As vendas de jardins hidropônicos dispararam durante a pandemia. Mas será que soluções de alta tecnologia como essas servem apenas para aumentar a desigualdade?

Quando a COVID-19 atingiu a população no ano passado, as pessoas correram para os supermercados para estocar alimentos e descobriram que muitos itens de prateleira, como feijão, arroz e farinha, estavam esgotados. Foi a primeira vez que muitos de nós fomos forçados a pensar de onde vem nossa comida – e quão vulnerável o sistema alimentar global realmente é.

Essa escassez de alimentos estimulou muitas pessoas a cultivar os próprios alimentos pela primeira vez. Alguns plantaram vegetais em seus quintais e janelas, enquanto outros optaram por jardins hidropônicos de alta tecnologia.

Nos anos anteriores à pandemia, startups desenvolveram máquinas compactas de jardinagem auto-irrigadas e autofertilizantes com boa estética — o que serviu de pontapé. Durante os lockdowns, as vendas desses produtos – que custam a partir de US$ 800 – dispararam, levando os capitalistas de risco a despejarem milhões no setor.

Mas, à medida que a era da COVID chega ao fim, resta saber se esses jardins de alta tecnologia têm durabilidade ou se foram apenas uma novidade de curta duração. E, de forma mais ampla, vale a pena perguntar se esses dispositivos podem ser uma ferramenta para tornar a agricultura mais sustentável e justa, ou se eles são apenas mais um brinquedo para a indústria dos alimentos orgânicos.

A REVOLUÇÃO HIDROPÔNICA

A hidroponia, que significa simplesmente cultivar plantas em uma solução de água e nutrientes em vez de solo, existe pelo menos desde 600 aC. Mas, no final da década de 1920, William Gericke, da Universidade da Califórnia, modernizou essas técnicas, criando fazendas que requerem menos espaço e até 95% menos água do que fazendas tradicionais, mas rendem colheitas muito maiores por meio da otimização de luz, água e nutrientes. Durante a Segunda Guerra Mundial, os militares dos EUA construíram jardins hidropônicos para cultivar vegetais para as tropas em locais que não eram adequados para a agricultura tradicional. Um exemplo disso é a Ilha de Ascensão, um posto de reabastecimento no Oceano Atlântico, onde os soldados cultivavam centenas quilos de pepinos, tomates, alface e rabanetes todos os meses, evitando a desnutrição.

A COVID-19 levou alguns países a usar a hidroponia para lidar com as interrupções na cadeia de abastecimento global. Holanda e Cingapura, que limitaram terras agrícolas e dependem em grande parte das importações, investiram bilhões durante a pandemia para construir fazendas hidropônicas industriais em telhados e estacionamentos. Nos Estados Unidos, a hidroponia ainda é um pequeno negócio, com cerca de 3 mil empresas gerando cerca de US$ 800 milhões em receitas, uma pequena fatia dos US$ 451 bilhões da agricultura tradicional. Mas os analistas estão apostando que o setor está prestes a crescer.

Nos últimos cinco anos, um grupo de startups – incluindo Rise Gardens, Gardyn, Lettuce Grow, Aerogarden e Click-and-Grow – começaram a desenvolver sistemas hidropônicos que cabem dentro de uma casa. Isso é um avanço na escala das fazendas hidropônicas do século passado.
Os equipamentos são caros e, antes da pandemia, era difícil convencer os consumidores a gastar cerca de US$ 1 mil em uma máquina que poderia levar anos para ser paga. Mas a COVID-19 mudou o jogo, à medida que as pessoas em todo o mundo se preocupavam com a escassez de alimentos. “A pandemia fez com que as pessoas prestassem atenção na origem de seus alimentos e acelerou seu interesse em produzi-los por conta própria”, disse Nina Ichikawa, diretora executiva do Berkeley Food Institute, que promove a igualdade alimentar. “Essa nova consciência é uma coisa boa.”

Muitas dessas startups dobraram ou triplicaram suas vendas no ano passado, e alguns investidores estão capitalizando esses juros. A True Ventures, que financia a Peloton e a Blue Bottle, investiu US$ 2,6 milhões na Rise Gardens; a Gardyn levantou US$ 10 milhões da JAB Holding Company, maior acionista da Keurig. E um pouco antes da pandemia, a Click & Grow, da Estônia, recebeu US$ 11 milhões em financiamento da Y Combinator e do Ingka Group, que opera 367 lojas Ikea na Europa.

UM JARDIM HIDROPÔNICO PESSOAL

Apesar da minha inabilidade para criar plantas, eu decidi testar o Lettuce Grow, um jardim hidropônico alto de quase dois metros que parece uma escultura branca com plantas crescendo feito uma obra de arte. Fiquei impressionado com a quantidade de alimento que cultivei: minha família de três pessoas agora come alfaces frescas em cada refeição. Nossa colheita é tão abundante que nós tivemos que compartilhar nossos vegetais com os vizinhos.

A beleza dos sistemas hidropônicos é que eles são projetados para funcionar por conta própria, com mínima intervenção do proprietário. Minha máquina rega e fertiliza as plantas automaticamente, bombeando uma solução rica em nutrientes através do sistema, durante 15 minutos a cada hora. Anéis de luz LED de alta eficiência controlam a quantidade de luz que as plantas recebem, adicionando apenas alguns dólares à nossa conta mensal de eletricidade. Tudo o que preciso fazer é encher a base com água e adicionar algumas colheres de nutrientes toda semana.

Quanto às sementes, todas essas startups de hidropônicos também são, efetivamente, programas de assinatura. Você precisa comprar sementes ou mudas da empresa por cerca de US$ 2 cada para repor as plantas colhidas. Isso leva de três semanas a vários meses, dependendo do ciclo de crescimento. “Você pode desfrutar da beleza de ver os seres vivos crescerem sem precisar de nenhum conhecimento em agricultura”, diz Jacob Pechenik, que cofundou a Lettuce Grow em 2019 com a atriz Zooey Deschanel.

E essas startups não estão apenas focadas em tornar as máquinas menores: elas também as tornaram mais bonitas. A Lettuce Grow, por exemplo, trabalhou com o designer Pip Tomkins – que anteriormente projetou o Nokia M Series – para criar um estande com vegetais e ervas em cascata nas laterais, como em um jardim vertical. A Rise Gardens fez parceria com a TBD Innovations, uma empresa formada por ex-designers da IDEO, para criar um sistema que se assemelha a uma estante branca com fileiras de plantas. “Sabíamos que nosso jardim precisava ter uma aparência atraente para que as pessoas considerassem levá-los para casa”, disse Hank Adams, fundador e CEO da Rise Gardens. “Queríamos que fosse bonito e minimalista, para que você ficasse feliz em tê-lo tanto em uma quitinete como em uma casa grande.”

A Rise Gardens, a Gardyn e a Lettuce Grow criaram sistemas modulares, para que os clientes possam começar com apenas alguns níveis de plantas e expandir com o tempo. Pechenik diz que seu objetivo era que a Lettuce Grow substituísse até um quinto da produção doméstica. (Posso afirmar que nossa unidade de 24 plantas faz isso facilmente para uma família de três.) Para aqueles que podem pagar, essas máquinas geram frutas e vegetais que são muito mais saborosos e nutritivos do que o que você normalmente compraria em um supermercado. Estudos mostram que a maioria dos produtos perde 30% de seus nutrientes três dias após a colheita, e muito do que encontramos na mercearia é muito mais antigo do que isso.

A hidroponia oferece uma alternativa à agricultura industrial, que tem dominado nosso sistema alimentar desde os anos 1960. A agricultura intensiva é ruim para o planeta porque esgota o solo, consome muita água, lança pesticidas tóxicos no meio ambiente e contribui para o desmatamento. O transporte de alimentos pelo país também gera emissões de carbono e cria muitos resíduos, pois a produção estraga ao longo do caminho. Metade de toda a produção dos EUA é jogada fora. Para mim, uma das melhores partes de ter um jardim hidropônico em casa é que praticamente eliminamos o desperdício e temos que fazer menos idas ao supermercado.

DESIGUALDADE ALIMENTAR

Por enquanto, a maioria desses dispositivos foi destinada a pessoas interessadas em jardinagem em pequena escala. Mas os fundadores acreditam que seus produtos têm a capacidade de romper com nosso sistema alimentar falido, se forem capazes de se expandir em grande escala. “Não estamos no ramo de jardinagem”, afirma FX Rouxel, fundador e CEO da Gardyn. “Estamos tentando reinventar como as pessoas podem cultivar seus próprios alimentos em grande escala. Se tivermos soluções que sejam convincentes o suficiente, acreditamos que podemos mudar os hábitos alimentares das pessoas e reduzir sua dependência do supermercado.” A Gardyn foi lançada no início de 2020 e, em seu primeiro ano, Rouxel diz que suas centenas de clientes cultivaram mais de 30 toneladas de produtos.

Mas Ichikawa, do Berkeley Food Institute, argumenta que devemos ser céticos ao pensar se esses sistemas hidropônicos de ponta podem realmente mudar o sistema alimentar. A maioria das pessoas não tem dinheiro para investir centenas de dólares nesse aparelho, e são exatamente essas as pessoas que mais poderiam se beneficiar. Um décimo das famílias sofre de insegurança alimentar e mais de 23,5 milhões de americanos vivem em bairros sem acesso fácil a um supermercado. “Os ricos estão dispostos a gastar seu dinheiro em muitas tecnologias inovadoras que não necessariamente impactam o resto da indústria para melhor ou para pior”, diz ela. “É apenas uma nova oportunidade de negócio para essas startups.”

Ela ressalta que a hidroponia não precisa ser tão cara ou complicada. Na verdade, muitas inovações em torno desse tipo de cultivo de pequena escala econômica vieram dos produtores de cannabis, muitos dos quais eram pessoas não-brancas que cultivavam às escondidas. Empreendedores e cientistas têm desenvolvido hidropônicos independentes a preços acessíveis na África, especialmente no Quênia. Startups como a Hydroponics Africa construíram sistemas que não requerem eletricidade e usam materiais baratos e disponíveis localmente, incluindo bandejas de alumínio resistentes a fungos. “Essas startups [nos EUA] estão criando uma versão mais vistosa e sofisticada de sistemas que já existem há muito tempo”, afirma Ichikawa. “Existem muitas soluções de baixo custo que surgiram do zero, das comunidades que dependem dessas tecnologias para sobreviver.”

Por enquanto, Pechenik tenta disponibilizar sua tecnologia para mais pessoas: a cada 10 aparelhos Lettuce Grow vendidos, um é doado a escolas, organizações sem fins lucrativos e organizações comunitárias. Ele diz que já centenas delas já foram distribuídas, junto com US$ 1 milhão em doações. A Rise Garden, por sua vez, lançou uma máquina menor com valores a partir de US$ 279. “Eu a comparo aos primeiros dias da computação pessoal, quando um laptop era muito caro, mas agora está amplamente disponível”, diz Adams. “À medida que os jardins hidropônicos se expandem, o custo de fabricação cairá.”

Uma resposta pode vir de sistemas grandes o suficiente para alimentar uma comunidade, em vez de uma única família e que, portanto, são mais econômicos. Veja, por exemplo, a Freight Farms, que estreou a primeira fazenda hidropônica dentro de um contêiner de transporte em 2012. A empresa vende contêineres de US$ 130 mil que podem gerar a mesma quantidade de alimentos que três hectares e meio de terras agrícolas, o suficiente para alimentar centenas de pessoas. A longo prazo, esses sistemas são mais econômicos devido à sua escala e podem ajudar a resolver problemas de insegurança alimentar. A cidade de Boston, por exemplo, comprou cinco sistemas Freight Farm para o bairro de Mattapan, onde 20% da população vive abaixo da linha da pobreza, criando uma cooperativa agrícola de alta tecnologia. “Nossas fazendas estão sendo usadas como parte do redesenvolvimento da comunidade”, comenta Rick Vanzura, CEO da Freight Farms.

Durante a pandemia, as vendas da empresa triplicaram e ela espera que os negócios tripliquem novamente em 2021. No ano passado, ela arrecadou US$ 15 milhões em financiamento da Série B, elevando seu total para US$ 28 milhões. Vanzura acredita que, para que a hidroponia tenha impacto na agricultura, serão necessárias fazendas de diferentes tamanhos, que vão desde jardins individuais a fazendas industriais. Na verdade, a Freight Farms deu conselhos à Lettuce Grow sobre as técnicas de cultivo, com base em seus dados coletados ao longo de uma década. “Precisamos cooperar como uma indústria para aproveitar o melhor que cada um de nós faz e ajudar uns aos outros a melhorar”, explica ele.

À medida que a popularidade da hidroponia cresce, Ichikawa afirma que é importante lembrar que não é a única, nem a melhor, solução para o cultivo de alimentos para uma comunidade. Os pobres tendem a ser mais afetados por problemas no sistema alimentar e sofrem de problemas de saúde devido à falta de acesso a alimentos nutritivos. É por isso que organizações como a dela defendem a soberania alimentar, o que significa empoderar as comunidades para assumir o controle de seu próprio abastecimento de alimentos por meio de estratégias como a propriedade local de mercados e quintais ou hortas comunitárias.

Embora os sistemas hidropônicos de médio porte possam ser uma ferramenta para combater a insegurança alimentar, ela teme que isso possa criar uma barreira de entrada, fazendo com que o acesso a alimentos frescos pareça ainda mais fora de alcance. “A soberania alimentar pode nos proteger totalmente contra as instabilidades de pandemias ou mudanças climáticas, então qualquer forma de fazer com que as pessoas sintam autonomia sobre seu suprimento de alimentos é uma coisa boa”, diz Ichikawa. “Mas você não precisa de um sistema hidropônico sofisticado para isso. É possível fazer facilmente com um vaso de terra em uma janela.”

SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, é repórter sênior da Fast Company. Ela vive em Cambridge, Massachusetts.