Este pó magnético é capaz de retirar microplásticos da água

Lixo plástico em pequenos fragmentos não pode ser detectado nas estações de tratamento de esgoto. Mas uma nova tecnologia pode ajudar

Crédito: Universidade RMIT

Adele Peters 3 minutos de leitura

Quando os resíduos de plástico se decompõem em fragmentos menores, com menos de 1 micrometro de largura – ou seja, 1.000 vezes menores que a espessura do cabelo humano –, não podem ser detectados nas estações de tratamento de esgoto. Mas os pesquisadores estão desenvolvendo um novo material capaz de capturá-los e de removê-los antes que cheguem aos rios ou oceanos e entrem na cadeia alimentar.

O material, que vem em forma de pó e é feito a partir de resíduos reciclados, possui uma estrutura nanométrica projetada para capturar o plástico invisível. “É um material poroso com uma superfície especial, que reage com os microplásticos”, explica Nicky Eshtiaghi, professora de engenharia química da Universidade RMIT, da Austrália, e líder da equipe de pesquisadores que  desenvolveu a tecnologia . O pó também captura outros poluentes e, por ser magnético, é fácil de te remover da água após o uso.

Ímã atrai o material usado para remover microplásticos e poluentes dissolvidos em água. (Crédito: Universidade RMIT)

Atualmente, as estações de tratamento de esgoto têm a capacidade de filtrar pedaços de microplástico maiores, mas os fragmentos menores escapam. “Devido à falta de instrumentos simples e adequados de detecção e de tecnologia para remover microplásticos menores que 1 micrômetro, uma enorme quantidade deles vem sendo liberada nas baías e no mar”, observa.

Uma vez que o plástico entra nos cursos d’água, começa a absorver outros tipos de poluição. Assim, à medida que vão sendo ingeridos pelos animais aquáticos, tanto o plástico quanto essa poluição se espalham pela cadeia alimentar.

a nova tecnologia do pó funciona em uma hora e o plástico que é capturado pode ser reciclado.

Em um estudo feito no Canadá em 2021, 99% dos peixes da amostra tinham pelo menos uma partícula de microplástico presente em seu organismo. O menor peixe apresentava a maior concentração de material.

Microplásticos também foram detectados em  sal marinho, água mineral, frutas e legumes, além de carne embalada, entre outros alimentos. Confirmando nosso grande temor, partículas de plástico também já foram detectadas em seres humanos. Neste ano, pela primeira vez, foram documentados microplásticos no  sangue de pessoas.

Ainda não está muito claro o que isso significa para a saúde da nossa espécie. Segundo Nicky Eshtiaghi, outros estudos mostram que fragmentos de microplástico muito pequenos permanecem no corpo e podem contribuir para doenças autoimunes, câncer, infertilidade e outros problemas.

Os pesquisadores Nasir Mahmood (esq.), Muhammad Haris e Nicky Eshtiaghi (Crédito: RMIT University)

Os filtros convencionais usados para reter o plástico são ineficazes na captura dos fragmentos menores. Mesmo os filtros de tamanho nano – projetados especificamente para essa tarefa – funcionam lentamente, se é que funcionam.

Outras técnicas de limpeza, que aceleram a decomposição do plástico, podem acabar liberando outros poluentes e ainda não funcionam com rapidez suficiente para estações de tratamento de esgoto.

Já a nova tecnologia do pó funciona em uma hora, dizem os pesquisadores, e o plástico que é capturado pode ser reciclado. A equipe de Eshtiaghi está procurando parceiros industriais para ampliar a tecnologia.

É claro que, mesmo que ela funcione bem em estações de tratamento de esgoto, isso será apenas parte da solução. O oceano já está repleto de microplásticos e, embora teoricamente a tecnologia australiana possa funcionar na natureza, ainda não se sabe ao certo como isso aconteceria na prática.

Antes de mais nada, o maior desafio continua sendo encontrar uma maneira de acabar com a produção e o fluxo de lixo plástico – não apenas itens maiores, como embalagens, mas também resíduos menos conhecidos, como as milhões de fibras plásticas minúsculas que podem se soltar de tecidos sintéticos quando se lava roupa.


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais