POR BEN WILSON

A cada dia, mais 200 mil pessoas passam a fazer parte da população mundial urbana. Até 2050, dois terços da humanidade viverão em cidades. Ou seja, estamos testemunhando a maior migração da história, rumo ao ápice de um processo que teve início há 6 mil anos.

Como e onde vivemos é uma das perguntas mais importantes que podemos fazer. Muito do que entendemos da história e sobre nosso próprio tempo vem da exploração a respeito destes temas. Desde os primeiros sinais de urbanização na Mesopotâmia por volta de 4000 AC, as cidades agiam como fontes de troca de informações. A interação dinâmica de metrópoles densas e lotadas deu origem a ideias e técnicas, revoluções e inovações que impulsionaram a história. Até o ano de 1800, não mais do que 5% da população mundial vivia em áreas urbanas, mas esta minoria provocava um efeito desproporcional no desenvolvimento global. As cidades sempre foram os laboratórios da humanidade, a casa de máquinas da história. Atraídos pelo poder magnético das cidades – como tantos milhões todas as semanas – comecei a pesquisar e escrever Metropolis com esta premissa: de que nosso passado e nosso futuro estão atrelados – para o bem e para o mal – às cidades.

Hoje as cidades estão se movendo para cima, mesmo à medida que conquistam novos territórios. A antiga divisão entre centro e subúrbio se despedaçou. Longe de serem os lugares imutáveis e entediantes dos clichês, muitos subúrbios vêm se tornando cada vez mais urbanizados desde os anos 80, com mais empregos, diversidade étnica, vida local, epidemias de crime e drogas – em outras palavras, herdando muitas das virtudes e vícios das áreas centrais. Quando falamos da metrópole do século 21, não estamos mais nos referindo ao distrito central de negócios de Manhattan ou ao centro de Tóquio, o ideal clássico onde poder e dinheiro residem – mas de vastas regiões interligadas em que cidades se misturam a outras cidades.

E mesmo que as pessoas estejam inebriadas pela brilhante visão de novas cidades assertivas, o estilo de vida de grande parte da nossa espécie pode ser visto de forma mais clara em áreas densas, auto-organizadas e autoconstruídas em Mumbai ou Nairobi – do que nos atrativos centros de Shanghai e Seul, ou nos subúrbios ricos de Houston e Atlanta. Hoje, um bilhão de pessoas – um em cada quatro habitantes urbanos – vive em favelas, cortiços, slums, barrios, enfim: em áreas não-planejadas. Cerca de 61% da força de trabalho – 2 bilhões de pessoas – ganham a vida de maneira informal, muitas vezes alimentando, vestindo e abrigando populações urbanas em expansão.

Somente ao entender as experiências urbanas ao longo do tempo em diferentes culturas podemos começar a destrinchar um dos maiores desafios do terceiro milênio. As cidades nunca foram e nunca serão perfeitas. De fato, muito do prazer e do dinamismo das cidades vem de seus desarranjos espaciais. Refiro-me à diversidade de construções, pessoas e atividades misturadas e forçadas a interagir entre si. A ordem é essencialmente anti-urbana. O que torna uma cidade interessante é seu desenvolvimento gradual – o processo pelo qual foi formada e reconstruída através de gerações, dando origem a uma trama urbana rica e densa.

Essa bagunça é a essência de ser urbano. Pense em uma cidade como Hong Kong ou Tóquio, onde arranha-céus pairam sobre ruas lotadas de pedestres, mercados, restaurantes, lavanderias, bares, cafés e oficinas. Ou pense em uma favela como a Dharavi, de Mumbai, uma megalópole cacófona que abriga uma atividade urbana constante e frenética, que supre todas as necessidades básicas a uma curta distância. Pense então nas cidades modernas pelo mundo, onde comércio, áreas residenciais e escritórios são rigorosamente separados. Em muitos casos, a separação de funções nesses lugares tem o efeito de sanitização, tornando as cidades limpas e arrumadas, mas despidas de energia. O planejamento pode ter este efeito. Os carros também. O advento da aquisição em massa de veículos redesenhou as cidades. As vias expressas facilitaram o crescimento dos subúrbios e do comércio longe do centro, mas dentro dos limites da cidade; as avenidas movimentadas e grandes áreas de estacionamento eliminaram o que restava de convívio nas ruas.

Quando falamos de mais de 50% da população como sendo urbanizada, podemos estar cometendo um erro. Uma grande proporção dos moradores urbanos não vive um estilo de vida urbano, se com esse termo queremos dizer que vivem em vizinhanças por onde se pode caminhar, ter fácil acesso à cultura, entretenimento, recreação, empregos, áreas públicas e mercados. Muitos destes 50% vivem estilos de vida suburbanos, seja em belas casas familiares cercadas por gramados ou nas chamadas “cidades de chegada” – acampamentos nas beiras das metrópoles em rápido desenvolvimento.

O problema do século 21 não é que estamos nos tornando urbanizados muito rapidamente, mas que não estamos nos tornando urbanizados o suficiente. Por que isso é importante? Não importaria se pudéssemos esbanjar os recursos do nosso planeta. O fato de 200 mil pessoas migrarem para cidades todos os dias ou o fato de termos nos tornados uma espécie majoritariamente urbana desde 2010 chama a atenção. Mas isso não conta a história inteira. Muito mais alarmante é saber que, com a expansão da população urbana, a área ocupada pela selva de concreto irá triplicar. Durante as próximas três décadas, a geografia urbana terá crescido o equivalente a uma África do Sul em tamanho.
Esse alastramento está empurrando as cidades para mangues, florestas tropicais, estuários, pântanos, várzeas e terras agrícolas – com consequências devastadoras para a biodiversidade e para o clima. Montanhas estão sendo literalmente movidas para este avanço épico das cidades.

As cidades chinesas – como as cidades americanas antes delas – estão se tornando menos densas em seus núcleos, já que as ruas e os escritórios fazem com que as pessoas saiam das apertadas vizinhanças urbanas e se mudem para os subúrbios. Quando enriquecem, querem mais espaço para morar. Se os moradores das cidades chinesas e indianas escolherem viver nos mesmos espaços generosos dos americanos, o uso de veículos e energia farão as emissões de carbono saltarem 139%.

Nossas cidades estão na linha de frente de uma catástrofe ambiental. Por este mesmo motivo, poderia estar na vanguarda para mitigar os efeitos da mudança climática. Uma das coisas mais notáveis sobre as cidades é a habilidade de transformação. No passado, se adaptaram a mudanças climáticas, de rotas comerciais, tecnológicas, guerras, doenças e tumultos políticos. As grandes pandemias do século 19, por exemplo, modelaram as cidades modernas, forçando desenvolvimentos em engenharia civil, saneamento e planejamento urbano. As pandemias do século 21 mudarão as cidades de maneiras que nem conseguimos imaginar.

Comunidades funcionais e inventivas podem ajudar a tornar as cidades mais resilientes, justamente quando precisamos de cidades resilientes e adaptáveis para enfrentar os desafios das mudanças climáticas e das pandemias. Esse tipo de solução requer a urbanização da vida em uma escala muito grande. Acima de tudo, exige uma amplificação da imaginação para conceber a diversidade do que cidades podem ser. A história é uma forma vital de abrirmos nossos olhos para a variedade completa de experiências urbanas.

SOBRE O AUTOR

Retirado de Metropolis: A History of the City, Humankind’s Greatest Invention, de Ben Wilson. Livro publicado por Doubleday, parte de The Knopf Doubleday Group, divisão da Penguin Random House LLC.