POR RYAN P. SMITH

Nos Estados Unidos, um em cada oito casais luta contra a infertilidade. Infelizmente, médicos especializados em medicina reprodutiva como eu, não conseguem determinar a causa da infertilidade masculina em 30% a 50% dos casos. Não há quase nada pior que dizer para um casal, “Eu não sei,” ou, “Não há nada que eu possa fazer para ajudar.” 

Ao receber essa notícia, os casais sempre fazem perguntas que seguem uma linha de pensamento parecida: “E o trabalho dele, o celular, os nossos laptops, todos esses plásticos? Você acha que isso pode ter contribuído para isso?”

O que os meus pacientes estão me perguntando é, na verdade, uma grande questão da saúde reprodutiva masculina: a toxicidade do ambiente contribui para a infertilidade masculina? 

O DECLÍNIO DA FERTILIDADE MASCULINA

A infertilidade é definida como a incapacidade de um casal de engravidar em até um ano de forma natural. Quando isto ocorre, os médicos avaliam ambos os parceiros para determinar o motivo.

Para os homens, a base da avaliação da fertilidade é a análise do sêmen e existem várias maneiras de avaliar s espermatozoides. A contagem de espermatozoides (o número total de espermatozoides produzidos por um homem) e a concentração (o número de espermatozoides por mililitro de sêmen) são medidas comuns, mas não fornecem o melhor parecer sobre a fertilidade. Uma medida mais precisa é dada pela motilidade dos espermatozoides, que avalia a fração de espermatozóides que conseguem nadar e se movimentar. 

Uma vasta gama de fatores – desde obesidade e desbalanço hormonal até doenças genéticas – pode afetar a fertilidade. Para muitos homens, há tratamentos que podem ajudar. Contudo, desde 1990 os pesquisadores vêm notando uma tendência alarmante. Mesmo levando em conta muitos dos fatores de risco conhecidos, a fertilidade masculina vêm piorando há décadas.

Em 1992, um estudo descobriu um declínio global de 50% com relação aos 60 anos anteriores. Vários estudos em anos posteriores confirmaram este achado inicial, incluindo um artigo de 2017 que mostrou um declínio de 50% a 60% na concentração de espermatozoides entre 1973 e 2011 em homens ao redor do mundo.

Estes estudos, embora importantes, focaram na concentração e na contagem total de espermatozoides. Em 2019, uma equipe de pesquisadores decidiu focar na motilidade total dos espermatozoides. Eles descobriram que a proporção de homens com uma motilidade de espermatozoides dentro do normal diminuiu aproximadamente 10% nos últimos 16 anos. 

A ciência é consistente: os homens hoje produzem menos espermatozoides que no passado e esses espermatozoides são menos saudáveis. A pergunta que fica, então, é o que está causando essa queda na fertilidade. 

TOXICIDADE DO AMBIENTE E REPRODUÇÃO

Os cientistas sabem há anos que, pelo menos em animais, a exposição a um ambiente tóxico pode alterar o balanço hormonal e atrapalhar a reprodução. Os pesquisadores, é claro, não podem expor seres humanos a compostos nocivos e depois medir os resultados, mas é possível fazer algumas associações.

Quando a tendência de queda na fertilidade masculina começou a emergir, eu e outros pesquisadores começamos a olhar mais para os produtos químicos no ambiente em busca de respostas. Esse método não nos permite estabelecer definitivamente quais produtos estão causando o declínio na fertilidade masculina, mas o peso das evidências está crescendo.

Boa parte desta pesquisa foca nos perturbadores endócrinos – moléculas que imitam os hormônios do corpo e desbalanceiam o frágil equilíbrio hormonal da reprodução. Isso inclui substâncias como ftalatos – também conhecidos como plastificantes – bem como pesticidas, herbicidas, metais pesados, gases tóxicos e outros materiais sintéticos.

Plastificantes são encontrados na maioria dos plásticos – como garrafas d’água e embalagens de alimentos – e a exposição à eles está associada a impactos negativos na testosterona e na qualidade do sêmen.

Herbicidas e pesticidas são abundantes na cadeia alimentícia e alguns – especificamente os com compostos orgânicos que incluem fósforo – são conhecidos por afetar negativamente a fertilidade.

A poluição do ar está presente nas cidades, expondo os habitantes a materiais particulados – dióxidos de enxofre, óxido de nitrogênio e outros compostos que provavelmente contribuem para uma qualidade anormal do sêmen.  A exposição à radiação de laptops, celulares e modems foi associada à queda na contagem, motilidade afetada e forma anormal de espermatozoides. Metais pesados como o chumbo, cádmio e arsênio também estão presentes nos alimentos, na água e em cosméticos e também prejudicam a qualidade dos espermatozoides.

Perturbadores endócrinos e os problemas de infertilidade que eles causam estão gerando sérios malefícios para a saúde humana, físicos e emocionais. E o tratamento destes males é caro.

OS EFEITOS DE PRODUTOS QUÍMICOS NÃO REGULAMENTADOS

Muitos produtos químicos são usados hoje em dia e rastrear todos eles é incrivelmente difícil. Mais de 80.000 produtos químicos estão registrados nos EUA e quase 2.000 novos produtos são introduzidos todo ano. Muitos cientistas acreditam que os testes de segurança para riscos ambientais e de saúde não são fortes o suficiente e que o rápido desenvolvimento e introdução de novos produtos químicos desafia a capacidade das organizações para testar os riscos de longo prazo à saúde humana.

A regulamentação atual nos Estados Unidos segue o princípio de inocente até que se prove o contrário e é menos abrangente e restritiva que regulamentações europeias similares, por exemplo. Organização Mundial de Saúde identificou recentemente 800 compostos capazes de perturbação hormonal, sendo que somente uma fração destes foi testada.

Um grupo da área química, o American Chemistry Council, diz em seu site que os fabricantes “possuem a certeza regulamentar que eles precisam para inovar, crescer, criar empregos e vencer no mercado global – ao mesmo tempo em que a saúde pública e o meio ambiente se beneficiam de projeções de risco robustas.”

Mas a realidade sobre o sistema regulamentador atual dos Estados Unidos é que produtos químicos são introduzidos com um mínimo de testes e só são retirados do mercado quando os males são provados. E isso pode demorar décadas.

O Dr. Niels Skakkebaek, pesquisador líder em um dos primeiros artigos sobre a queda na contagem de espermatozoides, diz que o declínio na fertilidade masculina é um “alerta para todos nós.” Os meus pacientes forneceram um alerta para mim de que aumentar o conhecimento e engajamento da população é importante para proteger a saúde reprodutiva global agora e no futuro. Eu não sou toxicologista e não posso identificar a causa das tendências de infertilidade que estou vendo; mas enquanto médico eu me preocupo que uma parte muito grande do ônus da prova está recaindo sobre o corpo humano e sobre as pessoas que se tornam minhas pacientes.

SOBRE O AUTOR

Ryan P. Smith  é professor associado de urologia na Universidade de Virginia. Este artigo foi republicado da The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.