Para uma geração que cresceu em meio a bombas, a perspectiva sobre o mundo é muito diferente. Essa é uma, dentre as várias frases de Tijana Jankovic, que assumiu a liderança do Rappi no Brasil em agosto. Ela descreve, à Fast Company Brasil, o contexto em que deixou seu país. Tijana nasceu em Belgrado, atual capital da Sérvia e uma das principais cidades da antiga Iugoslávia. Aos seis anos, no início da década de 1990, em meio a um contexto de guerra na região, deixou sua terra natal com a mãe rumo à Nova Zelândia. Essa foi a primeira vez que deixou o país. A segunda, e definitiva, foi em 2005, com 17 anos, quando decidiu estudar na Itália.

“Nós, que nascemos na Sérvia, brincamos que cada geração tem, pelo menos, duas guerras como vivência. Ou seja, é muito difícil encontrar alguém do meu país com 80 anos que não tenha vivido pelo menos duas guerras. E, no meu caso, com 13 anos eu já me enquadrava nesse grupo”, narra Tijana. Seu contexto de vida e origem, explica, moldou muitas características que, posteriormente, foram fundamentais para a carreira. “O (Novka) Djokovic (tenista sérvio número um do mundo) é da minha geração e nasceu na mesma cidade que eu, um exemplo para nós de resiliência e foco. Esses elementos, de fato, se tornaram traços de uma geração que precisou lidar com stress, mudanças e muita pressão”, conta.

Nascido em Belgrado, mesma cidade de Tijana, o tenista Novak Djokovic, segundo ela, é um dos símbolos de uma geração que se moldou em um contexto de grandes desafios (Crédito: Matthew Stockman – Getty Images)

Outro elemento que também influenciou sua geração, segundo Tijana, foi a vivência multicutural. “É uma região com muitas referências. A Rússia de um lado, Áustria e Alemanha em cima, a cultura oriental por outra vertente. Um país muito pequeno, mas com muita diversidade. O que, de certa forma, permite que qualquer sérvio se adapte a outras culturas e contextos”. A executiva também teve influência direta do empreendedorismo que respirou dentro de casa, sobretudo, pelo exemplo vindo da mãe, dona de uma empresa química criada quando qualquer companhia, mesmo que privada, se tornava propriedade do Governo. “Nos anos 2000, a empresa da minha mãe, mesmo sendo dela, foi levada à leilão. Ela até tentou comprar, mas perdeu. Foram 20 anos de muito esforço que se foram”.

Esse momento trágico para a família, influenciou diretamente a perspectiva de Tijana sobre sua carreira. “Eu tinha certeza de que herdaria os negócios de minha mãe. Tudo isso aconteceu enquanto estava na faculdade, na Itália. Fiquei traumatizada com a ideia de empreendedorismo. Esse foi um dos motivos que me empurrou para o mercado financeiro. Digo que a primeira história com o empreendedorismo foi um trauma, mas no final estava no DNA da nossa família. Com um tempo, fui voltando para essa trajetória de empreender”, conta Tijana que visitou a Sérvia pela última vez em junho deste ano, antes de assumir o novo posto. “Nos próximos anos, com minhas filhas e com o objetivo de estreitar os laços culturais com minha terra natal, me vejo indo cada vez mais para a Sérvia”.

“Antes, existia essa questão de mulheres poderosas e ambiciosas precisarem sacrificar algo ou serem parecidas com homens. Eu digo: é possível ter sucesso no mercado como mulher e não é necessário sacrificar absolutamente nada”

MUITO ALÉM DE EXPERIÊNCIAS TÉCNICAS

Já em Londres, em 2010, Tijana começou a trabalhar no BNP Paribas, um dos maiores bancos da Europa, com presença em 75 países. Na época, atuando com mercados emergentes. Seu foco era Rússia, Oriente Médio e alguns países da África. O que, segundo ela, também foi uma escola, já que seu foco, desde o início, já estava em regiões com grandes desafios de regulação e nível de desenvolvimento relevante. “Olhando para o meu momento hoje e considerando meu passado, eu digo que tive sorte. Por que eu fui contratada tendo uma gerente mulher onde a VP da área também era mulher. Isso me poupou de passar algumas dificuldades que muitas mulheres precisam lidar em ambientes majoritariamente masculinos, como o financeiro, por exemplo.”

No BNP Paribas, Tijana traçou um caminho multicultural onde teve contato com culturas emergentes e um caldeirão de referências que influenciou diretamente sua carreira (Crédito: Getty Images)

Atuando em um branco europeu, mas com vocação global, Tijana foi se tornando cada vez mais uma junção de vivências, línguas e referências. “Primeiro Londres, depois estive entre Londres e Paris, Brasil e América Latina por três anos, viajando muito para Colômbia e Chile e no final, o último ano antes de vir ao Brasil, fiquei em Nova York. Quando deixei o BNP, achava que não sabia fazer outra coisa. Sempre pensei que ia terminar minha carreira no mercado financeiro. Ter atuado com uma empresa global e visto três ângulos diferentes de atuação regional, sem dúvida, foram fundamentais para onde eu cheguei.”

“Nós, que nascemos na Sérvia, brincamos que cada geração tem, pelo menos, duas guerras como vivência. Ou seja, é muito difícil encontrar alguém do meu país com 80 anos que não tenha vivido pelo menos duas guerras”

A dúvida sobre fazer outras coisas além do mercado financeiro, explica Tijana, deixou de existir já no Brasil, em meados de 2017, quando participou do processo de seleção para o Uber. Momento em que a plataforma tinha apenas três anos no Brasil e lidava com contextos de regulação e outros desafios. “Nas primeiras entrevistas, o entrevistador, que se tornou meu gestor depois, me perguntou por que eu queria aquela vaga. Eu disse que tinha oito anos no mercado financeiro e ele me respondeu que aquilo não servia de nada já que nem eu e nem ele sabiamos o que precisava ser criado do zero. No fim, você leva vocação, criatividade e outros elementos para suas novas vivências. Isso foi muito bom e libertador, porque a partir daí vi que tudo se aprende”, explica.

A CONEXÃO DEFINITIVA COM O BRASIL

A chegada ao Rappi, em agosto de 2020, foi em meio a um contexto agitado. Após uma passagem de um ano e três meses no Google, depois do Uber, Tijana chegava para cuidar de São Paulo, um dos maiores mercados da plataforma, no meio de uma pandemia em um segmento que vinha dobrando de tamanho. “Essa transição do mercado financeiro para o Uber, depois Google e agora Rappi me mostrou que é importante, independentemente de onde a pessoa esteja, fazer, em algum momento, uma mudança radical em sua carreira. Somente você conhecendo os dois extremos entende a amplitude de tudo que consegue fazer”.

Desde agosto no comando do Rappi no Brasil, Tijana entende como premissa oferecer serviços que honrem um tempo de consumo que tornou-se ainda mais precioso com a digitalização (Crédito: Reprodução)

Sobre chegar ao Rappi no olho do furacão, Tijana, que tinha acabado de voltar de licença maternidade quando entrou na empresa, reforça que, em comparação com as outras experiências no mercado de tecnologia, há muita diferença. “O Uber, por exemplo, era muito mais simples, uma linha de negócios apenas. O Google tinha muitas categorias, mas já era bem maior e consolidado e eu olhava apenas minha área. E é a primeira vez que entro em uma vaga de general manager com caraterística mais generalista e preciso, de um dia para o outro, entender como funcionam tantas indústrias ao mesmo tempo: restaurantes, supermercados, concierge e muitos outros.”

Dentre suas missões e os objetivos dessa fase de retomada, Tijana explica que será pautada em maior maturação da indústria digital com um número grande de entrantes. “O objetivo, agora, é capturar essa necessidade que ficou muito aparente durante a pandemia e realmente entender esse conceito de devolver o tempo para as pessoas. O Turbo Fresh, serviço recém-criado que entrega em até 10 minutos, por exemplo, tem esse conceito por que as pessoas aceitaram e se adaptaram que tudo é on demand, não preciso mais se planejar separar tempo do mercado, e o objetivo aqui é honrar o tempo delas”, explica.

Tijana Jankovic, presidente do Rappi Brasil (Crédito: Divulgação Rappi)

EQUIDADE DE GÊNERO NA TECNOLOGIA

Ao assumir como líder do Rappi no Brasil, Tijana entra para um grupo ainda restrito de mulheres em comando de grandes empresas somando-se à Cristina Junqueira, do Nubank, Tania Cosentino, da Microsoft, Adriana Aroulho, da SAP, para mencionar algumas. Ela relembra a sorte que teve de ter gestoras, mas retoma o exemplo empreendedor vindo da mãe.

“Uma diferença fundamental entre esses primeiros exemplos que eu tive e com o que vejo hoje é que, antes, existia essa questão de mulheres poderosas e ambiciosas precisarem sacrificar algo ou serem parecidas com homens. Eu sou filha única, por exemplo, porque minha mãe fez essa opção em função dos desafios de ser mãe e liderar uma empresa. Eu digo: é possível ter sucesso no mercado como mulher sem sacrificar absolutamente nada. Hoje, com muitas histórias, não só a minha, mas de tantas mulheres que lideram empresas no Brasil, o que tento é sempre reforçar que o mundo mudou e temos que estar de igual para igual”, conclui.

SOBRE O AUTOR

Luiz Gustavo Pacete é editor-contribuinte da Fast Company Brasil