À medida que a pandemia arrefece nos EUA, o presidente Biden encoraja os vacinados a saírem sem máscara, mas dispensar o uso em espaços públicos ainda deixa os norte-americanos em dúvida.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a ciência sugere que os vacinados podem frequentar a maioria dos ambientes internos e externos em segurança sem usar máscara. Mesmo assim, muitas pessoas optam pelo recurso e este hábito está relacionada a questões culturais.

“Em regiões mais “coletivistas” dos EUA e do mundo, as pessoas tendem a usar mais a máscara, demonstrando preocupação com as necessidades do grupo”

Vale ressaltar que no Brasil a recomendação dos especialistas da saúde é a de que a população continue usando máscaras, inclusive as vacinadas, devido ao estágio das vacinações, ainda muito mais lento do que o de países como os EUA, e aos altos índices de contágio e mortalidade que ainda assolam o país.

Em regiões mais “coletivistas” dos Estados Unidos e do mundo, as pessoas tendem a usar mais a máscara, demonstrando preocupação com as necessidades, objetivos e interesses do grupo. Nas regiões nas quais a população é mais propensa aos interesses individuais, o uso das máscaras é menor. Essa foi uma das principais descobertas de uma pesquisa publicada por acadêmicos do MIT.

Os pesquisadores fizeram quatro estudos com milhares de participantes de todos os 3.141 condados dos Estados Unidos e em 67 países durante a pandemia. Jackson G. Lu, professor assistente da MIT Sloan School of Management, conduziu o estudo e ressalta que “é importante compreender como questões culturais fundamentalmente modelam como as pessoas respondem, não somente a esta pandemia, mas também às crises no futuro”.

As diferenças entre culturas com maior noção de coletividade e as culturas mais propensas ao individualismo é estudada há décadas por psicólogos. Um índice foi elaborado para definir esses espectros considerando alguns fatores, como: porcentagem de idosos que vivem sozinhos, proporção de pessoas que viajam de carona em relação àquelas que viajam sós, e quantos cidadãos não têm filiação religiosa.

Os estudiosos acreditam que essas tendências culturais estão relacionadas à história e às características geográficas da região.

Ao leste das Montanhas Rochosas, nos Estados Unidos e no Canadá, as chamadas Grandes Planícies ainda são pouco povoadas, então os habitantes tendem a ser mais autossuficientes e individualistas por ali. Na Nova Inglaterra, as raízes religiosas puritanas favoreceram o espírito coletivo.

“A coisa mais impressionante para mim foi a consistência de nossas descobertas”, conta Jackson Lu, destacando que embora os casos de Covid-19 nunca tenham sido realmente muito altos no Havaí, as pessoas usaram máscara durante toda a pandemia. No arquipélago, a maioria da população (62%) imigrou de países asiáticos e tem tendências mais comunitárias.

Olhando para o mundo, uma dinâmica semelhante aconteceu, segundo as análises. O uso de máscaras era alto em países como Coréia do Sul e Tailândia, mas era baixo em países como Alemanha e Reino Unido.

“Em outras regiões, não usar proteção é uma forma de as pessoas mostrarem que valorizam a escolha e a liberdade individual. Isso ficou evidente nos protestos anti-máscara no Reino Unido”

Os pesquisadores explicam que em lugares coletivistas, usar máscara é um símbolo de solidariedade, sinalizando que a luta contra a pandemia depende da comunidade. Em outras regiões, não usar proteção é uma forma de as pessoas mostrarem que valorizam a escolha e a liberdade individual. Isso ficou evidente nos protestos anti-máscara em agosto do ano passado no Reino Unido. Os manifestantes seguravam cartazes dizendo: “Máscaras são focinheiras” (“Masks are muzzles”).

Claro, a cultura não é o único fator que determina se os indivíduos usam EPI. Globalmente, o uso de máscaras tende a ser maior em países que impõem regras de maneira mais rígida, e cuja população é mais instruída e democrática.

“Em muitos países asiáticos pró-sociais como o Japão, existe a expectativa de que você deve usá-la quando estiver resfriado para proteger as outras pessoas”, comenta o professor do MIT. “Acho inteiramente possível que em estados altamente coletivistas nos Estados Unidos, como o Havaí, muitas pessoas ainda possam continuar a usar máscaras por muito tempo depois que o CDC suspender as ordens.”

Shinobu Kitayama, professor de psicologia da Universidade de Michigan especializado em diferenças culturais, não tem certeza se a prática continuará nos EUA. Ele enfatiza que existem muitas diferenças culturais entre eles e os países asiáticos, como Japão e Cingapura, onde o uso de máscaras é comum em épocas sem pandemia. Por um lado, os americanos gostam de se comunicar com o rosto inteiro, e as máscaras atrapalham a exibição de sinais importantes de vínculo social, como o sorriso.

“Questiono quanto tempo os americanos aguentam usar máscara sem que isso comprometa a capacidade de eles se abrirem às interações sociais diárias. As expressões faciais também são uma forma de os americanos mostrarem decência e gentileza”, diz Kitayama.

SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, é repórter sênior da Fast Company. Ela vive em Cambridge, Massachusetts.