A já manjada conversa de que a pandemia acelerou tendências e comportamentos ganhou contornos visíveis e quantificados no 14ª Tech Trends Report, apresentado anualmente por Amy Webb: na edição deste ano, o documento compilou nada menos do que 500 tendências, 22% a mais do que na edição anterior. Além disso, o material foi dividido em 12 temas, cada um recheado com capítulos próprios.

Como de praxe, a futurista e fundadora do Future Today Institute comentou os principais insights do relatório durante o South by Southwest (SXSW). Assim como no ano passado, porém, a apresentação foi realizada remotamente na edição online do festival de Austin.

Depois da distopia vivenciada em 2020 (e que continuamos vivenciando), que tipo de futuro nos aguarda em 2036? Segundo Webb, podemos esperar um mundo repleto das tecnologias mais “Black Mirror” possíveis, como câmeras com reconhecimento facial espalhadas pelas ruas, “diminished realities”, tecnologias que removem os estímulos visuais e sonoros à sua volta, e “bodies as networks”, ou seja, corpos literalmente sendo utilizados como fontes de rede wi-fi protegidas contra hackers.

Veja as três principais tendências destacadas por Webb:

VOCÊ DAS COISAS

Depois da Internet das Coisas, vem aí o Você das Coisas (You of Things). Os smartphones, que já estão vendendo menos, cedem espaço a wearables cada vez mais integrados – ou até mesmo implantados – ao corpo humano.

– Óculos e outros tipos de acessórios vestíveis serão capazes de medir a produtividade do indivíduo;

– Outros produtos devem seguir a linha do Ooler, um lençol que regula a temperatura ideal para a pessoa;

– Lixos que “veem” o que é descartado e pedem a reposição dos produtos nos supermercados.

O porém levantado por Webb é que todas essas inovações tecnológicas são bastante sensíveis, pois envolvem questões éticas sobre compartilhamento de dados. As regulações e as redes terão de ser o mais seguras possíveis para que a experiência dos usuários não seja manipulada ou invadida. E, mais uma vez, as Big Techs, como Amazon, Microsoft e Google são colocadas no centro do debate sobre o monopólio de dados.

MÍDIA SINTÉTICA E OUTRAS REALIDADES

Aquele fone de ouvido wireless que isola todo o barulho ao redor será tão obsoleto quanto um iPod em 2021. A chamada Diminished Reality consiste em produtos capazes de remover estímulos visuais e sonoros ao redor. Ou seja, num bar, a pessoa poderá “cancelar” a mesa barulhenta ao lado.

Porém, dispositivos que conseguem invisibilizar elementos da realidade podem gerar sérias distorções da realidade.

Para as indústrias automobilística, aérea e imobiliária, a novidade pode ter impactos significativos, pontua Webb.

Já a Assistive Reality diz respeito a gadgets que ajudarão as pessoas a realizar tarefas no mundo físico. De acordo com a futurista, os games serão capazes de auxiliar pessoas com depressão e ansiedade, e que o hackeamento de ondas sonoras poderá melhorar a memória, a concentração e o sono.

A Synthetic Media, por sua vez, se trata da evolução dos bots para avatares de pessoas, conteúdo de vídeo, áudio, deepfakes e personagens virtuais construídos com base em algoritmos. Um novo gênero de novelas com base nos detalhes da vida pessoal da pessoa poderá surgir e ser transmitida somente para ela, redefinindo o conceito de “reality show”.

ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM

As transformações vivenciadas pela sociedade nos últimos anos tiveram e alguns desdobramentos sobre a vigilância, que, segundo Webb, passou a ser encarada com mais naturalidade. Nos EUA, o reconhecimento facial foi utilizado pelos movimentos populares para identificar manifestantes violentos no ataque ao Capitólio. Já a o governo chinês e a China fazem uso da tecnologia para monitorar se a população respeitava a quarentena.

Ao longo de todo o relatório, Webb desenha três hipóteses de futuro: otimista, neutro e catastrófico. No cenário catastrófico para 2036, os dados de saúde serão coletados do corpo humano e atualizadas, tornando as consultas médicas desnecessárias. As classes sociais mais abastadas poderão viver 15 anos além da expectativa, enquanto a maioria dos consumidores será julgada pelos hábitos alimentares: caso coma mal, poderá pagar mais pelo plano de saúde. Debates atuais sobre a vigilância do home office poderão ser uma realidade daqui a 12 anos.

Em um possível futuro neutro, porém, Webb prevê o surgimento de startups que ajudarão as pessoas a protegerem seus dados (por um preço). Essas empresas desenvolverão caixas de segurança em torno dos perfis dos usuários para que as plataformas e terceiros utilizem informações pessoais.

No espectro positivo, a futurista afirma que a sociedade sentiu na pele a distopia e, por isso, pode se engajar em resolver questões sociais. Para evitar a versão apocalíptica, ela aconselha as empresas a serem mais transparentes e a se abrirem para as ambiguidades. A íntegra do 2021 Tech Trends Report pode ser acessada aqui.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.