Os pais que mandaram seus filhos de volta às escolas certamente estão preocupados com a COVID-19 solta pelo ar. Pois agora há mais um item para acrescentar à lista de preocupações: um estudo recente publicado na Environmental Research Letters descobriu que o ar das salas de aula das pré-escolas tem apresentado altos índices de “substâncias químicas eternas” (chamadas assim porque não se degradam no meio-ambiente ou no corpo humano). Essas substâncias vêm sendo associadas a problemas metabólicos, anomalias congênitas e câncer. E nossas casas ou escritórios também podem estar sujeitos a esse risco.

 

Os culpados? Tapetes velhos.

 

Mais especificamente, o problema está nos tapetes que receberam tratamento para se tornarem resistentes a manchas com uma categoria de produtos químicos conhecida como PFAs (substâncias alquil polifluoradas). As PFAs são substâncias químicas sintéticas (produzidas pelo homem) mais utilizadas no tratamento têxtil, mas também presentes em tintas, em equipamentos de combate a incêndios, em equipamentos para atividades ao ar livre e em utensílios de cozinha de Teflon. Os PFAs estão por toda parte em nossos ambientes fechados. Como não se degradam facilmente, eles também já poluem nosso solo e a água que nos abastece.

 

A nova pesquisa descobriu concentrações particularmente altas de PFAs no ar de nove dentre as nove salas de aula da pré-escola que foram testadas como parte do estudo. Os níveis medidos se mostraram tão altos quanto os presentes em uma fábrica de tapetes. E, embora ainda não haja pesquisas específicas que atrelem doenças infantis a determinadas concentrações de PFAs no ar, esses índices são “preocupantes”, afirmou Rainer Lohmann, professor de oceanologia da Universidade de Rhode Island, que liderou o estudo.

 

Mas não foi somente nas salas de aula do jardim de infância que os pesquisadores encontraram poeira de PFA pairando no ar. A equipe de Lohmann também descobriu altas concentrações de PFAs em escritórios, em faculdades e em uma loja de roupas esportivas. Para onde quer que os pesquisadores olhassem, encontravam algum nível de PFAs no ar. Sua presença concentrada em salas de aula da educação infantil, no entanto, foi o que mais preocupou os pesquisadores, porque crianças são conhecidamente mais suscetíveis a respirar poeira e mais suscetíveis aos efeitos de produtos químicos tóxicos.

 

Como saber, então, se você deve se preocupar com PFAs nos espaços que frequenta? Na maioria dos casos, é impossível ter certeza. “Na verdade, é impossível até mesmo para um cientista adentrar uma casa e enxergar ou sentir se PFAs estão ou não presentes ali.”, reconhece Lohmann. “PFAs não são substâncias regulamentadas, que sigam rotulagem padrão obrigatória. E a falta de legislação torna tudo mais difícil”.

 

Ao que parece, entretanto, os fabricantes de tapete e grandes redes varejistas já começaram uma espécie de autorregulação dos PFAs. Desde 2019, as lojas Lowe`s e Home Depot, por exemplo, anunciaram que não trabalham mais com carpetes ou tapetes que contenham PFAs. O problema é que muitos dos tapetes antigos permanecem em uso, porque são itens que duram muitos anos. As casas estão enfrentando um problema similar, por conta dos sofás resistentes a fogo, os quais, embora menos comuns hoje em dia, também podem emitir uma poeira que afeta o meio-ambiente por décadas.

O que é possível fazer, então, diante dessa situação tão complicada?

Lohmann sugere uma abordagem de três passos. Em primeiro lugar, trocar todos os tecidos velhos e à prova de manchas ainda em uso nas escolas, nos ambientes de trabalho e em casa. Em segundo lugar, assegurar uma boa ventilação, abrindo janelas e certificando-se de que os sistemas de AVAC (aquecimento, ventilação e ar-condicionado) estão circulando ar filtrado ou fresco (aliás, o governo norte-americano está oferecendo às escolas fundos relacionados à COVID que podem ser destinados exatamente para esse fim). Nos locais onde não for possível renovar o sistema central de aquecimento ou ar-condicionado, Lohmann sugere uma alternativa: usar um filtro de ar HEPA autônomo.

Quer uma dica final? “Se puder, mantenha distância dos produtos que prometem evitar manchas”, acrescenta Lohmann, que admite que o conselho não é infalível, devido à prevalência de PFAs ao nosso redor. “Certamente, regulação e legislação eficientes facilitariam muito todo esse nosso trabalho.”

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos.