Durante décadas, a porcentagem de pessoas em todo o mundo vivendo em extrema pobreza — parcela que sobrevive com menos do que a quantia ridiculamente baixa de US$ 1,90 por dia — tem caído. Com a pandemia, porém, essa tendência se reverteu. Em um relatório anual que analisa o progresso mundial nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a Fundação Bill e Melinda Gates afirma que mais 31 milhões de pessoas foram empurradas para a extrema pobreza por causa do COVID-19.

“Há pessoas que saíram da pobreza nos últimos anos ou na última década por meio do crescimento e de todo o progresso obtido, mas, infelizmente, voltaram a ela”, disse Vishal Gujadhur, vice-diretor de política de desenvolvimento e finanças na Fundação Gates.

A recuperação econômica da pandemia também está ocorrendo de maneira desigual: embora, em 90% dos países ricos, as pessoas devam voltar aos níveis de renda per capita pré-pandemia em 2022, o mesmo não é verdadeiro em cerca de dois terços dos países de baixa e média renda. “Eles levarão anos para voltar para onde estavam”, afirma o vice-diretor. Isso significa que a redução da pobreza será lenta: até o final da década, quase 700 milhões de pessoas ainda podem estar vivendo na extrema pobreza.

(Crédito: Fundação Bill e Melinda Gates)

Parte do desafio são os atrasos na aplicação das vacinas contra COVID em países pobres: embora alguns países ricos como os EUA estejam começando a aplicar terceiras doses, apenas cerca de 1% das pessoas em países de baixa renda receberam pelo menos uma delas. “Até que tenhamos uma distribuição mais igualitária da vacina, bem como de outras contramedidas médicas, eu não acredito que vamos voltar a um caminho de recuperação equilibrado”, disse Gujadhur. Portanto, os países ricos precisam doar mais doses de vacinas. “Fizemos as contas e há vacinas suficientes para que a doação aconteça”, diz ele. (Isso é verdade mesmo se o país doador estiver oferecendo a terceira dose.) Somado a um apoio maior da COVAX, uma iniciativa global focada no acesso igualitário às vacinas, as doações podem ajudar a tornar possível a distribuição de mais de 2 bilhões de doses em países de baixa e média renda no primeiro trimestre do próximo ano.

No longo prazo, mais países pobres poderão aumentar sua capacidade de fabricar vacinas — então, quando a próxima pandemia inevitavelmente acontecer, esses países serão capazes de responder mais rapidamente, salvando vidas e impedindo o avanço da pobreza. Na África, por exemplo, o CDC africano (Centro de Controle de Doenças) está trabalhando com parceiros como a Fundação Gates para expandir o sistema regional de desenvolvimento e fabricação de vacinas no continente.

Para ajudar as pessoas a se recuperarem financeiramente, algumas das estratégias usadas durante a pandemia provavelmente devem continuar, como programas de transferência direta de renda. “Os países conseguiram crescer de forma rápida, algo que não se imaginava ser possível há apenas um ou dois anos”, afirma Gujahdur. “Ficou provado que se pode fazer isso em países pobres. É possível atingir grande parte da população de forma rápida.”

SOBRE A AUTORA

Adele Peters é repórter da Fast Company que cobre soluções para alguns dos maiores problemas do mundo, de mudanças climáticas à falta de moradia. Anteriormente, ela trabalhou com a GOOD, BioLite e o programa de Produtos e Soluções Sustentáveis na UC Berkeley, e contribuiu para a segunda edição do livro best-seller Worldchanging: A User’s Guide for the 21st Century. (Leia a matéria original aqui)