É sempre assim: basta soprarem os primeiros ventos de uma nova estação, que as lojas de roupas abastecem suas araras com novidades, e as revistas enchem suas páginas com as tendências das semanas de moda. Tudo isso nos transmite uma mensagem subliminar de que deveríamos comprar casacos nas cores da estação, ou renovar o guarda-roupa dos nossos filhos.

Mas já ficou claro que nossos hábitos de consumo estão levando o planeta ao colapso, acelerando o aquecimento global e poluindo o meio ambiente. Tendemos a consumir sem pensar. Somos condicionados pelas marcas a desejar novos produtos por hábito e por impulso, e não porque precisamos deles. Por isso, neste ano, eu gostaria de propor uma experiência radical: e se resistíssemos ao impulso de fazer compras e, em vez disso, optássemos por não comprar absolutamente nada por um tempo?

À primeira vista, eu sei que essa proposta não parece nem um pouco atraente. Afinal, ir às compras na mudança de estação é uma tradição – especialmente nos países do hemisfério norte, onde a entrada do outono coincide com a nostalgia dos dias de volta às aulas. “Comprar certamente nos traz uma injeção de dopamina de curto prazo”, diz Laura Wittig, cofundadora da Brightly, uma startup que promove o consumo consciente, incluindo a abstenção de compras quando possível. “E quando as lojas investem no marketing de volta às aulas e em novos produtos, resistir pode ser muito difícil.”

A boa notícia é que existem outras maneiras de adquirir o que é realmente necessário – e até mesmo de experimentarmos a alegria de uma renovação sazonal do guarda-roupa – sem entrar em lojas físicas ou online. Na verdade, há um movimento efervescente que defende que paremos de consumir roupas novas. Os que abraçaram esse movimento garantem que se sentem tão elegantes e satisfeitos quanto antes.

MAS POR QUE ALGUÉM FARIA ISSO?

Optar por deixar de comprar é dizer sim a uma grande mudança no estilo de vida, dessas que parecem revolucionárias em uma sociedade capitalista. Mas antes de embarcar nessa jornada, faz sentido entender por que vale a pena ir na contramão. Ayesha Barenblat, fundadora e CEO da Remake, uma organização sem fins lucrativos de moda ética, pensou muito sobre essa questão. Durante o verão, sua ONG desafiou gente de todo o mundo a parar de comprar roupas novas por três meses — e milhares de pessoas toparam. 

Barenblat observa que a indústria de vestuário é responsável sozinha por 5% a 8% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa, por 20% das águas residuais em todo o mundo e por 35% de todos os microplásticos presentes em nossos oceanos. Mas o que muitas pessoas não percebem é que manter os guarda-roupas abarrotados de roupas baratas pesa sobre as costas de milhões de trabalhadores de todo o mundo – em sua maioria, mulheres. Para que as empresas produzam roupas nesse ritmo acelerado, elas precisam pagar aos trabalhadores salários exploratórios.

“É um engano pensar que consumir essas roupas tirará da pobreza uma geração de mulheres negras e pardas”, diz Barenblat. “Se oferecermos a essas trabalhadoras um salário mínimo e um ritmo de produção humano, estaremos enfrentando ao mesmo tempo a crise ambiental e a humanitária.”

Decidir não comprar roupas novas por três meses nos permite estabelecer um ritmo de consumo mais razoável. Barenblat acredita que os consumidores que aderem a esse movimento estão sinalizando para a indústria que eles não apoiam mais o modelo de negócios da moda efêmera e que, em vez disso, querem que as empresas paguem mais aos trabalhadores e lhes deem condições de trabalho mais humanas – mesmo que isso signifique que os preços finais subam. E se você está preocupado com o fato de que se abster de fazer compras pode prejudicar pequenas empresas ou trabalhadores no curto prazo, Barenblat sugere pegar o dinheiro que você economizou em compras e doá-lo para organizações que apoiam trabalhadores do setor de confecções, ou então oferecer aos amigos cartões-presente de negócios locais.

FAÇA UM BALANÇO  

Então, por onde começar? O primeiro passo é fazer um inventário daquilo que você já tem, sugere Wittig. A maioria de nós fica meses sem olhar para as próprias jaquetas, suéteres e cachecóis, por exemplo. Podemos até ter esquecido de que gostamos de usar muitos deles. Esse olhar saudoso pode fazer com que você aproveite as coisas que já possui e não adicione mais desordem ao seu armário. “É uma feliz coincidência que o movimento para comprar menos seja contemporâneo de programas de televisão como Tidying Up With Marie Kondo e The Home Edit, diz Wittig. “Eles nos mostram como o minimalismo pode ser realmente libertador.”

A próxima etapa é começar uma organização. Ponha de lado as roupas que não cabem mais ou as que você realmente não usa e, em seguida, arrume os itens que sobraram. Assim, você vai conseguir visualizar se de fato necessita adquirir mais alguma coisa. Talvez algumas peças-chave não sirvam mais, ou talvez você precise de roupas mais profissionais para um novo emprego. Talvez os casacos do ano passado já não caibam mais nos seus filhos. Ou você pode estar apenas sentindo falta de alguma peça diferente, para tirar seu guarda-roupa da mesmice.

TROQUE OU NEGOCIE SUAS ROUPAS

Para muitas pessoas que pararam de comprar, os eventos de troca de roupas são uma ótima maneira de encontrar peças de alta qualidade. Embora as trocas possam parecer assustadoras para quem nunca tentou, Barenblat diz que pode ser muito fácil. Basta encontrar alguns amigos cujos gostos você admira e que usam tamanhos semelhantes e, então, conversar sobre quais peças você gostaria de passar adiante e quais peças você está precisando.

Se você é mais ousado, pode se aventurar em uma troca de roupas com mais gente. Nos Estados Unidos, organizações como a Global Fashion Exchange permitem que você descubra grandes eventos de troca que estão acontecendo na sua cidade, ou que organize seu próprio evento. As pessoas podem juntar roupas de que vão se desfazer e depois classificá-las por tamanho, antes de convidarem ou outros para pegar o que desejam; quanto aos itens restantes, podem ir para doação. Wittig conta que encontrou um lindo suéter da marca Sézane, que nunca havia sido usado, em uma troca organizada pela Wing. Também há muitas trocas virtuais de roupas e outros produtos no Facebook, em endereços como o site do Projeto Buy Nothing, onde você pode procurar alguma troca perto de você. Além disso, existe o esquema da Swap Society, que permite enviar roupas que você não queira mais e escolher produtos que outras pessoas enviaram.

Mas, mesmo quando as roupas são gratuitas, Wittig diz que é importante estar consciente sobre o que você leva para casa. É muito fácil sair pegando itens que você não necessita ou que não vai usar. Por isso, ela sugere escolher apenas itens que caibam bem, que tenham um design clássico e que possam ser usados ​​em vários contextos diferentes, como jeans que serão usados no dia a dia. 

Se a ideia do escambo de roupas ainda lhe parece muito complicada, existem outras opções. Uma delas é reunir as roupas indesejadas em seu armário e vendê-las para uma loja de consignação em troca de crédito na própria loja. Recentemente, limpei meu armário enviando 15 peças de roupa para a loja online de consignação ThredUp, que oferece pagamento em dinheiro, crédito da loja ou cartões-presente para outras marcas de moda. Usei meus ganhos para comprar duas peças de outono de uma marca chamada Cuyana que mal posso esperar para usar.

E QUANTO À VOLTA ÀS AULAS?

Se você tem filhos, provavelmente sente a necessidade de prepará-los para a volta às aulas comprando uma mochila nova, roupas e material escolar. Embora seja fácil ceder à sedução das lojas infantis e das papelarias, com suas atraentes campanhas publicitárias de volta às aulas, Wittig sugere que sejamos mais criativos.

Se a mochila do seu filho ainda está em bom estado, você pode limpá-la bem e personalizá-la para o novo ano letivo, com patches ou broches divertidos. E quando se trata de roupas ou de uniformes, veja se você consegue encontrar algum grupo de pais – seja na sua vizinhança ou nas redes sociais – para garimpar peças de segunda mão. Muitas vezes, é possível encontrar roupas infantis que mal foram usadas e que estão em excelentes condições, já que as crianças perdem muitas de suas roupas antes de terem a chance de realmente aproveitá-las.

Para tornar especial o momento da entrega dessas roupas para seus filhos, Wittig sugere adicionar um pouco de criatividade. Embale bem os itens — talvez reutilizando lenços de papel e sacolas, ou até mesmo usando um papel de presente — para que seus filhos ainda se divirtam “desempacotando” as peças. “As marcas são muito boas em criar uma experiência empolgante em torno das novas compras, então por que não roubar alguns de seus truques? “Você pode se divertir recebendo algo que é novo para você, mas sem causar imensos danos ambientais.”

DEPOIS DO OUTONO

Se você optar por parar de comprar, parabéns! Você estará fazendo sua parte para reduzir sua pegada ambiental. Mas à medida que você for avançando, Barenblat e Wittig sugerem que você seja gentil e flexível consigo mesmo.  A ideia é que você não se sinta podado a ponto de querer desistir do desafio. Wittig sugere, inclusive, que você “gamifique” as coisas: talvez, para cada três itens usados ​​que comprar, você possa dar a si mesmo um presentinho simbólico, como um doce gostoso ou uma plantinha nova. E se houver algo que você de fato precise comprar — como roupas íntimas ou um par de tênis –, tudo bem.  Isso não significa que você está trapaceando.

“O objetivo é nos tornarmos mais conscientes sobre o que estamos comprando e sobre o impacto que isso tem”, diz Barenblat. “Deve ser algo bonito e significativo, não algo que cause estresse.”

Mas quando Barenblat se conectou com milhares de pessoas que se comprometeram a não comprar roupas por três meses, ela descobriu que muitos gostaram tanto do desafio que planejam fazer disso uma prática contínua em suas vidas. Alguns comentam como amam seus armários minimalistas e organizados, cheios de peças que realmente usam; outros dizem que sentem que estão contribuindo para uma mudança positiva.

“Acho que um projeto como esse deixa claro que as coisas materiais não trazem felicidade real”, ela diz. “As pessoas descobriram que outras coisas têm muito mais significado, como fazer parte de um movimento e se conectar com uma comunidade.”

SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, é repórter sênior da Fast Company. Ela vive em Cambridge, Massachusetts.