Startup Parade recicla roupas íntimas de qualquer marca

Crédito: Fast Company Brasil

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É fácil consertar, revender ou doar sapatos e roupas velhas. Mas e as roupas íntimas usadas? A maioria deles vai direto para o lixo, o que significa que cerca de 5 mil toneladas de roupas íntimas acabam em um aterro sanitário todos os dias.

Esse pode até parecer um problema menor, porque calcinhas são pequenas. Mas em escala global, elas representam um grande problema, já que a indústria produz cerca de 150 bilhões de pares de roupas íntimas a cada ano. A maioria delas contêm fibras sintéticas à base de plástico, como nylon e poliéster, materiais que não são biodegradáveis e que permanecem nos aterros por centenas de anos, quebrando-se em pequenos fragmentos chamados microfibras, que, por sua vez, acabam contaminando a água, envenenando animais e humanos.

(Crédito: cortesia da Parade)

A Parade, uma startup de roupas íntimas de apenas dois anos, quer mudar essa situação. A marca está lançando um programa de reciclagem que aceita roupas íntimas de qualquer marca. Qualquer pessoa pode solicitar um selo de frete grátis e uma sacola biodegradável, que serão enviadas à TerraCycle para serem classificadas, limpas e processadas em materiais que poderão ser reaproveitados, por exemplo, no isolamento de casas ou em roupas de cama. Quem participar ainda ganha um cupom de 20% para comprar produtos da Parade. Cami Téllez, fundadora e CEO da Parade, diz que este é um passo importante para tornar essa indústria mais sustentável, embora seu objetivo final seja criar um sistema onde as roupas íntimas possam ser recicladas em novas roupas íntimas, em um modelo totalmente circular.

Exatamente dois anos atrás, quando tinha 21 anos, Téllez abandonou a Universidade de Columbia para lançar a Parade. Como típica empreendedora da Geração Z, ela acreditava que muitas marcas tradicionais no mercado de lingerie (que totaliza US$ 250 bilhões) não atendiam às necessidades da nova geração de consumidores. E os problemas vão da falta de inclusão dos diferentes corpos à publicidade excessivamente sexualizada. Com a Parade, Téllez pretende abordar questões que sejam relevantes para seus pares. “A roupa íntima está neste espaço de alto potencial, porque atravessa questões como sexo, gênero, política, moda e sustentabilidade”, diz ela.

(Crédito: cortesia da Parade)

A Parade também utiliza matéria-prima produzida a partir do nylon recolhido do chão das fábricas que cortam tecidos, além de utilizar Tencel, um tecido biodegradável feito de polpa de madeira. Ainda assim, muitos clientes começaram a escrever para a empresa perguntando o que fazer quando as roupas íntimas da Parade chegavam ao fim de sua vida útil. (Várias outras marcas de roupas íntimas também lançaram programas de reciclagem, incluindo a The Big Favorite e a Knickey.)

Para o programa da Parade, a Téllez fez parceria com a TerraCycle, que recicla produtos que não podem passar por programas de reciclagem comuns, como pontas de cigarro e sacos de batatas fritas. A partir de agora, os consumidores poderão acessar o site da Parade para solicitar uma etiqueta de envio e uma sacola biodegradável, que podem ser preenchidas com roupas íntimas usadas de qualquer tipo, de qualquer marca. As roupas íntimas não precisam estar em boas condições, mas a Parade pede que os clientes as lavem antes de enviar.

A roupa íntima será, então, enviada para uma das Instalações de Recuperação de Materiais da TerraCycle, onde será classificada por tipo de material e higienizada. Em seguida, será triturada mecanicamente e transformada em um material reciclado chamado “têxtil de má qualidade”. A TerraCycle vende este produto de má qualidade para empresas que o utilizam em produtos como isolamento residencial, roupas de cama, estofamento de carpetes, móveis estofados e interior de veículos.

A TerraCycle vende uma caixa Zero Waste Clothing (roupas zero poluentes) que pessoas e empresas podem comprar para encher com roupas, incluindo roupas íntimas, que serão recicladas, mas que, dependendo do tamanho da caixa, custa entre US$ 123 e US$ 313. Neste caso, a Parade está arcando com o custo da reciclagem, que é totalmente gratuita para os consumidores. Para a Téllez, era importante disponibilizar esse programa para todos os consumidores, e não apenas para os clientes da Parade. “A indústria de roupas íntimas passou muito tempo sem pensar sobre o fim da vida útil de um produto”, diz ela. “Queríamos fazer com que descartar com responsabilidade as roupas íntimas fosse o mais fácil e simples possível, para qualquer pessoa.”

Como relatei, o grande avanço da TerraCycle foi persuadir as marcas a pagar pela reciclagem em nome dos consumidores, como parte de seus esforços de sustentabilidade. No entanto, as marcas geralmente colocam um limite no quanto estão dispostas a gastar em um programa de reciclagem específico. No ano passado, ela enfrentou um processo de uma organização ambiental sem fins lucrativos por não ter clareza sobre essas restrições orçamentárias. Em resposta, a TerraCycle disse que deixaria claro para os consumidores se a participação em um programa específico fosse limitada. Nesse caso, a Parade diz que não estabeleceu limites para este programa e que está comprometida em executá-lo a longo prazo.

(Crédito: cortesia da Parade)

Mas, em última análise, Téllez reconhece que este programa de reciclagem é apenas um passo intermediário nas metas de sustentabilidade da marca. A Parade quer criar um sistema totalmente circular, em que as roupas íntimas possam ser recicladas e transformadas de volta em novas roupas íntimas, o que significa que as matérias-primas não precisariam ser usadas para novos produtos.

Atualmente, a indústria de vestuário de modo geral está trabalhando em soluções de reciclagem de tecido para tecido. Exemplo disso é a “Máquina Verde”, uma tecnologia desenvolvida pelo governo de Hong Kong e apoiada pela marca H&M, que desfia os tecidos e os volta a fiar. A Levi’s, por sua vez, passou a fabricar seus jeans 501 com um novo material chamado Circulose, que feito a partir de jeans velhos liquefeitos e transformados em polímeros de viscose. Por enquanto, todas essas tecnologias ainda estão em seus estágios embrionários e levarão tempo para ganhar o mundo.

Téllez está de olho nessas novas abordagens, mas até que elas se difundam, ela acredita que um programa como o do TerraCycle é um passo importante. “O passo imediato é manter o máximo possível de roupas íntimas fora dos aterros”, diz ela.


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