POR ALEX KRIEGER 

Desde sua inauguração, o Epcot atrai milhões de turistas. Sua famosa esfera geodésica, a Spaceship Earth, por si já é uma grande atração, mas o parque também reúne diversas culturas e costumes em um único lugar.

No entanto, o que os visitantes do Epcot – que está comemorando seu 50º aniversário – encontram não é exatamente o que Walt Disney idealizou.

Em 1966, Disney anunciou a construção do parque, que é um acrônimo para “Experimental Prototype Community of Tomorrow” (Comunidade Protótipo Experimental do Amanhã). Não se tratava apenas de um parque temático, mas, como explicou o próprio Walt Disney, seria “a criação de um projeto vivo para o futuro”, diferente de “qualquer outro lugar no mundo” – uma cidade inteiramente nova construída do zero.

Walt Disney morreu no fim daquele ano e sua mais nova criação foi reduzida e, por fim, completamente destruída. Porém, quando estava escrevendo meu livro sobre o ideal urbano nos EUA, essa comunidade planejada me chamou bastante atenção.

Desde a chegada dos primeiros colonos, americanos experimentam várias formas de assentamentos. Imaginar novos tipos de lugares para morar é uma tradição americana, e a Disney foi particularmente uma grande expoente.

CIDADE DO FUTURO

Um documentário de 25 minutos produzido pela Walt Disney Enterprises continua a ser o melhor exemplo da visão de Walt.

Nele, Disney – de maneira gentil e pausada, como se falasse para um grupo de crianças – detalhou o que seria construído nos 27.400 acres (pouco mais de 111 mil metros quadrados) de um terreno no centro da Flórida que ele havia adquirido.

Com a mesma retórica dos pioneiros americanos, ele percebeu como a abundância de terras era a peça-chave. Ali, ele poderia pôr em prática tudo o que não pôde fazer na Disneylândia, seu primeiro parque temático em Anaheim, na Califórnia, inaugurado em 1955, e que desde então tem sido afetado pelo rápido crescimento urbano. Ele orgulhosamente revela que o terreno no qual a Disney World seria construída tinha o dobro do tamanho da ilha de Manhattan e era cinco vezes maior do que o Magic Kingdom da Disneyland.

No meio de tantos elementos notáveis do Epcot, uma comunidade para 20.000 pessoas seria construída, composta por bairros que serviriam como uma vitrine de engenhosidade industrial e cívica – um experimento de planejamento, projeto de construção, gerenciamento e governança. Também haveria um parque de escritórios de 1.000 acres para desenvolvimento de novas tecnologias, então, quando, por exemplo, uma inovação no design de refrigeradores fosse desenvolvida, cada família residente no Epcot seria a primeira a receber e testar o produto antes de ser lançado para o resto do mundo.

A presença de um aeroporto permitiria a qualquer pessoa voar diretamente para a Disney World, uma “terra para tirar férias” com acomodações em resort. O complexo central possuiria um hotel de 30 andares, com centro de convenções e lojas temáticas.

Trabalhadores mais modestos poderiam morar nas proximidades, em um anel de prédios altos. Haveria um cinturão de parques e uma zona de lazer ao redor dessa área central, separando os bairros de subúrbio de baixa densidade dos que abrigariam a maioria dos residentes. Não haveria desemprego e muito menos seria uma comunidade para aposentados.

“Não acredito que haja um desafio em qualquer parte do mundo que seja mais importante para as pessoas do que encontrar soluções para os problemas das nossas cidades”, afirma Disney.

O SURGIMENTO DE ‘NOVAS CIDADES’

Durante a década de 1960, a ideia de construir algo novo estava por todo lugar.

Os americanos estavam cada vez mais preocupados com seu bem-estar. E estavam insatisfeitos com os modelos de renovação urbana que existiam — e, principalmente, com suas consequências.

Eles se sentiam inseguros com a crescente pobreza urbana e índices de crimes, além de frustrados com o aumento do tráfego que causava congestionamentos. Para escapar disso, famílias começavam a se mudar para os subúrbios. Entretanto, planejadores urbanos, formadores de opinião e até mesmo cidadãos comuns se mostravam preocupados quanto a ocupação de tantos espaços para empreendimentos de baixa densidade.

Sprawl”, um termo pejorativo para o desenvolvimento urbano mal planejado, estava ganhando popularidade com o surgimento do movimento ambientalista. Na famosa música da década de 1960, “Little Boxes“, Pete Seeger canta: “Little boxes on the hillside, little boxes made of ticky tacky “, comparado construções à pequenas caixas feitas com material barato, uma crítica ao crescimento urbano que ocorria nas cidades americanas.

Surgiu, então, a esperança de que, construir novas cidades, pudesse ser uma alternativa para o crescimento dos subúrbios e o caos em regiões centrais.

Composto majoritariamente por empresários ricos dependentes do sucesso imobiliário, os autointitulados “fundadores de cidades” lideraram o movimento New Towns. Enquanto Disney se preparava para apresentar o Epcot ao mundo, a Irvine Company já estava avançada em seu projeto imobiliário na cidade-modelo de mesmo nome, na Califórnia. Hoje, a cidade de Irvine conta com quase 300.000 residentes.

Irvine, Califórnia, foi construída em um rancho (Crédito: Charles O’Rear/U.S. National Archives e Records Administration/Wiki Commons)

No mesmo período, o empresário imobiliário Robert E. Simon vendeu o Carnegie Hall em Nova York e, com o dinheiro, comprou 6.700 acres de terras agrícolas fora de Washington, D.C., para que pudesse criar a região de Reston, na Virgínia. A 80 quilômetros de distância, James Rouse, empresário de shopping centers, começou a planejar a região de Columbia, em Maryland. Já o investidor da indústria do petróleo George P. Mitchell, atento aos empreendimentos de Rouse e Simon, logo tiraria proveito de um novo programa de financiamento federal e iniciaria a criação da região de The Woodlands, perto de Houston, no Texas, que hoje conta com uma população de mais de 100.000 pessoas.

Essas novas cidades tinham em mente a vivacidade e a diversidade, enquanto proporcionavam a intimidade de bairros residenciais e outros benefícios associados à cidades pequenas.

O SONHO DE WALT DISNEY HOJE

Walt Disney, no entanto, não queria simplesmente enfeitar os subúrbios existentes.

Ele queria derrubar as noções de como uma cidade poderia ser construída e administrada. E, apesar de sua ideia soar utópica, tudo no Epcot parecia factível – um conjunto de elementos comumente encontrados em qualquer área metropolitana moderna, mas a partir de uma visão singular gerenciada por um visionário.

O banimento do automóvel foi uma inovação importante. Um vasto sistema subterrâneo foi projetado para permitir que os carros chegassem e estacionassem sob a cidade sem serem vistos. Uma outra camada subterrânea separada serviria para caminhões e veículos de serviço. Os residentes e visitantes percorreriam toda a Disney World e todas as suas atrações em um monotrilho de alta velocidade, muito mais extenso do que qualquer coisa vista na Disneylândia.

Num período em que todos eram fascinados por carros, como era o caso da década de 1960, essa era uma ideia absolutamente radical.

Devido a determinação de Walt Disney, teria sido fascinante ver o quão longe sua visão poderia ter ido. Após sua morte, alguns tentaram pôr seus planos em prática. Mas quando questionado por um designer do parque sobre levar adiante a visão de Walt, seu irmão, Roy Disney, que assumiu a empresa, respondeu: “Walt está morto”.

Porém, hoje, o espírito utópico de Walt continua vivo. Vemos isso em diferentes lugares como na ambição do ex-executivo do Walmart, Marc Lore, de construir uma cidade para 5 milhões de habitantes chamada “Telosa” em um deserto dos EUA. E, também, na proposta da Blockchains LLC de uma “cidade inteligente” autônoma em Nevada.

Entretanto, com frequência, vemos projetos que focam na nostalgia de um passado bucólico. A Disney Corporation, de fato, criou uma cidade durante a década de 1990 em uma de suas propriedades na Flórida.

Apelidada de “Celebration“, ela foi inicialmente anunciada como um exemplo do movimento da virada do século chamado “Novo Urbanismo”, que buscava projetar subúrbios de maneira que lembrassem uma cidade pequena americana, com bairros por onde se pudesse caminhar, com um centro, uma variedade de opções de moradia e menos dependência de carros.

No entanto, a Celebration não possui monotrilhos ou redes de transporte subterrâneo, tampouco possui um centro de inovação tecnológica ou políticas de emprego universal.

A cidade do amanhã, ao que parece, ainda terá que esperar.

SOBRE O AUTOR

Alex Krieger é professor pesquisador de prática de design urbano na Universidade de Harvard. Este artigo foi republicado do site The Conversation sob a licença Creative Commons.