverso com as mesmas coisas das quais precisamos ser protegidos.


SOBRE O AUTOR

Bradley J. Irish é professor associado de inglês na Arizona State University. saiba mais