Poucos suspeitam de uma insalubre ironia: o ar dos ambientes fechados costuma ser ainda mais poluído do que o ar externo. Isso acontece porque nossos prédios costumam estar cheios da mesma poluição presente do lado de fora, mas o ar interno também se mistura com o CO2 que exalamos. Isso se aplica ainda mais aos escritórios, frequentados simultaneamente por vários colegas de trabalho.

Mas essa má notícia fica ainda pior: um novo estudo de referência da Universidade de Harvard demonstra que o ar dos escritórios não prejudica apenas a saúde física. Ele também nos torna mais burros, piorando nosso rendimento em testes cognitivos e nos tornando mais suscetíveis a distrações. Quanto mais poluído estiver o ar do escritório, pior o desempenho das pessoas nos testes. E o mais contundente: os pesquisadores encontraram resultados semelhantes em dezenas de edifícios comerciais comuns de seis países ao redor do mundo, incluindo os EUA, o Reino Unido e a China.

“Este não foi um estudo feito selecionando somente edifícios em mau estado. Não saímos procurando os piores edifícios do mundo para descobrir que eles realmente fazem mal à saúde”, diz Joseph Allen, professor associado da Escola de Saúde Pública de Harvard e autor de Healthy Buildings: How Indoor Spaces Drive Performance and Productivity  (Edifícios Saudáveis: como espaços internos aumentam o desempenho e a produtividade, em tradução livre.). “Pesquisamos aqueles que seriam considerados por todos como bons edifícios, dentro dos parâmetros comuns que as pessoas costumam levar em conta na hora de avaliar edifícios.” (Os pesquisadores fizeram um longo estudo em separado com o síndico de cada prédio antes de validar os locais para testes.)

Para conduzir o estudo, a equipe recrutou centenas de trabalhadores de 42 escritórios em todo o mundo. A idade média deles era de 33 anos, o que é particularmente relevante porque as pesquisas de qualidade do ar geralmente são realizadas nos locais frequentados por grupos mais vulneráveis: os muito jovens ou muito velhos. Cada trabalhador recebeu um sensor de ar. Colocado em sua mesa de trabalho, ele mediu o CO2 e partículas finas (pequenos detritos flutuando no ar, provenientes de incêndios florestais e escapamento de automóveis) que eles estavam respirando a cada hora. Em seguida, por meio de um aplicativo para smartphone, esses trabalhadores fizeram um teste cognitivo várias vezes ao longo do ano. (Esses testes são padronizados pela comunidade de pesquisa – com desafios cronometrados, como combinar uma cor com a palavra de uma cor -, e atrasos de frações de segundo nas respostas podem identificar um cérebro mais lento.) Esta configuração permitiu fidelidade de dados sem precedentes: os pesquisadores foram capazes de literalmente verificar os níveis de poluição ao redor dos funcionários de escritório no exato momento em que esses funcionários estavam realizando o teste.

(Crédito: cortesia da Harvard University)

A descoberta mais perturbadora foi a existência de uma relação direta entre a quantidade de partículas finas no ar e o desempenho insatisfatório das pessoas nos testes mentais. Quanto mais poluído o ar, pior o desempenho das pessoas.

“O ar que você respira no escritório tem um impacto imediato em sua função cognitiva”, diz Allen. Os pesquisadores até observaram que as pessoas que respiravam o que é amplamente considerado ar limpo — ar com partículas finas abaixo de mil partes por milhão – ainda sofriam de deficiência cognitiva.

“Isso significa que mesmo bons edifícios têm espaço para melhorias”, diz Allen.

Mas quão ruins são, na realidade, os efeitos cognitivos do ar poluído? Eles são visíveis, afirma Jose Guillermo Cedeno Laurent, pesquisador associado de Harvard, que liderou o estudo. Esses efeitos são percebidos em todos os presentes, quer estejam em uma entrevista ou analisando alguns números rapidamente, eles se mostram sensivelmente mais lentos em suas tarefas se o escritório estiver cheio de ar poluído. Laurent também acrescenta que sempre que você recebe uma ligação enquanto está trabalhando com outra coisa, perde o foco. E uma mente trabalhando em meio ao ar sujo será mais lenta no gerenciamento dessas distrações ao longo do dia. Você terá mais dificuldade para voltar ao trabalho sempre que for interrompido.

Agora, vale lembrar que a qualidade do ar interno é um problema solucionável. Allen observa que a solução é trazer mais ar de fora do prédio, para reduzir o CO2 e, em seguida, usar filtros MERV13 de alto grau dentro do prédio, para limpar as partículas finas. Os síndicos ou gerentes dos prédios também devem garantir que não estão recebendo mais funcionários do que os níveis de ocupação planejados do edifício.

De qualquer forma, esses resultados são incrivelmente deprimentes. Qualquer funcionário de escritório sabe que tem muito pouca liberdade para opinar ou reclamar sobre o conforto dos espaços de trabalho – como sobre a organização das mesas e a configuração do computador -, muito menos sobre os detalhes intrincados da infraestrutura do prédio e dos sistemas HVAC. Mesmo assim, Allen continua otimista. Ele incentiva os funcionários a pedirem aos seus chefes que avaliem os edifícios de maneira adequada quanto à ventilação e filtragem.

“Acho que a COVID-19 mudou essa dinâmica do poder”, diz Allen, observando o novo discurso entre funcionários e empresas em torno de escritórios híbridos e outras iniciativas da era da pandemia. “Antes da COVID, muito pouca atenção era dada aos nossos edifícios. Agora, todos estão perfeitamente cientes dos efeitos da má qualidade do ar. E você pode advogar pela mudança.”

 

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos.