Os dados nunca foram tão importantes: capturam, analisam e categorizam virtualmente qualquer informação sobre nós – dos batimentos cardíacos aos nossos pensamentos mais secretos – e se tornam cada vez mais avançados e invasivos.

Em painel transmitido online durante a conferência Computers, Privacy & Data Protection, em Bruxelas, Tim Cook, CEO da Apple, falou sobre a importância da privacidade do usuário. Que ele tenha apresentado justamente este painel não é surpresa alguma – a Apple é a única Big Tech que adere totalmente à privacidade, não somente como funcionalidade, mas como um mantra de que se trata de um direito humano básico.

Se você se importa com a privacidade – e deveria – vale ouvir o discurso franco de Cook. Ele elaborou alguns pensamentos quando o entrevistei logo depois do painel. Nossa conversa não foi a típica ladainha conduzida pelo PR que alguns executivos fazem. E embora eu tenha ouvido Cook falar muitas vezes sobre privacidade antes, desta vez senti ele realmente tocou na ferida.

Não foi apenas o tom dele ao falar sobre privacidade. Ele também não poupou palavras sobre como a tecnologia impulsiona o extremismo, sobre colocarem todas as Big Techs no mesmo bolo, regulação governamental, autocensura e as chances de que uma lei federal de privacidade seja estabelecida nos EUA.

SOBRE AS PRINCIPAIS AMEAÇAS DO SÉCULO 21
Em uma comparação que nunca ouvi ninguém mais fazer, Cook afirma que a erosão da privacidade pareia com o desastroso aquecimento global que o planeta está vivenciando.

“Em termos de privacidade – acho que é um dos maiores assuntos do século. Temos a mudança climática – que é enorme. Temos a privacidade – que é enorme… e os dois assuntos deveriam pesar da mesma forma e deveríamos nos aprofundar nisso para decidir como podemos melhorar esses cenários, como podemos deixar algo para a próxima geração que seja melhor do que a situação atual.”

Quanto a outros problemas tecnológicos que preocupam Cook, estão as ameaças à criptografia ponta a ponta. “Sabe, acredito muito na criptografia ponta a ponta e me preocupo com quem tenta quebrar ou enfraquecer isso de alguma forma.”

Mencionei o vilão favorito de Elon Musk, a inteligência artificial, e perguntei se essa é uma ameaça tecnológica comparável às outras crises de privacidade. “Acho que as duas coisas podem ser usadas com maus propósitos e amplificadas pela tecnologia. Qual está acima de qual? Não sei. Diria que não podemos escolher somente uma das duas como foco. Temos de ter IA ética assim como temos de ter uma privacidade de dados ética. Há uma intersecção dessas duas coisas também, né? Ambas são importantes e precisam ser trabalhadas.”

COMO A FALTA DE PRIVACIDADE MUDA NOSSOS COMPORTAMENTOS
No começo da conversa, disse para Cook que – como alguém que enxerga valor da privacidade de dados – eu me empolguei com o App Tracking Transparency e os novos rótulos de privacidade da App Store. Mas ao mesmo tempo que muitas pessoas que conheço se importam com essas novas funcionalidades, também conheço muita gente que dão de ombros e dizem: “E daí se um app coleta meus dados? Não tenho nada a esconder.”

Perguntei a Cook como ele responderia a pessoas displicentes em relação a privacidade. Ele disse que embora essas pessoas digam que não ligam, apenas o fato de saber que empresas sugam tantas informações sobre eles – dados de compras e buscas – pode levar as pessoas a se auto censurarem.

“Tento fazer uma pessoa pensar sobre o que acontece em um mundo em que sabemos que estamos sendo vigiados o tempo todo. O que muda no seu próprio comportamento? O que você passa a fazer com menos frequência? O que você deixou de fazer? Por que você não é mais tão curioso sabendo que, cada vez que está na web, vendo coisas diferentes, explorando, você acabará se constringindo mais e mais e mais? Esse é o tipo de mundo ao qual ninguém deveria aspirar.”

“Acho que a maioria das pessoas, quando pensam desta forma, começam a rapidamente pensar: ‘Bom, o que estou procurando? Procuro por isso e aquilo. Não quero que as pessoas saibam que estou vendo isso e aquilo porque só estou curioso sobre isso’. Então é essa mudança de comportamento que acontece é uma das coisas que mais me preocupam e acho que todo mundo deveria se preocupar com isso também.”

SOBRE “BIG TECH”
Falei para Cook que no começo dos anos 2000 parecia que a maioria das pessoas – inclusive jornalistas – tratavam as empresas de tecnologia como cavaleiros brancos na montanha que iriam resolver todos os problemas do mundo. Parecia que todo mês um novo gadget ou software aparecia e melhorava muito nossas vidas: o iPod, a Wikipédia, o Google Maps. Mas quase duas décadas depois, as empresas de tecnologia – especialmente as Big Techs – estão cada vez mais demonizadas, em parte por causa da privacidade. Cook considera essa demonização justificada?

Ele é cauteloso com o uso do termo “Big Tech” em geral. A Apple – a empresa mais valiosa e influente do mundo – é parte do grupo que o termo abarca, um grupo que também inclui Facebook, Google, Microsoft e Amazon. “Acho importante as pessoas não categorizarem ‘Big Tech’ de uma forma que as pessoas encarem como algo monolítico, porque acho que as companhias são bem diferentes umas das outras. Fico preocupado com essa categorização ampla. Tento encorajar as pessoas e pensarem num nível mais profundo que esse e considerar cada companhia e seus respectivos modelos de negócios, como os conduzem, e daí em diante – pensar sobre seus valores. É assim que vejo.”

SOBRE O PAPEL DA TECNOLOGIA NO EXTREMISMO
Falando sobre valores, Cook não se esquiva de confrontar o papel que algumas empresas tecnologia tiveram na radicalização e propagação de ideologias extremistas nos EUA. Ele apontou que a falta de privacidade é também o que faz com que dados sejam coletados para construir perfis sobre pessoas que “são manipuladas para fomentar o extremismo e outras coisas.”

Perguntei se é justo culpar algumas empresas de tecnologia pelo papel que suas plataformas possam ter tido na radicalização de pessoas, como as que invadiram o Capitólio no começo do ano, episódio que resultou em cinco mortes.

“A tecnologia… pode ser usada para amplificar, organizar e manipular o pensamento das pessoas. Então acho que uma visão justa seria dizer que a tecnologia foi parte da equação. E não devemos fugir disso. Devemos tentar entender e descobrir como fazer com que isso não aconteça de novo. Como vamos melhorar?”

LEGISLAÇÃO SOBRE PRIVACIDADE
No painel, Cook argumentou favoravelmente sobre a GDPR (Lei Geral de Proteção de Dados da União Europeia), que oferece proteção aos dados e à privacidade dos cidadãos. Isso me fez pensar em quanto ele acha que os governos são responsáveis pela legislação da privacidade quando tantas empresas de tecnologia não parecem querer oferecer proteção.

“Acho que a GDPR é uma regulação de base ótima. E acho que deveria ser uma lei no mundo inteiro. E temos de construir isso – de nos apoiar nos ombros da GDPR e ir além.” Esse próximo passo inclui olhar para as proteções regulatórias levadas a sério pela Apple, como os quatro pilares de minimização de dados, processamento do dispositivo, transparência e segurança. “Acho que precisamos pensar sobre cada um desses pontos para escrever uma nova regulação. Porque temo que as companhias não irão fazer isso.”

Isso dito, Cook admite que ele geralmente não é fã de regulação. “Acho que pode ter consequências ruins. Mas neste caso em particular, fizemos o experimento e não funcionou. E precisamos da participação dos governos ao redor do mundo, na esperança de que apresentem um padrão global em vez dessa colcha de retalhos”.

SOBRE O FUTURO
Por fim, perguntei a Cook se os EUA, com todas as suas gigantes da tecnologia e seus poderosos lobbies, implementarão legislações em linha com a GDPR. Considerando o tom franco e grave da conversa, fiquei aliviado em ouvir que ele tem esperanças de que tal regulação seja estabelecida de fato.

“As pessoas estão vendo os resultados de não ter isso. Não todo mundo, mas a vasta maioria das pessoas não está feliz com o modo com que as coisas estão indo. E penso que com as pessoas se sentindo assim, os representantes dessas pessoas começam a mudar suas visões também. Então estou otimista quanto a isso – podem me chamar de ingênuo, mas estou otimista.”

É um otimismo do qual eu compartilho. E seus frutos serão mais do que bem-vindos.

SOBRE O AUTOR

Michael Grothaus é romancista, jornalista e ex-roteirista. Seu romance de estreia, Epiphany Jones, acaba de ser publicado pela Orenda Books.